O título da Viradouro no Carnaval do Rio conquistado nesta quarta-feira, 18, teve um sabor especial, principalmente por colocar Mestre Ciça no centro do desfile. Dessa forma, a escola transformou a trajetória de um dos nomes mais respeitados do carnaval em enredo campeão, além de ter emocionado a Sapucaí.
Leia também:
Escola de samba que homenageou Lula é rebaixada no Carnaval do Rio
Quem é Mestre Ciça?
Moacyr Silva Pinto, conhecido como Mestre Ciça, tem 69 anos e é um dos personagens mais respeitados do carnaval do Rio de Janeiro. Regente da bateria da Unidos do Viradouro, ele construiu uma trajetória marcada por disciplina, talento e, sobretudo, humildade.
Mesmo sendo referência absoluta no samba carioca, nunca foi uma figura midiática. Pelo contrário: é conhecido pelo perfil discreto e pela dedicação silenciosa. Não à toa, é chamado pelos próprios ritmistas de “mestre dos mestres”.
Por que a vitória da Viradouro é considerada a redenção do sambista raiz?
Em 2026, a Viradouro levou para a avenida o enredo “Pra Cima, Ciça”, uma homenagem direta ao mestre. A vitória foi vista como a consagração do sambista raiz em uma era de enredos grandiosos e altamente tecnológicos.
A escolha não foi apenas afetiva — representou também a valorização da resistência do samba tradicional, personificada na figura magra e carismática de Ciça.
Durante a apuração, realizada na Cidade do Samba, o mestre acompanhou cada nota com emoção. A cada 10, vibrava junto aos integrantes.
“Essa vitória é resultado de muito trabalho, muito suor. Foi um desfile lindo que reconheceu a grandeza e importância de Ciça para o samba”, afirmou o presidente da escola, Marcelinho Calil.
Ver essa foto no Instagram
Qual é a rotina de Mestre Ciça no dia do desfile?
Mesmo sendo o homenageado, Ciça não mudou sua postura. Foi um dos primeiros a chegar ao Sambódromo da Marquês de Sapucaí, horas antes da apresentação.
Ele participa da afinação dos instrumentos, organiza a bateria e prepara sua “orquestra” — como gosta de chamar o conjunto de ritmistas.
Sentado no meio-fio, aguardou pacientemente o início do desfile.
Como foi a participação dele na avenida?
Ciça abriu o desfile com a comissão de frente da escola e depois percorreu a pista de moto por dentro do sambódromo para reassumir seu posto à frente da bateria, que encerrou a apresentação.
Ele também reeditou uma cena icônica do carnaval de 2007, quando os ritmistas se apresentaram sobre um carro alegórico.
Na avenida, dividiu os holofotes com a rainha de bateria, a atriz Juliana Paes, que destacou a emoção coletiva:
“Levar um campeonato para o Mestre Ciça, que merece tanto, acho que é por isso que está todo mundo consternado, emocionado. Ele é a humildade em pessoa. É um cara simples, do povo.”
Mestre Ciça é o mestre de bateria mais longevo em atividade?
Sim. Com quase 40 anos à frente de baterias, Ciça é considerado o mestre de bateria mais longevo em atividade no carnaval carioca.
Sua trajetória começou em 1971, como passista na Unidos de São Carlos, considerada a primeira escola de samba do Rio. Em 1977, tornou-se ritmista, tocando agogô de duas bocas.
Em 1983, a escola passou a se chamar Estácio de Sá. Seis anos depois, Ciça assumiu o comando da bateria.
Ele brilhou no histórico carnaval de 1992, quando a Estácio venceu com o enredo “Paulicéia Desvairada”.
Ao longo da carreira, passou também por escolas como União da Ilha do Governador, Acadêmicos do Grande Rio e Unidos da Tijuca.
Na própria Viradouro, conquistou títulos importantes, incluindo 2020, 2024 e agora 2026.
Por que ele é chamado de “Mestre Caveira”?
Extremamente magro e fumante inveterado, Ciça ganhou o apelido de “mestre caveira”. Longe de rejeitar a alcunha, adotou a caveira como amuleto pessoal.
Durante a comemoração do título, fez uma promessa emocionante:
“É muita emoção, muita alegria. A emoção foi de ver a avenida, a arquibancada. Não tenho palavras. E vou até parar de fumar.”
O que a vitória representa para o carnaval?
Mais do que um campeonato, a vitória simboliza o reconhecimento de uma vida dedicada ao samba. Em tempos de espetáculos cada vez mais tecnológicos, a Viradouro apostou na força da história e da emoção.
E o resultado foi uma consagração coletiva — da escola, da bateria e, sobretudo, de um mestre que transformou disciplina e humildade em legado.