Comportamento

Mergulho interior

Quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Com a pandemia e o distanciamento social, mais do que nunca ganha corpo a busca do ser humano pela reflexão e espiritualidade

Crédito:  GABRIEL REIS

CORPO E ALMA Gabriela Pereira: reforço espiritual graças ao “momento delicado da sociedade” (Crédito: GABRIEL REIS)

“A elevação espiritual nos ajuda em qualquer situação, até numa pandemia” Gen Kelsang Geden, monge budista (Crédito:Divulgação)

O gênio René Descartes cunhou uma frase que entraria para a História: “Penso, logo existo”. Analisada à exaustão, a reflexão é simples: se tudo é incerto, a única verdade inquestionável é a existência humana e a sua capacidade de refletir, debater e escolher o seu próprio destino. Hoje, passados séculos dessas reflexões, e em meio a uma pandemia avassaladora, a espiritualidade volta a ganhar corpo em um País que contabiliza mais de 90 mil mortos.

“A mente humana não está preparada para algo incontrolável como uma pandemia. O sofrimento coletivo faz com que as pessoas se adaptem e busquem soluções convenientes”, afirma o psiquiatra Guilherme Messas, professor da Santa Casa de São Paulo e membro do St Catherine’s College, em Oxford, na Inglaterra. Especialista em comportamento humano, ele afirma que é natural, na situação em que estamos vivendo, que o ser humano realize um mergulho interior. É o que vem acontecendo: desde o início da pandemia, a busca por meditação aumentou 80% no centro budista Mahabodhi, em São Paulo. Com missas e cultos de todas as crenças acontecendo online, as religiões têm visto o crescimento no interesse até de uma audiência que sequer se interessava pelo assunto.

SUPERAÇÃO Marina Damasceno e Guilherme Messas (abaixo): religiosidade e razão contra a Covid-19 (Crédito:Divulgação)

Transcendência

A designer catarinense Marina Rocha Damasceno foi a primeira a ler o diagnóstico de câncer da mãe, em dezembro do ano passado. Já em metástase, o médico da família foi categórico: não havia chances de cura. “Eu estava no mercado quando recebi o e-mail. Quando cheguei em casa, nem sabia onde estava a Bíblia”, lembra. A história de Marina com a religião está intimamente ligada à mãe, Rosy Benta da Silva. Quando Marina começou a namorar, aos 14 anos, Dona Rosy aceitou o fato, mas impôs uma condição: que o novo casal frequentasse a igreja. “A gente dizia que ia para o culto, mas acabávamos no cinema ou na lanchonete”. Hoje, com a pandemia, tudo mudou. A mãe morreu em março, e logo em seguida Marina perdeu a avó materna, vítima da Covid-19. O pai também está internado com o coronarívus, em estado grave. A pandemia levou Marina, aos 28 anos, a se inspirar na religiosidade da mãe. “Mesmo que eu perca toda a minha família, jamais abandonarei Deus”.

Divulgação

A baiana Gabriela Pereira cresceu em um ambiente de sincretismo religioso e gosta de afirmar que “é um pouco de tudo”. Sempre foi adepta do uso de ervas, florais e meditação. Quando seu filho de 24 anos cometeu suicídio, em abril, ficou em choque. Depois de um mês isolada, buscou ajuda no Espiritismo e na meditação, e conseguiu voltar a trabalhar. Desde então, a preparadora física incorporou em suas aulas o lado espiritual – e não apenas o físico. “Com a pandemia, a sociedade vive um momento delicado. Há muita ansiedade. Quero ajudar as pessoas a melhorarem, de corpo e alma”.

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Armando Remacre tem graduação em Engenharia de Minas pela Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, e Doutorado na École Nationale Supérieure des Mines de Paris, na França. O ex-professor da Universidade de Campinas (Unicamp) jamais pensou que um dia se tornaria um monge budista. Hoje, com o nome Gen Kelsang Geden, diz que é preciso abandonar a ideia de transcendência como uma coisa antiquada e símbolo de ignorância. “As pessoas não digerem a palavra ‘espiritual’ com facilidade”. O monge explica ainda que a inteligência emocional, tão em voga nos dias de hoje é, na verdade, uma versão atualizada da mesma característica. “A espiritualidade é um conceito que nos ensina a estar preparados para qualquer situação, seja no trabalho, no cuidado com os filhos ou no enfrentamento do lado psicológico de uma pandemia.”

Em seus anos como psiquiatra, Messas vê a prática religiosa como algo positivo, ainda mais no cenário atual – principalmente em questões que envolvem luto e depressão. Ele conta que, após as pandemias do passado, as pessoas, num primeiro momento, adotam duas posturas: a solidariedade e o “salve-se quem puder”. “Depois da Peste Negra, veio o Iluminsmo. Após a Gripe Espanhola, surgiram regimes totalitários, mas também importantes movimentos artísticos”. Se a humanidade é imprevisível em suas crenças, que a espiritualidade ajude a confortar quem precisa, independente da religião.

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