Edição nº2556 14/12 Ver edições anteriores

Meu tio George

Meu tio George é fuzileiro naval.
Capitão de Mar e Guerra.
Quando eu tinha uns dez anos, ele me levou para conhecer o quartel que comandava.
Que maneira de conquistar para sempre o respeito e o orgulho de um sobrinho.
A verdade é que a Disney não seria tão bacana para uma criança como o quartel do tio George.
Logo na entrada, dois soldados, ao ver seu carro apontar, assumiram a posição de sentido.
Sorri por dentro.
Igual aos filmes, pensei.
Aliás, o quartel tinha tudo que os filmes têm.
Grupos de soldados correndo e repetindo frases aos gritos.
Uma sala de oficiais.
Uma sala de armas, blindados e por aí vai.
Era o Batalhão de Engenharia.
– Mas por que engenharia?
Ele explicou que o batalhão era responsável por prover a infraestrutura dos outros batalhões.
– Essa máquina aqui — explicou — a gente coloca num riacho e purifica trocentos litros de água por minuto.
Ele não falou trocentos. Eu é que não lembro quantos. Mas eram muitos.
Explicou que o batalhão podia construir pontes, montar pequenos hospitais, essas coisas.
Infraestrutura.
O Batalhão de Engenharia chegava num lugar ermo qualquer e criava uma minicidade.
Ou seja, os fuzileiros desse batalhão fazem, na guerra, o que o governo deveria fazer com o País nos tempos de paz.
A Intervenção no Rio de Janeiro me fez lembrar do quartel do tio George.
Os militares fazendo o que o governo deveria fazer.
Sendo assim, olha só que bela solução.
Vamos entregar o País para o Batalhão de Engenharia dos Fuzileiros Navais!
Afinal, guerra mesmo de verdade nós não vamos enfrentar tão cedo, não é mesmo?
Com quem poderíamos entrar em guerra?
Com a Bolívia?
O Paraguai?
No máximo a Argentina se perder a Copa com gol do Neymar.
Enquanto isso, o Batalhão de Engenharia está lá, treinando.
Restrito a seu quartel.
Gerações de soldados altamente especializados que nunca tiveram a chance de colocar em prática suas habilidades.
Ao colocar o Exército no Rio, vamos admitir: nós, civis, não demos conta do recado de cuidar da segurança.
Já que estamos fazendo esse mea culpa, vamos ser honestos.
Também não demos conta do saneamento, da saúde, da educação.
Então pronto!
Construir viadutos? Batalhão de Engenharia.
Saneamento? Batalhão de Engenharia.
Podemos expandir o plano e chamar cada uma das Forças Armadas em suas especialidades.
Aeroportos? Aeronáutica.
Portos? Marinha.
Porque, convenhamos, com nossos votos, conseguimos espalhar incompetência em praticamente todas as áreas de atuação do governo.
Aí você vai dizer “pronto, mais um que quer a volta o governo militar”.
Ora, por favor.
Longe disso.
Quem foi que falou em governo?
Em meu projeto, o governo continua lá, em Brasília, cuidando de seus escândalos e de suas trapalhadas.
Continuamos uma democracia de primeira.
O Legislativo pode continuar votando seus próprios benefícios. O Executivo pode continuar vendendo a alma para aprovar seus projetos e o Judiciário continua lá, discutindo quem soltar e quem prender (se não tiver foro privilegiado, claro).
Os militares não vão nos governar.
Vão trabalhar, que é o que esperávamos do governo, mas não deu certo.
O governo continua civil, eleito com nossos votos.
A diferença é que não importa mais quem elegemos.
Porque, pelo andar da carruagem, até hoje também nunca se importou.

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Mentor Neto

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