Marco Bechis leva ditadura argentina ao Festival de Veneza

Cineasta ítalo-chileno compete com "Retorno a Buenos Aires", mergulhando nos traumas de sobreviventes do regime militar

Marco Bechis leva ditadura argentina ao Festival de Veneza

O cineasta ítalo-chileno Marco Bechis retorna à competição pelo Leão de Ouro no prestigiado Festival de Veneza, 18 anos após sua aclamada obra “Terra Vermelha”. Sua nova produção, “Retorno a Buenos Aires”, uma coprodução ítalo-brasileira, foi selecionada para a edição de 2026 do evento, focando na complexidade da ditadura militar argentina e na resiliência dos sobreviventes. O anúncio pegou o diretor de surpresa, como relatou à ANSA.

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O que aconteceu

  • Marco Bechis leva “Retorno a Buenos Aires” ao Festival de Veneza, abordando os traumas da ditadura militar argentina.
  • O filme explora a “síndrome do sobrevivente”, tema conhecido pelo diretor, que foi vítima do regime em 1977.
  • A obra é um convite à reflexão sobre a memória histórica e a atual indiferença social diante de conflitos.

O diretor relata ter recebido a notícia enquanto passeava em uma loja Ikea, já pressentindo o sinal positivo pela ausência da temida carta de rejeição. Seu filme, estrelado por Adriano Giannini no papel principal, marca o retorno do cineasta ao tema da ditadura militar argentina, um período que ele próprio vivenciou.

O retorno ao passado e a sobrevivência

Em 1977, aos 20 anos, Bechis foi sequestrado e encarcerado em um centro de detenção secreto, e depois, em uma prisão militar. Esse período de violência e terror já havia sido explorado em obras como “Garage Olimpo” (1999) e “Filhos da Tortura” (2001).

Contudo, Bechis ressalta que “Retorno a Buenos Aires” não é sobre ele, embora existam elementos de contato entre sua história e a do personagem de Giannini. Desta vez, o diretor se concentra na figura do sobrevivente, que ele considera “muito atual” diante dos conflitos contemporâneos.

“Existem quantos sobreviventes palestinos da invasão a Gaza? Além dos sobreviventes da Ucrânia, há uma população de milhares de pessoas que sofrem com guerras”, pondera Bechis. O cineasta, filho de mãe chilena e pai italiano, cresceu entre o Brasil e a Argentina, mas vive há quatro décadas na Itália.

A complexidade da síndrome do sobrevivente

Ele sentia uma urgência em contar essa história, optando por fazê-lo por meio de um tema que conhece a fundo, em vez de abordar questões como as do Oriente Médio ou África. “Retorno a Buenos Aires” se passa em 2008, na capital argentina.

O protagonista, Mariano Guerra (Giannini), após 33 anos vivendo na Itália, volta ao país sul-americano para testemunhar no processo contra os militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura. Esse reencontro com o passado o obriga a lidar com o que significa ter sobrevivido, um tema que Bechis conhece de perto.

A ideia do filme surgiu após a publicação de seu livro autobiográfico “La solitudine del sovversivo” (sem edição no Brasil), no qual narra sua própria experiência de retornar para testemunhar diante dos militares. “A parte autobiográfica no filme termina aí, porque o personagem viveu uma história diferente da minha”, explica Bechis, ressaltando que essa “síndrome do sobrevivente” é o eixo central do longa.

Por que revisitar a ditadura argentina é urgente?

“É algo que te caracteriza, se torna sua identidade. Há o sentimento de culpa por estar vivo enquanto os outros não estão. Mesmo quando acontece algo belo comigo, me vêm em mente os meus companheiros daquela época que não estão mais aqui”, reflete o diretor sobre o peso do trauma. O legado doloroso da ditadura é uma ferida ainda aberta na sociedade.

O cineasta também contrasta a reação do passado à violência com a indiferença atual: antigamente, a Europa se mobilizava diante de golpes como o do Chile, mesmo com informações escassas. Hoje, imagens de massacres chegam em tempo real pelos celulares, mas a comoção é menor. “A rolagem das telas permite que você ignore”, afirma, criticando a superficialidade da era digital.

É fundamental que a sociedade continue a revisitar o legado desses períodos sombrios, para que a memória seja preservada e a justiça, sempre buscada.

Produção internacional e estreia

“Retorno a Buenos Aires” é uma coprodução internacional entre Itália e Brasil, com a participação de Fandango, 39Films, Karta Film, 34 Films e Rai Cinema. O elenco inclui, além de Adriano Giannini, a brasileira Paula Cohen, Ana Celentano, Vero Gerez, Olivia Nuss, Adrian Fondari e Marcelo Chaparro.

O filme tem sua estreia programada para os cinemas italianos em 17 de setembro, prometendo um olhar profundo sobre as cicatrizes da ditadura e a jornada de superação.

Da IstoÉ com ANSA