A escultura contemporânea brasileira encontra em Mary Carmen Matias uma intérprete que não teme o confronto com a dureza da matéria. Em sua nova exposição, “Sopro de Luz”, a artista radicada em São Paulo apresenta o resultado de uma pesquisa técnica exaustiva que busca humanizar o metal e a pedra através da transparência do vidro. O encontro desses elementos, realizado no calor do fogo e na precisão do cálculo, transcende o artesanato para se tornar uma tese sociológica sobre a convivência.
O percurso criativo de Mary Carmen é marcado por uma transição do denso para o etéreo. Após anos dominando o mármore e o aço, a artista sentiu a necessidade de inserir o “sopro” em suas composições. No entanto, a inserção do vidro trouxe desafios físicos complexos. A diferença de comportamento térmico entre o cristal e o metal exige o que a curadora Denise Mattar chama de “abraço térmico”: um ajuste preciso onde um material acolhe o outro sem rompê-lo. “Precisei estudar desde a descoberta fortuita dos cristais pelos fenícios para entender como juntar esse novo elemento ao meu trabalho”, revela a artista.
A poética da aceitação
A relevância da obra de Mary Carmen reside na mensagem implícita de suas formas. Em um mundo marcado pela polarização, as peças de “Sopro de Luz” mostram que a heterogeneidade é uma fonte de riqueza, não de conflito. Nas obras onde o metal envolve o bulbo de vidro, há uma dissolução das fronteiras entre o interior e o exterior. O metal, tradicionalmente rígido e frio, assume o papel de proteção, enquanto o vidro atua como uma víscera translúcida e pulsante.
Essa simbiose reflete uma percepção humanista da artista sobre o mundo atual. “O encontro do vidro com o metal me mostrou que o essencial não é aprisionar o outro, mas oferecer o apoio e o abraço”, pontua Mary Carmen. A técnica, portanto, está a serviço de um propósito maior: instigar o espectador a refletir sobre como seres humanos podem conviver sem que ninguém perca sua essência fundamental.
Do extraordinário ao lúdico
A mostra também revela um lado intuitivo de Mary Carmen, que capta formas no cotidiano mais simples, como bexigas de festas de seus netos, para dar volume inicial às suas peças. Essa capacidade de enxergar a arte no ordinário é o que confere às suas esculturas uma organicidade rara. As peças, que chegam a 1,5 metro de altura, ocupam o térreo do Instituto Cervantes criando uma coreografia mineral que desafia o olhar do passante na movimentada Avenida Paulista.
Com um currículo que inclui passagens por instituições como o MIS, FIESP e MUBE, Mary Carmen Matias reafirma sua posição como uma das vozes mais experimentais da escultura paulista. Em “Sopro de Luz”, o silêncio das formas é substituído por uma vibração íntima, convidando o público a uma pausa contemplativa no coração financeiro do país. Como define Denise Mattar, o que se vê é a “escultura em estado de respiração”, um pacto de convivência que acende o olhar e sussurra lições de tolerância.
Serviço
Exposição: “Sopro de Luz” – Mary Carmen Matias
Curadoria: Denise Mattar.
Abertura: 9 de fevereiro, às 19h.
Período: de 9 a 27 de fevereiro.
Horário: segunda a sexta-feira, das 10h às 19h.
Local: Instituto Cervantes – Av. Paulista, 2439 (Térreo), São Paulo/SP.
Entrada: gratuita.