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Messias prega no deserto de ideias

Crédito: DANIEL TEIXEIRA

(Crédito: DANIEL TEIXEIRA)

Ok, vamos partir para as novas fixações, outros planos prioritários, de nosso capitão-reformado eleito Jair Messias Bolsonaro, também atendendo pela alcunha de “Mito” entre grupos de idólatras que cultuam a sua infinita genialidade, digamos assim. Esqueçamos por um momento que ele tenta premiar os maus hábitos de motoristas infratores, estendendo a pontuação das penalidades, busca lançar crianças ao risco de acidentes automobilísticos com o fim da exigência das cadeirinhas, eliminar o horário de verão, rever o sistema da tomada de três pinos, armar a população para uma ameaça de golpe, comprar drones que custam R$ 150 milhões/cada para vigiar o espaço aéreo e outras quinquilharias ideológicas de quem parece estar sempre maquinando a próxima traquinagem como deleite aos seguidores. O que vai mudar de vez o País agora, pauta para um Brasil melhor, na sua concepção, é a transferência do Prêmio de Fórmula Um para o Rio de Janeiro. Interesse estratégico nacional, prega o Messias. Com um detalhe: a Cidade Maravilhosa terá de construir um autódromo inteiramente novo, do zero, após ter destruído por completo o último (em Jacarepaguá), por falta de uso. Até já escolheu endereço — muito adequado, diga-se de passagem. Será em Deodoro, na periferia da capital. Para quem não está familiarizado com a localidade, o terreno fica plantado no meio do mato, cercado por favelas, sem saneamento básico, sem vias de acesso, sem energia. A exigir, portanto, das autoridades simpatizantes da proposta um investimento brutal em infraestrutura e no sistema de suporte ao pretendido evento. O Rio de Janeiro que já é célebre por erguer elefantes brancos poderá ter mais um com o beneplácito, apoio e incentivo de Messias. Será mesmo um novo monumento ao desperdício. Não foram suficientes os exemplos das estruturas caindo aos pedaços e apartamentos encalhados da Vila Olímpica, muito menos o símbolo da corrupção trazido pela bilionária reforma do Maracanã ou o estado de ruínas das arenas e parque aquático, construídos para os jogos. É preciso mais, muito mais investimentos em cacarecos para saciar os sonhos birutas de governantes. Por que investir em hospitais e escolas se o Rio já está irremediavelmente falido nessas áreas? São necessários cartões-postais, as chamadas obras faraônicas, enquanto o povo pena por emprego e qualidade de vida. Na prática, o presidente Bolsonaro confunde vontades pessoais com planos estratégicos. Transforma convicções em políticas de Estado. Arrasta multidões de fanáticos ao cadafalso da disruptura social. É de um primitivismo bárbaro andar produzindo agendas secundárias e fora de contexto. Nessa usina de desvarios parece se pretender um regresso equivocado aos tempos de campanha, quando promessas, mesmo irrealizáveis, entravam em evidência à cata do voto dos incautos. Em plena gestão de governo, atos e propostas continuam midiáticos. Bolsonaro, mesmo desajeitado, “paga dez” flexões, arrisca dueto de cantoria em italiano com a mãe, anda de jet-ski (antecessores fizeram o mesmo em busca de cliques), visita freiras e fala em reeleição como se estivesse nos derradeiros dias de mandato, prestes a necessitar do apoio popular em novo escrutínio. Tática prematura, sem dúvida, para quem mal entrou em campo na batalha de reconstrução do País. Ele sequer resolveu — e nessa toada vai demorar a resolver — problemas estruturais graves como o desemprego e a queda do PIB econômico. Messias barbariza o espetáculo quando arma a sua tenda de decretos para governar, tal qual um soberano, e depois é obrigado a voltar atrás por ter atravessado a sinfonia de leis da Constituição. Fica então a se queixar que estão querendo transformá-lo em “rainha da Inglaterra”, repetindo o papel figurativo e simbólico da monarca inglesa. O mandatário escolhe, ele mesmo, esse caminho e se isola. Parece pregar no deserto de ideias pelo simples impulso de mandar, maior que o de governar. Deveria se movimentar na qualidade de presidente de todos os brasileiros, ouvindo e atendendo aos mais de 200 milhões de habitantes dessa terra de dimensões continentais, e não restringindo a pauta aos anseios da patota das redes, minoria que lhe diz amém.


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