Edição nº2594 13/09 Ver edições anteriores

Mau sinal

O presidente era sempre o primeiro a chegar na reunião de segunda-feira. Os ministros já sabiam que o encontrariam na cabeceira da mesa, conversando à boca pequena com uma ou outra liderança partidária, diante de uma pilha de anotações que resumiam a pauta do dia. Todos sabiam que o clima da reunião tinha relação direta com o “Fantástico” da noite anterior.
Se as notícias eram boas, a reunião era animada e cheia de piadas. Se surgisse alguma denúncia, era um deus nos acuda. O ministro da Casa Civil, sentado à direita do mandatário, costumava marcar o ritmo e, assim que todos os outros ministros estivessem acomodados, dava um passa-moleque nos políticos, pedia que os jornalistas fizessem as últimas fotos e iniciava os trabalhos da semana.

Segunda-feira passada os ministros chegaram e nada do presidente. Mau sinal. Alguém perguntou quanto tinha sido o jogo do Palmeiras.

– Não teve jogo — lembrou o ministro da Economia.

– Xi. Alguém viu o “Fantástico”? — perguntou o titular da Educação.

– Nada demais. Só escândalo requentado — respondeu a da Agricultura.

Mau sinal.

O da Casa Civil saiu discretamente.

Meia hora depois, batia na porta do quarto, após ser informado que o presidente não havia saído da cama.

– Estava no celular quando entrei para pegar a bandeja do café da manhã. Nem encostou no requeijão — revelou o mordomo.
Mau sinal.

O ministro insistiu com mais três batidas na porta. Nada. Nenhuma resposta.

Cuidadosamente, por uma fresta, pôde ver o presidete de pijamas, no quarto escuro, com os olhos vidrados no celular.

– Presidente?

– Me deixa.

– Mas presidente, estão todos esperando o senhor.

– Diz que eu tô gripado.

O ministro, ignorando o bom senso, foi se aproximando da cama lentamente.

– Mas, presidente… Temos muito o que decidir: a reforma, a posse de armas, a Previdência! Vamos lá. Ânimo!

– Você leu a pesquisa do Datafolha?

– Ah, presidente! Quem é que liga para pesquisa?

– Não importa quem liga. Importa que eu tô despencando.

O ministro sabia que a situação era grave. Afinal, depois de seis meses de governo, o presidente era mais impopular que Collor e Dilma no mesmo período. Uma foi “impichada” e o outro só não caiu por ter deixado o cargo antes.

– Isso não significa nada presidente. Além do mais, não é culpa sua.

O presidente olhou o ministro com curiosidade.

– Culpa de quem então?

O ministro, pego de surpresa, improvisou.

– Culpa do… Do Rodrigo, do Olavo, do Davi. Culpa dessa gente aí que não ajuda o senhor a governar.

O presidente não se convenceu. Ele sabia que a culpa de um governo impopular é sempre do governante.

E olha que tentou de tudo.

– Falei mal de gay, tirei foto de sandália de dedo, meti o pau nos índios, nas ONGs, nos quilombolas, virei trend do Twitter uma centena de vezes e nem assim.

O ministro pensou em sugerir que talvez aquelas atitudes fossem a causa da sua impopularidade. Mas não teve coragem.
– Eu sou testemunha, presidente. O senhor mandou muito bem. Pode ficar tranquilo.

– Né?

– É.

– Então o que é que eu tenho que fazer para reverter esse quadro?

O ministro não fazia a menor ideia. Mas, no desespero, deu uma sugestão.

– Aproveita alguma notícia boa, presidente. Sabe como é. Associe seu nome com alguma unanimidade. Surfe em uma onda positiva.

Os olhos do presidente brilharam. O ministro tinha razão.

Meia hora depois, ele entrou na sala de reuniões envergando a camisa da seleção que ganhou do Everton Cebolinha.

– É teeeetra!!! — gritou.

Os ministros se entreolharam. Mau sinal.

A baixa popularidade deixava o presidente caidão. Só uma boa sugestão do ministro mais chegado daria um jeito. Daí seria só correr para o abraço


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