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‘Meu pai estaria vivo com transferência’, diz filho de idoso que aguardava UTI


O enfermeiro do trabalho Reginaldo Pacheco, de 39 anos, morador de Boituva, interior de São Paulo, conta que gostaria de chorar a morte de seu pai, o aposentado Antônio Carlos Pacheco, de 70, sem ter de sufocar a indignação que sente pelas circunstâncias em que o óbito aconteceu. Durante 14 dias, a família lutou para conseguir uma vaga em UTI para o idoso, internado em um hospital da cidade por causa da covid-19, sem sucesso. “Conseguimos até uma liminar da Justiça mandando o Estado transferir em 24 horas, sob pena de multa, mas aí já tinha ficado tarde”, conta o filho.

Reginaldo acompanhou de perto a luta do pai pela vida. “Ele pegou a covid e estava tomando os medicamentos em casa e estava bem. No domingo, dia 21 (de março), à noite, ele se queixou de falta de ar. Tomei a pressão e, como estava muito baixa, levei-o ao hospital. Lá fizeram a medicação, colocaram no oxigênio e a saturação melhorou, mas o médico achou melhor que ficasse internado.”

No dia seguinte, o médico ligou para avisar que o paciente havia sido intubado e já havia sido cadastrado na Central de Regulação de Ofertas de Serviços da Saúde (Cross) do governo estadual. “Aí começou aquela angústia da espera por uma vaga que não aparecia. Foram passando os dias, ele ia piorando, e nada. Dois, quatro, seis, oito dias e nada. A gente ligava e era sempre a mesma resposta. Ainda não apareceu a vaga.”

Já em desespero, Reginaldo procurou um advogado que entrou na justiça com pedido de transferência imediata, devido ao risco iminente de morte. “Entramos com o pedido no sábado, dia 3 (de abril), e na segunda de manhã (5) a juíza já havia expedido a liminar para ser cumprida em 24 horas, com multa diária de R$ 500, mas já não deu. A pressão desestabilizou e os remédios já não faziam efeito. Os médicos iam tentar uma intubação, mas não deu tempo, ele teve uma parada cardíaca e se foi. Se ele tivesse sido transferido no segundo, no quarto, ou mesmo no décimo dia de espera, estaria vivo, talvez estivesse aqui com a gente. Era um homem forte, ia três vezes por semana para a chácara, trabalhava, roçava o mato.”

O enfermeiro pretende acionar o Estado por não ter dado as condições de que o pai precisava para ter chance de sobreviver. “Não é por dinheiro, mas pela questão moral, pelo descaso com que a vida de um ente querido seu foi tratada. Tudo o que ele precisava era de uma UTI com suporte avançado, onde teria meios de lutar pela vida que não tinha na unidade semi-intensiva onde estava. O Estado teve 14 dias para dar isso a ele e não o fez. Boituva não é um grande centro e nossa família é daqui. As pessoas o conheciam e muitos lamentam a forma como ele se foi. Tenho uma irmã já casada e era eu quem fazia companhia a ele e minha mãe. Agora a casa está mais vazia. Ele nos faz uma falta imensa.”


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Sobre a morte do aposentado, a Secretaria da Saúde do Estado informou que a Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde (Cross), que coordena a transferência para leitos, monitorava o caso, “que já era extremamente grave desde o momento em que foi cadastrado”. Segundo a pasta, “o paciente apresentou piora progressiva, foi intubado e era essencial a estabilização para transferência segura, o que não ocorreu”.

Reginaldo Pacheco, que tem formação de enfermeiro, contestou essa versão, pois acompanhou o esforço dos médicos na tentativa de obter vaga em UTI para a transferência. Já a liminar judicial mandando transferir o idoso foi recebida no dia 4 de abril e, segundo a pasta, “neste momento, o paciente tinha quadro clínico que configurava risco de deslocamento”.

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