PANDEMIA * 2020

Matemática da peste

Compreender o padrão por trás do crescimento exponencial da Covid-19 é a maneira mais inteligente de criar um planejamento efetivo para combater a doença. Além dos médicos, a estratégia prevê o envolvimento de outros especialistas: os matemáticos

Matemática da peste

Um equívoco no início da pandemia foi negar a importância da ciência – o contágio certamente teria sido menor se os cientistas tivessem sido ouvidos mais amplamente. Além dos médicos, outros especialistas são importantes para definir as estratégias de enfrentamento à Covid-19: é o caso dos matemáticos. A peste que assola o planeta segue um padrão lógico, e identificá-lo é um passo importante para planejar possíveis soluções.

A teoria matemática que pode ser aplicada à Covid-19 é a do crescimento exponencial, ou seja, quando o número inicial é multiplicado por ele mesmo e assim indefinidamente. Nesse caso, 100 pessoas infectam outras 100, que irão infectar outras 100. O que é importante determinar em relação à pandemia é o período de tempo que essas pessoas levam para se infectar, para então detectar e compreender esse padrão. O monitoramento desses números também pode levar a um plano mais adequado a respeito do relaxamento das medidas sanitárias. A maior dificuldade no momento, no entanto, é que os dados não são 100% confiáveis.

“As medidas propostas de distanciamento social salvarão 35 mil vidas no Brasil nos próximos
14 dias, uma vida a cada 36 segundos” Dr. Paulo J. S. Silva, professor de matemática da Unicamp (Crédito:Claudio Gatti)

Vidas salvas

Para desenvolver um sistema matemático que consiga calcular quantos podem ser os infectados e mortos é necessário analisar três variáveis principais: número de hospitalização e letalidade; desenvolvimento da imunidade ou desenvolvimento de uma vacina; taxa de propagação da doença. O primeiro item não pode ser controlado no curto prazo, ou seja, não é possível construir novos hospitais do dia para a noite nem prever o número de pessoas internadas que vai se curar ou não. Em relação ao segundo, não se sabe ainda como as pessoas desenvolvem a imunidade nem quando a vacina estará pronta. A solução é pensada a partir da terceira variável, a taxa de propagação da doença. Os cálculos, portanto, são realizados em cima da estratégia de distanciamento social.

O professor do Instituto de Matemática da Unicamp, Dr. Paulo José Silva e Silva, explica que, mesmo com muitos defeitos, “as medidas propostas de distanciamento social salvarão 35 mil vidas no Brasil nos próximos 14 dias, uma vida a cada 36 segundos”. O professor explica que esse número é subestimado, uma vez que os dados não são exatos. Isso significa que o número de vidas salvas é maior, assim como o número de mortos, já que há a subnotificação dos casos.

Em conjunto com um grupo de pesquisadores, o matemático da Unicamp desenvolveu um sistema (https://github.com/pjssilva/Robot-dance) que sugere a alternância das cidades no isolamento social. A justificativa é que, além da capacidade produtiva não entrar em colapso, seriam reduzidos os transtornos que o longo distanciamento provoca. A sugestão é que a tomada de decisões sobre esse escalonamento das cidades seja feita de maneira centralizada. A principal variável seria a taxa de ocupação dos hospitais. O isolamento, nesse caso, seria decretado imediatamente quando as UTIs atingissem 50% dos leitos. O sistema ainda não começou a ser utilizado, mas o professor Paulo disse que já foi procurado por órgãos públicos.

Um dado importante para os cálculos de infecção é a possibilidade de realizar mais testes. No horizonte próximo, no entanto, não existe, a promessa de que isso será realizado em massa, como seria o ideal. A opção pelo lockdown, o fechamento total, teria sido mais adequada se tivesse sido usada no início da pandemia. Hoje, no Brasil esta curva está em crescimento. Segundo o médico infectologista do hospital Beneficiência Portuguesa de São Paulo, João Prats, “não existe uma tendência de queda, os casos ainda estão subindo”. Uma outra estratégia é a chamada “imunidade de rebanho”, quando grande parte da população adquire a doença e se cura, deixando, portanto, de passá-la adiante. Há dúvidas sobre o percentual que seria necessário para essa abordagem, além do alto número de vítimas fatais que a estratégia causaria, uma vez que ela funciona de maneira mais assertiva quando existe uma vacina. “Essa estratégia só funcionaria quando atingíssemos mais de 50% da população”, afirma Prats. A estimativa atual é que entre 4 e 6% das população esteja imunizada e cerca de 10% já possua anticorpos. O médico alerta que todos esses dados não são conclusivos pela falta de pesquisa e pelo pouco tempo de observação. Em qualquer cenário, só nos resta uma opção: confiar que a ciência vai apontar os caminhos que devemos seguir.

Enquanto os testes não forem aplicados de maneira mais abrangente, não existirão dados confiáveis para implementar novas estratégias

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