Brasil

Mentiras convenientes

Declarações falsas e disparatadas do presidente visam a encobrir o seu projeto antiambiental. É o caso da acusação contra o ator Leonardo DiCaprio

Crédito: Divulgação

NOVA FRENTE O IBAMA apreende árvores derrubadas ilegalmente. Enquanto isso, o presidente propõe liberar a exportação da madeira nativa (Crédito: Divulgação)

As declarações estapafúrdias do presidente sobre a crise ambiental atravessaram a campanha eleitoral, deram combustível à crise das queimadas na Amazônia e continuam em ritmo acelerado. Agora, em resposta aos incêndios no paraíso turístico e ecológico de Alter do Chão, no Pará, em setembro, Jair Bolsonaro acusou o ator americano e ambientalista Leonardo DiCaprio e a ONG WWF de financiarem queimadas criminosas. “O pessoal da ONG, o que eles fizeram? O que é mais fácil? Botar fogo no mato. Tira foto, filma, a ONG faz campanha contra o Brasil, entra em contato com o Leonardo DiCaprio, e o Leonardo DiCaprio doa US$ 500 mil para essa ONG. Uma parte foi para o pessoal que estava tocando fogo, tá certo? Leonardo DiCaprio tá colaborando aí com a queimada na Amazônia, assim não dá”, disse ele.

De forma previsível, as declarações tiveram repercussão internacional — e negativa. Os jornais “The New York Times” e “Washington Post” ressaltaram que o Jair Bolsonaro não mostrou nenhuma prova. O “The Guardian” escreveu que a acusação era falsa. O WWF negou receber doações do ator. DiCaprio também se deu ao trabalho de responder, apesar do disparate da denúncia. Declarou que “embora certamente mereçam apoio”, não financia as organizações “que estão atualmente sob ataque”. Para ele, “o futuro desses ecossistemas insubstituíveis está em jogo e tenho orgulho de fazer parte dos grupos que os protegem”.
Para seu ataque verbal mais recente, Bolsonaro havia aproveitado de forma apressada os dados de uma investigação conduzida pela Polícia Civil paraense, que acusou quatro brigadistas de São Paulo, radicados no Pará, de terem responsabilidade na tragédia. O caso é nebuloso. Os voluntários Daniel Gutierrez Govino, João Victor Pereira Romano, Gustavo de Almeida Fernandes e Marcelo Aron Cwerner foram presos no dia 26 de novembro, por ordem judicial, acusados de participação no crime para obter doações. Mas, dois dias depois, foram liberados pelo próprio juiz que havia assinado a medida.

O governador do Pará, Elder Barbalho (MDB), afastou o delegado responsável, e o MP disse que não há indícios do envolvimento de ambientalistas, que negam o crime. As causas prováveis já são conhecidas na região amazônica: ação de grileiros, loteamentos clandestinos e especulação imobiliária.

Não foi a primeira vez que Bolsonaro acusa ONGs sem provas. Ele já havia feito isso em agosto, quando carbonizou a imagem internacional do País na crise dos incêndios na região amazônica. Na época, preferiu atacar o respeitado órgão de monitoramento nacional, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e insultou a Noruega, que havia suspendido sua ajuda bilionária ao Fundo Amazônia. Sugeriu que a verba fosse usada para “reflorestar a Alemanha”. Nesse episódio, aproveitou para ofender a chanceler alemã, Angela Merkel, e a mulher do presidente francês, Emmanuel Macron.

O despautério diplomático teve consequências. O País desempenha um papel pífio na COP-25, a Conferência do Clima desse ano da ONU, que começou na segunda-feira 2, na Espanha. O evento ia ocorrer no Brasil e foi cancelado justamente pelo presidente brasileiro. Prevendo o papelão diplomático, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, buscou retomar nos últimos dias o discurso de que o Brasil precisa de financiamento internacional para a área.

Desinformação

Enquanto o show de disparates acontece em ritmo alucinante e provoca uma cacofonia de desinformação, caminha de maneira firme e quase silenciosa o projeto antiambiental. O presidente confirmou a intenção de liberar a exportação “in natura” de madeira nativa da Amazônia, que é ilegal. Isso abriria uma avenida para a exploração em larga escala de maneiras nobres, que são parcamente coibidas pela fiscalização. “É melhor você exportar de forma legalizada do que, de forma clandestina, continuar saindo do Brasil”, afirmou no dia 23 de novembro. É uma lógica enviesada, que poderia ser traduzida da seguinte forma: como não é possível coibir um roubo, é melhor facilitar a vida dos ladrões. É provável que isso tenha a ver com a nova narrativa de Salles para a questão, em Madri, essa semana. Ele propôs “monetizar os ativos florestais brasileiros”.

Essa pauta destrutiva caminha junto com o afago a suspeitos de crimes ambientais. Enquanto as ações midiáticas que o presidente tomou para evitar o desgaste, como o envio de militares às pressas para combater o fogo, já foram encerradas, segue firme o apoio à expansão da mineração e da fronteira agropecuária na Amazônia, assim como as medidas administrativas que flexibilizam o licenciamento ambiental. Ou seja, os ataques ao patrimônio natural e ao desenvolvimento sustentável continuam céleres apoiados na manobra diversionista abastecida pelas gazopas presidenciais.