Edição nº2496 12.10 Ver edições anteriores

À margem de uma sandice parlamentar

Mesmo partindo da atual geração de deputados e senadores, não imaginei que algo surpreendente pudesse surgir, mas dou a mão à palmatória. Outro dia tomei conhecimento de uma proposta política deveras estapafúrdia. Quem a perpetrou foi o deputado Vicente Cândido (PT-SP), relator da reforma política na Câmara. Informado da condenação de Lula a nove anos e meio de prisão, o nobre deputado saiu disparado em busca de uma fórmula para “blindar” (uso o verbo da moda) o ex-presidente. E saiu-se com essa: nenhum candidato poderá ser trancafiado nos oito meses que precederão o pleito de 2018. Dado o cristalino objetivo da proposta, podemos tranquilamente batizá-la “emenda Lula”, certos de que nenhuma malícia haverá em tal denominação.

O que o deputado Vicente Cândido parece ignorar é que a condição jurídica de candidato não se configura no primeiro discurso ou na primeira entrevista em que um indivíduo revele seu propósito de se candidatar. Tal condição só se configura oficialmente a partir do período previsto para as convenções partidárias, normalmente realizadas em junho de cada ano eleitoral. Pretendendo uma blindagem de oito meses para Lula, o que o nobre representante de São Paulo de fato propõe é que as convenções se realizem em fevereiro! Por maiores que sejam os méritos de Lula, seu fiel escudeiro petista perpetrou uma proposta notavelmente sem nexo e de duvidosa moralidade.

Sabemos todos que a atividade política não é para almas frágeis. Eu que nem político sou, mas que me sinto calejado no ofício de observador, devo confessar que sofri um ligeiro baque ao tomar conhecimento da proposta Vicente Cândido. Me perguntei se a incumbência de representar os cidadãos no Congresso Nacional perdeu de vez o sentido de honraria e se transformou em deboche.

Mas, claro, logo me reanimei. Afinal, o motivo que levou o referido deputado a excogitar tamanha extravagância foi a sentença condenatória expedida contra Lula pelo juiz Sergio Moro: uma decisão judicial absolutamente histórica. Ao sentenciar Lula a nove anos e meio de prisão, Sergio Moro começou a refundar a República. Declarou, alto e bom som, que o Brasil não é uma monarquia absoluta, é uma República, regime no qual nenhum cidadão está acima das leis.

Com a “emenda Lula” proposta por Vicente Cândido, me perguntei se a incumbência de representar os cidadãos no Congresso Nacional perdeu de vez o sentido de honraria e se transformou em deboche

 


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