A Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, atribuiu a problemas técnicos a redução do alcance de publicações relacionadas à campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. A companhia, no entanto, negou as acusações de que estaria favorecendo conteúdos do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa presidencial de 2026.
A manifestação ocorre após a campanha petista acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), alegando suspeitas de interferência no processo eleitoral brasileiro.
Em nota, a Meta afirmou que os problemas identificados não ficaram restritos ao Brasil nem a contas específicas de suas plataformas. A empresa também declarou que cumpre a legislação eleitoral e mantém compromisso com a igualdade de condições de uso de seus serviços.
A campanha de Lula, por outro lado, questiona a falta de informações detalhadas sobre a extensão das falhas e seus possíveis efeitos sobre outros candidatos.
Meta reconhece problemas técnicos e rejeita acusações
A controvérsia ganhou força depois que representantes da campanha petista relataram dificuldades relacionadas ao alcance de publicações nas redes sociais.
Ao responder às acusações, a Meta reconheceu a existência de problemas técnicos, mas contestou a interpretação de que eles representariam uma ação direcionada contra o candidato do PT.
A empresa classificou como falsas as alegações de favorecimento eleitoral e afirmou que as falhas também atingiram outros mercados e anunciantes.
Segundo a companhia, suas plataformas operam em conformidade com as normas eleitorais brasileiras.
A explicação, entretanto, não encerrou a disputa. A campanha de Lula cobra informações que permitam identificar a origem dos problemas, sua duração e quais contas foram efetivamente afetadas.
TSE determina que Meta apresente esclarecimentos
Diante das denúncias, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu um prazo de 48 horas para que a Meta prestasse esclarecimentos sobre as restrições relatadas pela campanha petista.
A medida busca reunir informações sobre o funcionamento das plataformas e avaliar as alegações apresentadas.
O acionamento do TSE não significa que tenha sido comprovada interferência eleitoral. Trata-se de uma etapa de apuração das circunstâncias e dos possíveis impactos dos problemas relatados.
A campanha também levou o caso à Agência Nacional de Proteção de Dados, ampliando a discussão para aspectos relacionados ao tratamento de dados e ao funcionamento dos serviços digitais.
Até o momento, as informações apresentadas não permitem concluir que tenha ocorrido favorecimento deliberado de qualquer candidatura.
Campanha de Lula questiona diferença de engajamento
Um levantamento da Secretaria Nacional de Comunicação do PT aponta que a página de Flávio Bolsonaro registrava, em média, engajamento 2,96 vezes maior que a de Lula, apesar de possuir 17,2% menos seguidores.
Os números foram utilizados pela campanha petista para sustentar o pedido de investigação.
Entretanto, a diferença de engajamento, isoladamente, não comprova manipulação de algoritmos ou tratamento desigual por parte da plataforma.
O desempenho de publicações nas redes sociais pode variar conforme o tipo de conteúdo, a frequência das postagens, as interações dos usuários e outros fatores.
Para a campanha de Lula, a explicação apresentada pela Meta ainda é insuficiente, especialmente pela ausência de dados detalhados sobre o alcance das falhas técnicas em outras contas e candidaturas brasileiras.
Divergência envolve campanhas e regulação das redes sociais
O episódio ocorre em meio ao debate sobre a atuação de grandes plataformas digitais durante períodos eleitorais.
A transparência dos sistemas de recomendação, a distribuição de conteúdos políticos e os critérios de moderação estão entre os temas discutidos por autoridades eleitorais e especialistas.
Em janeiro de 2025, após o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, Mark Zuckerberg, controlador da Meta, anunciou mudanças na atuação da companhia e criticou iniciativas de regulação das redes sociais em diferentes países.
A posição da empresa ampliou discussões sobre sua relação com governos e sobre os limites da intervenção estatal nas plataformas.
Essas declarações, contudo, não constituem prova de que a Meta tenha interferido na disputa presidencial brasileira de 2026.
Caso Cambridge Analytica marcou debate sobre dados e eleições
O uso de informações pessoais em campanhas políticas ganhou repercussão internacional com o escândalo envolvendo a Cambridge Analytica.
A empresa teve acesso a dados de milhões de usuários do Facebook, utilizados em atividades de direcionamento político relacionadas, entre outros episódios, às eleições presidenciais americanas de 2016.
Em 2018, o Facebook reconheceu falhas relacionadas ao acesso e à utilização de informações de usuários por terceiros.
No ano seguinte, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) anunciou uma multa de US$ 5 bilhões contra a empresa por violações relacionadas à privacidade.
O caso passou a ser uma referência nos debates sobre proteção de dados, publicidade política e responsabilidade das plataformas digitais.
Apesar desse histórico, a controvérsia atual envolvendo a campanha de Lula apresenta circunstâncias próprias e depende de apuração específica.
Apuração deverá esclarecer alcance das falhas
O ponto central da disputa é determinar se os problemas técnicos identificados pela Meta afetaram diferentes usuários e anunciantes de maneira ampla ou se houve impacto desproporcional sobre conteúdos da campanha petista.
A Meta sustenta que não favoreceu nenhum candidato e afirma que as falhas não foram exclusivas do Brasil.
A campanha de Lula contesta a suficiência dessas explicações e busca esclarecimentos das autoridades competentes.
A eventual identificação de irregularidades dependerá da análise das informações técnicas e das decisões dos órgãos responsáveis.
Da IstoÉ