Edição nº2581 13/06 Ver edições anteriores

Mentes obtusas

Quando eu era garoto, tinha uma divisão clara na escola entre o grupo dos inteligentes e aqueles mais obtusos. Estes nunca eram capazes de captar a ironia daqueles. Falo com conhecimento de causa: nunca fui inteligente, e ainda não sou. Mas me esforço bastante. E gostaria de compartilhar com os leitores algumas lições importantes que aprendi – ou assim acredito – com os sábios.

Comecemos pela tese de golpe no impeachment de Dilma. Um sujeito burro dirá que não houve golpe só porque a Constituição foi respeitada, as leis foram cumpridas e houve amplo direito de defesa. Poderão alegar que, para prevalecer a ideia de golpe, todos – Congresso, imprensa, Ministério Público, Polícia Federal e até STF – teriam de estar envolvidos. São limitados, tadinhos.

Meus mestres sábios explicaram que nada disso importa. Dilma era representante dos pobres e oprimidos, apesar do alto desemprego e da elevada inflação. Logo, derrubá-la é golpe e ponto final. Tudo não passou de uma vingança de Cunha, aquele que também caiu logo depois, pelo mesmo Congresso “sem moral”. As elites não suportam as conquistas sociais dos mais pobres, eis o fato. Por isso criticam tanto o socialismo. Basta ver como vivem bem os pobres na Venezuela.

As elites não suportam as conquistas sociais dos mais pobres, eis o fato. Por isso
criticam tanto o socialismo. Basta ver como vivem bem os pobres na Venezuela

Mas o golpe passou. E agora Temer, vejam só!, quer aprovar reformas estruturais, reduzindo os direitos dos trabalhadores. Seu governo quer flexibilizar as leis trabalhistas, que datam da era Vargas e foram inspiradas em Mussolini. Só alguém muito insensível pode desejar uma coisa dessas. Onde já se viu um trabalhador poder ter a liberdade de negociar diretamente com o patrão, sem ser obrigado a aceitar a incrível ajuda sindical?

“Nos países ricos”, um ser tacanho poderá responder. Nos EUA, na Alemanha e mesmo nos países escandinavos os trabalhadores não gozam dessa proteção sindical toda, não desfrutam das mesmas conquistas trabalhistas. Mas meus amados mestres explicaram: se esses países tivessem nossas leis trabalhistas rígidas, poderiam ser ainda mais ricos, tão ricos como nós! Poderiam ser até como uma Venezuela!

Há, ainda, a questão da previdência: o governo quer reformá-la só porque a conta não fecha e o rombo é crescente. Tenho pouca paciência para esses bitolados que adoram matemática. Se fossem mais inteligentes, saberiam que basta imprimir dinheiro para pagar as aposentadorias. E a inflação? Ora, basta congelar os preços depois. Vide, uma vez mais, o exemplo venezuelano.

Enfim, posso ser burrinho e não ter capacidade de compreender ironias, mas ao menos absorvi a inteligência dos meus professores marxistas. Impeachment é golpe, sindicatos são amigos dos trabalhadores e os rombos das aposentadorias são ilimitados. Ah sim: viva a Venezuela e Fora, Temer!


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