Cultura

Mensagem de caridade e sincretismo

A vida do médium baiano que adotou 682 crianças é narrada em “Divaldo — O Mensageiro da Paz”. Aos 92 anos, ele segue ajudando os desamparados nos planos físico e espiritual

Crédito: Divulgação

DESINTERESSE Na juventude, Divaldo (Ghilherme Lobo) e o amigo Nilson (Bruno Suzano) alimentaram os miseráveis nas ruas de Salvador (Crédito: Divulgação)

Aos poucos o cinema brasileiro emplaca narrativas de fé bem com a cara de nossa cultura. Depois de produções sobre os espíritas Chico Xavier e Bezerra de Menezes, chegou a vez de “Divaldo — O Mensageiro da Paz”, a trajetória do médium baiano de 92 anos que, ao longo dos últimos 67 anos, adotou 682 crianças desamparadas. Sua entidade assistencial, a Mansão do Caminho, atende até 5 mil pessoas por dia no bairro pobre e periférico de Pau da Lima, um dos mais violentos de Salvador.
O mérito e a oportunidade da produção, dirigida por Clovis Mello (de “Coração Vagabundo” e “Ninguém ama Ninguém”), é que a narrativa abraça e dá sentido ao sincretismo religioso brasileiro nesses tempos tão acirrados. Descontados os dramas pessoais, convivem em relativa harmonia cotidiana as fés cristã e afro-brasileira. Uma característica que tornou o espiritismo de Allan Kardec um sistema de crenças respeitado e cultuado por aqui, enquanto na França não passa de uma excentricidade de quem deseja se comunicar com entes queridos falecidos. Para os espectadores, a história pode tanto ser de cunho religioso como uma narrativa do realismo mágico, tão convincente e mística quanto as histórias de Jorge Amado por Salvador — onde parte das cenas foi rodada.

LUZ E TREVAS Máscara de Ferro (Marcos Veras), espírito que odeia o médium desde vidas passadas; em oposição, a guia espiritual Joanna de Ângelis (Regiane Alves) (Crédito:Divulgação)

Postes de luz

A missão espiritual de Divaldo (interpretado quando criança por João Bravo) não é apresentada como a saga do herói sofredor, mas como a construção e a iluminação de um homem comum que assumiu uma missão extraordinária, sempre com o apoio de quem compartilha da necessidade de atender os pobres — e também os afligidos por traumas cármicos e existenciais. O rompimento com o catolicismo de Dona Ana (Laila Garin), a mãe de Divaldo, após o suicídio da filha Nair (Alice Guega),
é que coloca o então jovem (Ghilherme Lobo) em contato com médiuns que o ajudarão com seu dom. A amizade com Nilson (Bruno Suzano), que acompanhou o trabalho do médium a partir de 1945, é exemplar. Conhecido como Tio Nilson, trabalhou na Mansão do Caminho até falecer, aos 89 anos, em 2013. Tudo começou quando o protagonista, ainda inexperiente, descobre que entidades assolam o pai alcoólatra e deprimido de quem seria seu maior amigo.

No mundo físico, a vida é até tranquila. O conflito se dá no plano espiritual. De um lado está Máscara de Ferro (Marcos Veras), um espírito obsessor que tenta a qualquer custo se vingar de um pecado cometido pelo protagonista numa vida passada. A seu lado, em segredo, está Joana de Ângelis (Regiane Alves), que não pode ter sua identidade revelada até que Divaldo esteja pronto. Nem o amigo Chico Xavier (Álamo Facó) pode lhe ajudar. É de Xavier que vem a melhor fala: “Somos como dois postes
de luz. Precisamos ficar separados para levar luz a mais lugares”. Em outro momento, um espírito manda Divaldo comprar um dicionário para entender o que lhe é dito.

Aos 92 anos, Divaldo Franco visitou o set de filmagem. Ativo, segue dando palestras e psicografando livros. Suas únicas vaidades terrenas aparentes são o gosto por gravatas e os cabelos, cuidadosamente tingidos.

O filme chega aos cinemas em 12 de setembro.

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