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Mesa forma aliança na Bolívia para pressionar por segundo turno

Mesa forma aliança na Bolívia para pressionar por segundo turno

Presidente da Bolívia, Evo Morales, em coletiva de imprensa em 23 de outubro de 2019 em La Paz - AFP

O candidato presidencial boliviano Carlos Mesa, adversário do presidente Evo Morales nas eleições de domingo passado, anunciou nesta quarta-feira a formação de uma “Coordenação de Defesa da Democracia”, com o objetivo de pressionar para que haja um segundo turno.

O objetivo da aliança com os partidos da direita e líderes centristas é “conseguir que se cumpra a vontade popular de definir a eleição presidencial no segundo turno”, destaca uma nota publicada no Twitter.

A aliança articulada por Mesa é formada pelo governador de Santa Cruz, Rubén Costas, o candidato de direita Óscar Ortiz, o empresário Samuel Doria Medina, líder da Unidade Nacional (UN, centro direita), e Fernando Camacho, executivo do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, da direita radical, entre outros.

Mesa acusa Morales de orquestrar uma fraude para vencer no primeiro turno, com o auxílio das autoridades eleitorais.

O comunicado convoca os bolivianos à “mobilização pacífica até que se consiga o objetivo democrático da declaração do segundo turno eleitoral”.

Uma missão de observadores da OEA já recomendou que, diante da desconfiança sobre o processo eleitoral, “continua sendo uma melhor opção convocar o segundo turno”.

Nesta quarta-feira, a Conferência Episcopal Boliviana (CEB) defendeu a realização de “um segundo turno, com uma supervisão imparcial, como a melhor saída democrática para o momento em que vivemos”.

“Nos preocupa o risco de confrontação entre os bolivianos diante de um processo eleitoral que, apesar do comportamento exemplar dos eleitores, perdeu a credibilidade pelas irregularidades”, destacaram os bispos.

Faltando menos de 2% dos votos para a conclusão da apuração, Morales se declarou “quase seguramente” vencedor da eleição.

“Eu estou quase certíssimo de que com os votos de áreas rurais vamos vencer no primeiro turno”, disse o presidente de esquerda.

O site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostrava às 2h07 locais (3H07 de Brasília) que Morales tem 46,32% dos votos válidos, contra 37,08% para o ex-presidente Mesa, pouco mais de nove pontos de diferença.

Morales vencerá no primeiro turno se obtiver ao menos 10 pontos de vantagem sobre Mesa.

O ministro da Justiça, Héctor Arce, declarou que é preciso esperar o resultado oficial final do Tribunal Superior Eleitoral antes de qualquer decisão, pois convocar o segundo turno diretamente “seria ignorar” a Constituição, “o que é pior que ignorar a vontade popular”.

– Queda de braço –

Uma greve geral indefinida começou nesta quarta-feira. Grupos leais e opositores ao presidente entraram em confronto na cidade de Santa Cruz.

Morales denunciou que “está em processo um golpe de estado”, em aparente referência aos protestos e à greve indefinida. “Quero que o povo boliviano saiba que até agora suportamos humildemente para evitar a violência e não entramos em confronto”, disse.

Suas declarações foram acompanhadas por seu aliado venezuelano Nicolás Maduro, que afirmou: “É um golpe de Estado anunciado, cantado e, posso dizer, derrotado. O povo boliviano derrotará a violência”.

Mesa, por sua vez, pediu “a mobilização permanente” de forma “democrática e pacífica” em defesa do voto, até que o tribunal eleitoral “reconheça que o segundo turno deve ser realizado”.

“Não vamos permitir que nos roubem uma eleição pela segunda vez”, acrescentou, referindo-se ao resultado de um referendo que não foi reconhecido por Morales para se candidatar a um quarto mandato.

A greve convocada por um coletivo de organizações civis dos nove departamentos do país começou a tomar corpo em Santa Cruz, onde manifestantes queimaram parte da sede do tribunal eleitoral na noite de terça-feira.

A greve também avança na rica região mineradora de Potosí e em outras zonas.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pediu à Bolívia para garantir a segurança, a integridade e as liberdades cidadãs, ao expressar sua “preocupação diante de graves atos de violência”.