No próximo dia 27 de abril, a Academia Brasileira de Letras pode rejuvenescer um bocado. Um dos postulantes à cadeira número oito da entidade, vaga desde janeiro, quando morreu a professora Cleonice Berardinelli, tem 87 anos, idade que o insere na média habitual do grupo de “imortais” que frequentam os chás no charmoso palacete no Centro do Rio, doado à ABL pelo governo francês há cerca de um século. Mas esse octogenário traz pela mão um bando de crianças para bagunçar a sisuda academia.

Mauricio de Sousa, se eleito, praticamente deixa todos os outros membros da ABL, somados, em ampla desvantagem em relação a número de exemplares vendidos de suas obras. A Turma da Mônica fala por balõezinhos em mais de 40 idiomas pelo mundo. Todas as edições dos gibis da turma editadas no planeta Terra provavelmente não caberiam na grandiosa e relevante biblioteca da ABL. Mauricio poderia ter se candidatado anteriormente a uma cadeira na casa criada por Machado de Assis. Demorou, mas vem agora bater na porta da ABL, numa época em que parece inconcebível alguém tratar os quadrinhos como “literatura menor”.

Não é preciso entrar no julgamento do mérito do trabalho de Mauricio como arte. Basta somar a impressionante legião de brasileiros que praticamente começou a ler com Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali para se ter a noção da relevância dessas páginas coloridas na formação cultural do brasileiro. Tem gente passando por cima disso e colocando Mauricio, Gilberto Gil e Fernanda Montenegro, esse imortais há pouco tempo, num balaio de “não escritores” (!!!) destinado a “modernizar” a ABL ou, para alguns, “deturpar” o conceito do que é literatura. Ou, pelo menos, do que seria uma “boa literatura”.

Por influência dessa turma, talvez Mauricio não ganhe a eleição do dia 27. Pode perder para o filólogo Ricardo Cavaliere, de 69 anos, que é o nome defendido por Evaldo Bechara, 95, imortal da ABL e também filólogo, em busca de deixar um sucessor na Academia. Caso Cavaliere ganhe, é consenso que apenas adiará a eleição de Mauricio para a cadeira seguinte a ser disponibilizada. Para os estudiosos dos bastidores da ABL (sim, existe gente que consegue se dedicar a isso), Bechara já conduzia com firmeza a campanha de seu pupilo antes de Mauricio manifestar seu interesse. O quadrinista teria, digamos, chegado atrasado nessa disputa.

Seja agora ou mais tarde, a “imortalização” virá. Mauricio de Sousa é caso não muito comum de brasileiro a se tornar referência mundial em sua área. O pai da Mônica e do Cebolinha merece o reconhecimento em qualquer lugar, em qualquer entidade. Principalmente na Academia Blasileila de Letlas.