Ódio e somente ódio. Essa é a única palavra que entra na minha cabeça quando leio ou escuto o nome da juíza Viviane Arronenzi. Dezesseis facadas e uma delas enfincada no pescoço. Uma criança pedindo para que um homem de idade formada e com plena consciência de seus atos, e também seu pai, parasse. Paulo José Arronenzi tem 52 anos e não atendeu ao chamado da filha. Esfaqueou Viviane até que ela perdesse o ar. Matou-a com ódio. Quis deformar o corpo da mulher que decidira viver sua vida sem estar ao lado dele. Viviane decidiu que ela e Paulo não seriam mais um casal — e por isso ela morreu. Nunca foi amor. Dezesseis facadas deformando o corpo que queria viver. Paulo, assim como tantos outros homens assassinos, jamais amou Viviane. Tinha-a como propriedade. Matou porque não suportou ver um corpo livre. As filhas, ao fundo, observando cada golpe, cada facada, cada grito de horror da mãe. Desesperada, uma delas gritou: “Por favor, para”. Ele não parou. Seguiu esfaqueando com ódio.
Paulo não é simplesmente um engenheiro que surtou. Paulo está presente em muitos corpos, ainda que estes não sejam assassinos. Há resquícios de Paulo na sua roda de amigos, no ex-companheiro da sua mãe, no seu tio, no seu irmão. Paulo está presente dentro daqueles que ainda não entenderam que o patriarcado mata. Ele está na mesa do bar quando homens utilizam aquele espaço para transformar uma mulher em um corpo que só serve para lhes dar prazer. Ou então quando o companheiro pede para a esposa trocar de roupa, porque aquela está curta demais. Paulo está presente em homens que não amam mulheres. Que as vêm como propriedade e objeto de desejo. Paulos continuarão existindo — e matando — se continuarmos deixando para depois o olhar crítico sob o patriarcado. Paulos continuarão matando e matando e matando se só existir inconformismo à vida das mulheres quando elas estão enterradas. Como bem disse Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que correm com os lobos”, é preciso parar de domesticar a existência feminina.
Diferentemente do que pede Estés, o que temos hoje no noticiário é a morte da matriarca da família assassinada na frente de três crianças. Três meninas, que antes de formarem as suas próprias maturidades presenciaram o limite que a posse e o machismo podem chegar. Três meninas que testemunharam a morte da mãe porque ela disse não a um relacionamento. Três meninas que saberão que, sim, elas podem ser o que elas quiserem, mas enquanto a sociedade não as ver como pessoas íntegras e independentes elas ainda presenciarão, infelizmente, cenas como essa. Continuarão assistindo o assassinato da mãe. Verão Viviane em todos os casos de feminicídio noticiados. E sentirão na alma a violência do que é ser uma mulher protagonista em um mundo de homens coadjuvantes — que para tomar conta do papel principal com ódio matam.