Messi se despede da argentina com gol, assistência e lágrimas

Craque marca, assiste e emociona torcida em Buenos Aires em adeus à seleção, encerrando um ciclo de glórias e superações

Messi se despede da argentina com gol, assistência e lágrimas

O craque Lionel Messi viveu no estádio Monumental, em Buenos Aires, uma despedida à altura de sua trajetória com a seleção argentina na vitória por 3 a 0 sobre o Benin, na última terça-feira (6).

Em uma noite dedicada ao camisa 10, o craque marcou um gol, deu duas assistências e recebeu o carinho de uma torcida que parou para homenagear o maior ídolo do futebol do país.

Mais do que os números, porém, foram as lágrimas que traduziram o significado do momento. Antes mesmo de chegar ao estádio, Messi foi flagrado emocionado no ônibus da delegação.

No gramado, enquanto fazia seu discurso de despedida, jogadores apareciam de mãos postas, em silêncio, contemplando a cena. Enzo Fernández não conteve o choro.

“Será uma dor imensa não estar mais aqui. Eu adoraria continuar jogando para sempre e sentirei muita falta disso”, afirmou Messi, em uma das falas mais emocionantes da noite.

O craque também dedicou as primeiras palavras ao pai, cuja morte, em agosto, tornou ainda mais doloroso um período já marcado por despedidas. Ao falar sobre a seleção, no entanto, prevaleceu a gratidão.

“Jogar pela Argentina é a coisa mais linda que pode acontecer com alguém. Com a seleção e meus companheiros, realizei meus sonhos de infância, tornando-me campeão mundial, da América e de tudo mais que disputamos“, declarou.

A relação de Messi com a camisa argentina nem sempre foi marcada por celebrações. Durante anos, a seleção representou justamente o grande vazio de sua carreira. Depois de conquistar cinco Bolas de Ouro, quatro títulos da Liga dos Campeões e inúmeros troféus pelo Barcelona, o atacante acumulou frustrações com a Albiceleste.

Após perder para o Chile na Copa América de 2016, chegou a questionar se o futebol de seleções era para ele. Eram quatro finais perdidas, três delas consecutivas. A história, porém, mudou radicalmente sob o comando de Lionel Scaloni.

Com o treinador, Messi assumiu definitivamente o papel de líder da seleção e viveu uma espécie de segunda juventude. Vieram os títulos da Copa América, da Finalíssima e, principalmente, da Copa do Mundo de 2022, no Catar, conquista que encerrou a principal pendência de sua carreira.

Por isso, a despedida no Monumental carregava um significado que nenhuma homenagem no futebol de clubes poderia reproduzir. O estádio recebeu uma enorme camisa com o número 10 e a palavra “Gracias”, enquanto diferentes pontos da Argentina foram iluminados em azul e branco e receberam homenagens ao ídolo.

Antes do jogo, Messi havia publicado nas redes sociais fotos de seu último treino pela seleção. “Momentos especiais que sei que sentirei falta”, escreveu. A postagem recebeu quase 7 milhões de curtidas e uma enxurrada de mensagens emocionadas. Antonella Roccuzzo, esposa do jogador, respondeu com quatro emojis de lágrimas.

Até o metrô de Buenos Aires entrou no clima da despedida. A empresa anunciou uma extensão do serviço noturno da Linha D para atender os torcedores e publicou um vídeo com camisas e troféus de Messi expostos em um vagão.

No fim da gravação, a porta se abre na última estação e uma cabra aparece saindo sozinha — uma referência ao apelido “GOAT”, usado para definir o argentino como o maior de todos os tempos.

No Monumental, a homenagem continuou. O hino nacional foi interpretado pelo veterano de guerra Fabio Santana, enquanto uma faixa com a mensagem “Las Malvinas son argentinas” era exibida nas arquibancadas. Messi não cantou, como já havia acontecido em outros momentos de sua carreira, mas sua relação com a seleção deixou de ser questionada depois dos títulos conquistados.

A partida começou com um cenário quase surreal. Aos dez minutos, o jogo foi interrompido para uma homenagem ao camisa 10. Pouco depois, Messi teve duas boas oportunidades, incluindo uma chance clara aos 32 minutos após passe de Lautaro Martínez. Nenhuma delas terminou em gol, e o primeiro tempo acabou em 0 a 0.

A resposta veio logo no início da segunda etapa. Aos três minutos, Messi cobrou escanteio e Nicolás Otamendi marcou de voleio, colocando a Argentina em vantagem. O defensor, que também se despedia da seleção, está entre os jogadores que por mais tempo dividiram o campo com Messi.

Pouco depois, entrou Nico Paz. E a noite ganhou um símbolo de passagem de bastão: Messi iniciou a jogada e o jovem argentino acertou uma bela finalização de canhota, de fora da área, no canto oposto.

Messi já havia registrado suas assistências de número 66 e 67 pela seleção. Faltava o gol para completar a festa. A oportunidade surgiu em um pênalti. Com a tranquilidade habitual, o camisa 10 bateu cruzado, no ângulo, e marcou seu 126º gol em 208 partidas pela Argentina — 138 delas como capitão.

Os companheiros correram para abraçá-lo e, pouco depois, dançaram ao seu redor no centro do campo. O restante da partida tornou-se quase um detalhe. Messi ainda desperdiçou uma oportunidade cara a cara e, nos minutos finais, viu o goleiro de Benin desviar uma de suas últimas finalizações de canhota na trave.

Quando o árbitro apitou o fim, todos os olhares se voltaram para Messi. Até os cartões utilizados na partida foram entregues a ele como lembrança.

A celebração, porém, teve um momento de contraste quando um espetáculo de drones organizado pela federação começou a formar o logotipo de um patrocinador, provocando irritação nas arquibancadas. A emoção logo voltou a tomar conta do estádio.

“Não deixe nada destruir o seu amor”, cantavam Los Gardelitos. A frase parecia resumir a escolha de Messi: preservar a relação construída com a seleção sem permitir que a passagem do tempo transforme uma história de conquistas em melancolia.

Aos 39 anos, diante da proximidade dos 40, Messi preferiu encerrar seu ciclo com a Albiceleste preservando a imagem do campeão mundial, do líder e do ídolo que finalmente conquistou tudo aquilo que durante tantos anos parecia escapar.

Foram duas décadas de uma relação intensa, marcada por derrotas dolorosas, críticas, renascimento e, finalmente, glória. Agora, resta a memória de um jogador que transformou a camisa 10 em símbolo de uma geração e fez da Argentina campeã mundial novamente.