Violência sexual aumenta em Porto Príncipe, diz relatório do Médicos Sem Fronteiras

Número de ataques contra meninas e mulheres quase triplicou em quatro anos

divulgação/Médicos Sem Fronteiras
98% das vítimas são meninas e mulheres Foto: divulgação/Médicos Sem Fronteiras

Um relatório divulgado pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) nesta quarta-feira, 28, indicou que a violência sexual e de gênero aumentou drasticamente na capital do Haiti, Porto Príncipe. O número de vítimas admitidas em clínicas de cuidado e acolhimento quase triplicou de 2021 para 2025 – acompanhando a crise generalizada que se instaura no país.

O levantamento “Violência sexual e baseada em gênero em Porto Príncipe, Haiti”, baseia-se em 10 anos de dados médicos e depoimentos coletados na clínica Pran Men’m, operada pela organização. Desde sua abertura em 2015, a clínica forneceu cuidados médicos e psicossociais abrangentes para quase 17 mil pessoas, das quais 98% são mulheres e meninas.

Para Diana Manilla Arroyo, coordenadora do projeto de MSF no Haiti, essa porcentagem mostra como “a explosão de violência no Haiti nos últimos anos teve um impacto direto sobre os corpos de mulheres e meninas em Porto Príncipe”. O estudo também explicita que as agressões não têm limitação etária: mulheres de todas as idades têm sido alvo da violência, e uma grande porcentagem de sobreviventes ainda é obrigada a se deslocar de suas casas, expondo-as a mais riscos.

O nível de brutalidade e crueldade também revelou-se preocupante, uma vez que entre as sobreviventes atendidas no Pran Men’m desde 2022, 57% relataram ter sido agredidas por membros de grupos armados, frequentemente em ataques coletivos cometidos por vários criminosos.

+ América Latina e Caribe impulsionam plano de ajuda ao Haiti

Falta de suporte: uma segunda agressão

Além da violência, as sobreviventes ainda enfrentam outros problemas quando estão em situação de vulnerabilidade, incluindo falhas na oferta de serviços. A MSF frequentemente não consegue encaminhar seus pacientes para assistência essencial não médica — como instalá-los em abrigos seguros, oferecer-lhes opções de realocação ou apoio para sua subsistência.

Sobreviventes também enfrentam inúmeras barreiras – como medo de estigma, dificuldades financeiras, insegurança e falta de acesso à  informação – que as impedem de acessar atendimento em tempo hábil, o que traz consequências médicas graves. Desde 2022, apenas um terço das sobreviventes que procuraram a clínica Pran Men’m chegou dentro de três dias após o ataque, prazo após o qual não é mais possível prevenir a transmissão do HIV. Da mesma forma, 59% das pacientes nesse período não conseguiram atendimento dentro de cinco dias para evitar uma gravidez indesejada.