Mello Araújo defende Ypê, ignorando alertas da Anvisa

Vice-prefeito de São Paulo critica agência reguladora e defende empresa que teve produtos com falha no processo de produção

Ricardo Mello Araujo
Ricardo Mello Araújo, vice-prefeito de São Paulo Foto: Fabio Lazzari/Câmara dos Vereadores de SP

O vice-prefeito de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo (PL), ignora alertas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e promove o uso de produtos da marca Ypê nas redes sociais. Em vídeos publicados no Instagram no sábado, 9, o político defendeu a empresa, que teve diversos itens com recomendação de recolhimento e não uso por falhas graves no processo de produção.

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O que aconteceu

  • O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, ignora os alertas da Anvisa e defende publicamente a marca Ypê.
  • A Anvisa identificou falhas graves no processo de produção da Ypê, com risco de contaminação microbiológica, e recomendou o recolhimento e a não utilização de diversos lotes.
  • Apesar de a Ypê ter conseguido suspender temporariamente a proibição de comercialização, a Anvisa e o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo mantêm a recomendação de evitar o uso dos produtos afetados.

Em um vídeo publicado no Instagram no sábado, 9 de março, Ricardo Mello Araújo aparece lavando louça com um detergente da Ypê, enquanto outros produtos da marca são visíveis na pia. Ele fez um apelo público: “Aqui em casa, gente, é só produto Ypê. Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com uma empresa 100% brasileira.”

O vice-prefeito de São Paulo incentivou os consumidores a adquirirem produtos da marca e a compartilharem o gesto nas redes sociais. “Vamos nos supermercados, vamos comprar produtos Ypê. Quem tem produtos Ypê, posta no Instagram. Marca a Ypê. Vamos mudar essa história, vamos mostrar nossa força”, declarou.

Procurada pela reportagem do Estadão, a Prefeitura de São Paulo não se manifestou até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para futuros esclarecimentos.

Na semana passada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) havia determinado o recolhimento de diversos produtos da Ypê, alegando falhas graves no processo de produção. Embora a Química Amparo, empresa responsável pela marca, tenha obtido a suspensão da proibição de comercialização dos lotes até o julgamento da diretoria da agência, a Anvisa e o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) mantiveram a recomendação para que os consumidores evitem o uso dos produtos afetados.

O histórico do caso

Em uma publicação subsequente, Ricardo Mello Araújo revelou ter trabalhado na Ypê e reforçou sua defesa à marca. “Se tem uma coisa que eu não gosto é de injustiça. E uma grande injustiça está sendo cometida”, declarou, expressando sua insatisfação com a situação.

Ele descreveu a Ypê como uma “empresa 100% familiar, que tem um regime rigoroso de qualidade, que tem também um controle muito forte de compliance”. Segundo o vice-prefeito, caso houvesse qualquer problema com os produtos, a própria empresa seria a primeira a retirá-los do mercado.

Mello Araújo classificou as ações contra a Ypê como um “mal-entendido provocado pela Anvisa”, esperando que a questão seja solucionada rapidamente. “O prejuízo já foi causado, destruindo uma empresa brasileira”, lamentou.

Há interesses por trás das acusações?

Ricardo Mello Araújo também divulgou vídeos de outros indivíduos utilizando os produtos da Ypê, incluindo um material do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG). O senador levantou a suspeita de que a atuação da Anvisa contra a Ypê estaria relacionada a uma doação feita pela empresa à campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.

Cleitinho Azevedo criticou a agência reguladora, desafiando-a a agir com a mesma intensidade contra o “tigrinho”, uma referência a jogos de apostas. “Eu quero ver também mandar suspender e acabar de uma vez por todas com o tigrinho”, disse o senador. “Quero ver vocês ser leão (sic) como estão sendo agora com a Ypê e mandarem acabar de uma vez por todas com o tigrinho, que está acabando com a família brasileira”, afirmou Azevedo.

Entenda o caso

Na última quinta-feira, 7 de março, a Anvisa determinou o recolhimento de produtos da Ypê. A medida foi tomada após a identificação de descumprimentos em etapas críticas do processo produtivo, como falhas nos sistemas de garantia, produção e controle de qualidade da empresa.

Em nota oficial, a agência reguladora esclareceu que os problemas detectados comprometem os requisitos essenciais de Boas Práticas de Fabricação (BPF). Isso eleva o potencial risco de contaminação microbiológica, indicando a possível presença de microrganismos nocivos nos produtos da marca.

No dia subsequente à determinação, a Ypê apresentou um recurso administrativo contra a decisão da Anvisa. A empresa obteve a suspensão da proibição de comercialização de lotes específicos até que o caso seja julgado pela diretoria da agência.

Contudo, a Anvisa reiterou a orientação para que os consumidores não utilizem os produtos. A medida de cautela se aplica a todos os lotes com numeração final 1, fabricados pela Química Amparo na unidade de Amparo, interior de São Paulo.

O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) também manteve sua recomendação de evitar o uso. “O CVS esclarece que a avaliação técnica sobre o risco sanitário permanece mantida”, informou o órgão, destacando que o recurso da empresa não altera, por ora, a avaliação inicial da inspeção.

Em sua defesa, a Química Amparo divulgou uma nota afirmando que laudos técnicos independentes atestam a segurança de seus produtos.

A empresa garantiu que “continuará em diálogo constante e permanente com a Anvisa e demais autoridades, sempre baseada em critérios científicos e subsídios técnicos”. O objetivo é encontrar uma solução definitiva para a situação no menor tempo possível.

*Com informações do Estadão Conteúdo