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Marcado para morrer

O ex-policial do BOPE e miliciano Adriano da Nóbrega, morto na Bahia, era acusado de participar do esquema da “rachadinha” do gabinete de Flávio Bolsonaro, tinha longa relação com a famíla do presidente da República e era suspeito de envolvimento com a morte de Marielle

Marcado para morrer

Tudo indica que o ex-policial e miliciano Adriano da Nóbrega, conhecido como capitão Adriano, era um homem marcado para morrer. Fugitivo da polícia há mais de um ano, ele foi cercado e baleado na madrugada de domingo 9, em um sítio na zona rural da cidade de Esplanada, a 170 quilômetros de Salvador, onde estava escondido. A operação policial que o vitimou envolveu 75 homens das forças de segurança do Rio de Janeiro e da Bahia e não deu a mínima chance de sobrevivência ao procurado. Ele levou dois tiros, no pescoço e no tórax, e deixou mais perguntas do que respostas para a Justiça.

Chefe do chamado Escritório do Crime, milícia de Rio das Pedras, na zona Oeste do Rio de Janeiro, era suspeito de cometer ou ser o mandante de vários homicídios, estava envolvido com o esquema da “rachadinha”, investigado no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, e integrava a lista de suspeitos de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Tinha uma folha corrida extensa, marcada por crimes variados e violentos. A versão oficial de sua morte dá conta de que houve um tiroteio em que Nóbrega atirou primeiro – dois disparos de sua pistola Glock calibre 9mm atingiram o escudo usado por um dos guardas, e a policia reagiu. Mas o fato de haver tantos homens atuando em uma verdadeira operação de guerra para prender um único perseguido indica que as forças de segurança não atacaram o esconderijo apenas para dar voz de prisão. A morte de Adriano fica, por enquanto, como uma história mal contada em que vale considerar a possibilidade de execução.

FUGITIVO Adriano estava há um ano foragido, depois da Operação Intocáveis comprovar extorsão, corrupção e propina de milicianos em Rio de Pedras, bairro da zona oeste carioca (Crédito:Divulgação)

Há motivos para se acreditar nisso. Uma semana antes da ação em Esplanada, houve outra operação policial de busca e captura de Nóbrega em uma mansão na Costa do Sauípe, onde ele ficou escondido por cinco dias. Quando a polícia chegou, ele conseguiu fugir nadando em um lago atrás da casa. Dias depois, já em um novo refúgio em Esplanada, Nóbrega conversou com seu advogado, Paulo Emílio Catta Preta, e explicitou a preocupação em ser morto. “Na ligação, ele falou que se fosse encontrado seria morto”, contou Catta Preta à ISTOÉ. O advogado tentou acalmar o cliente, que estava bastante nervoso com o fechamento do cerco policial, e disse que a melhor solução seria Nóbrega se entregar. Foi, então, que a expressão “queima de arquivo” apareceu entre os dois. Nóbrega era um homem que sabia demais. “Ele disse que essa Operação da Costa do Sauípe não teria sido feita para prendê-lo e sim para matá-lo”, confirmou o advogado. As autoridades, porém, insistem que a morte ocorreu porque houve resistência à prisão e troca de tiros. Se, de fato, reagiu, foi praticamente uma decisão suicida. Dadas as condições do enfrentamento, a morte do miliciano mostra excesso da polícia ou alguma premeditação. Na casa onde o miliciano foi morto, a polícia encontrou três armas e 13 telefones celulares. O criminoso temia ser interceptado e trocava constantemente os chips de seus aparelhos.

“Como um presidente da República não fala sobre isso? A família Bolsonaro não tem a ver com a morte do Adriano, mas certamente têm a ver com a vida inteira dele” Marcelo Freixo, deputado federal (Crédito:Orestes Locatel)

Personagem misterioso

Nóbrega é um personagem misterioso que ronda o clã Bolsonaro há pelo menos 17 anos. A relação entre o miliciano e a família presidencial nunca fui sigilosa. Ele era tratado como uma espécie de herói pelo presidente e seus filhos, embora desde sempre estivesse envolvido com atividades ilícitas e violentas. Em 2003, um ano depois de iniciar seu mandato de deputado, Flávio Bolsonaro homenageou e condecorou o miliciano com uma moção de louvor por seus serviços prestados à sociedade. Declarou que o policial desenvolvia a função “com dedicação, brilhantismo e galhardia”. “No decorrer de sua carreira, atuou direta e indiretamente em ações promotoras de segurança e tranqüilidade da sociedade”, declarou Flávio. Em 2005, o filho do presidente foi mais longe e concedeu a Nóbrega, por seu “êxito em prender doze criminosos e apreender armamentos e drogas na cidade”, a Medalha Tiradentes, principal honraria do poder legislativo do Rio. Adriano, que ainda era tenente do Bope, não apareceu na cerimônia, porque estava preso preventivamente acusado do assassinato do guardador de carros Leandro Silva, que havia denunciado policiais da cidade pelos crimes de extorsão e ameaça. O pai Jair Bolsonaro, na época deputado federal, também foi à tribuna da Câmara, em Brasília, defender o miliciano das acusações de que era alvo. Chamou Nóbrega de “brilhante oficial” e, posteriormente, esteve presente na audiência de julgamento do ex-PM, que acabou absolvido do homicídio de Leandro em 2006.

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A relação de Nóbrega com a família Bolsonaro só avançou nos anos seguintes. Em 2007, a então mulher do miliciano, Danielle Mendonça, foi contratada para integrar a equipe de assessores de Flávio na Assembléia. A contratação se deu por intermédio de Fabrício Queiroz, amigo de Jair Bolsonaro há 40 anos, que também trabalhava no gabinete e tinha se aproximado de Nóbrega, quando ambos atuaram no 18º batalhão da PM carioca. Em 2016, a mãe do ex-capitão do Bope, Raimunda Veras Magalhães, também ganhou um lugar na equipe de Flávio. As duas foram exoneradas dos seus cargos em 2018, quando se tornaram públicas as primeiras suspeitas do esquema da “rachadinha”, em que os parlamentares empregam funcionários fantasmas e recebem parte dos salários de volta. As investigações do esquema mostraram que Danielle, por exemplo, recebia por um trabalho que nunca exerceu, devolvia parte do dinheiro para a conta de Queiroz e sacava outra parte. Raimunda também compunha o mesmo sistema. Constatou-se que R$ 200 mil foram repassados pelas mulheres para a conta do Queiroz e outros R$ 200 mil foram sacados em espécie. Ao todo, elas teriam recebido R$ 1 milhão. Em Rio Comprido, na zona norte do Rio, parte do dinheiro era lavado em restaurantes e pizzarias que tinham Raimunda como sócia. As investigações posteriores mostraram que os estabelecimentos pertenciam a Nóbrega. Ele também foi peça fundamental para ajudar Queiroz a obstruir investigações sobre o esquema. Só em 2018, Flávio, Nóbrega e Queiroz passaram a ser investigados pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro por suspeita de organização criminosa. No final do ano passado, vieram à tona documentos que associavam o Capitão Adriano à “rachadinha” e se descobriu que dinheiro do esquema foi parar na sua conta bancária. Interceptações telefônicas ainda mostram que Nóbrega orientou a ex-mulher Danielle a não comparecer aos depoimentos.

Foragido da Justiça

Nóbrega se tornou foragido no começo do ano passado, depois que os milicianos do Escritório do Crime foram alvo de uma grande investigação do Ministério Público do Rio chamada de Operação Intocáveis. A operação desvendou um esquema de corrupção envolvendo arrecadação ilegal de aluguéis, extorsão, grilagem de terras e outros crimes ligados ao mercado imobiliário em Rio das Pedras e na localidade de Muzema. O destino de Nóbrega era investigado pelo setor de inteligência da Polícia Civil do Rio de Janeiro e pelo Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público. Seu exato paradeiro só foi conhecido há cerca de um mês, quando foi realizada a primeira operação frustrada de prendê-lo, no dia 31 de janeiro, na mansão de Costa do Sauípe, onde estava desde que deixou o Rio. Ele estava acompanhado da atual mulher, Julia Emilia Lotufo, e das filhas dela. Do Sauípe, Nóbrega escapou para Esplanada e instalou-se, primeiro, numa fazenda pertencente ao pecuarista Leandro Guimarães. Em depoimento, Guimarães falou que Nóbrega chegou à propriedade dizendo que estava de férias e procurava um lote de terras em Esplanada para comprar. Disse também que conhecia Adriano de vaquejadas, festas famosas na região, e desconhecia o passado nebuloso do amigo. Descobriu-se, porém, que Guimarães foi testemunha de defesa em um processo em que Nóbrega era acusado de homicídio, grilagem de terras e agiotagem, em julho do ano passado.

“Quem passa uma festa junto com outra pessoa é porque tem um nível de aproximação, de proximidade que deixa duvidosa essa afirmação de que ele tinha conhecido ele recentemente e que, portanto, desconhecia o passado criminoso de Adriano”, afirma o promotor do MP da Bahia Dario José Kist, que participa da investigação do caso. Há a suspeita de que haveria uma rede de proteção estruturada para esconder o ex-capitão do Bope. Inclusive foi Guimarães quem encaminhou Nóbrega para seu último refúgio, um sítio, também em Esplanada, pertencente ao vereador do PSL na cidade, Gilsinho de Dedé. Nóbrega decidiu mudar de endereço porque temia o cerco da polícia e soube que sua localização na fazenda de Guimarães havia sido descoberta. Durante os dias em que passou na casa de Guimarães, Nóbrega pediu a companhia do amigo para visitar alguns terrenos que estavam à venda. O foragido não teria gostado de nenhum e, por isso, seguiu hospedado na fazenda do pecuarista. Na noite de sábado 8, Nóbrega recebeu uma mensagem no celular, reagiu com bastante nervosismo e teria exigido que o amigo o levasse até o sítio do vereador Gilsinho. Guimarães alegou que foi obrigado a fazer isso. O pecuarista chegou a ser preso por causa de três armas frias encontradas na sede de sua fazenda, mas ganhou liberdade provisória. O vereador, por sua vez, disse que foi pego de surpresa e não sabia que seu sítio era usado como esconderijo do miliciano. Mas as verdadeiras ligações entre Nóbrega, Guimarães e Gilsinho ainda estão sendo apuradas.

“No Brasil é muito mais fácil matar do que qualquer outra coisa. De repente vem a versão que Adriano reagiu e foi morto. Isso não tem cabimento.”, disse o sociólogo José Cláudio Alves, professor da Universidade Rural do Rio de Janeiro e especialista em milícias. Nóbrega morreu em um contexto de investigações inconclusivas e sob suspeita de uma série de crimes em uma área isolada na Bahia. Segundo Alves, ele não estava em uma favela ou em um bunker, estava em uma zona rural e em desvantagem. “O que saísse da boca dele iria ser decisivo para várias investigações em andamento. Essa operação está muito mal contada, é muito estranha”, completa Alves. Outra frente de investigação que a morte de Nóbrega abafa é a possível ligação do miliciano com o assassinato de Marielle Franco. Quem também fazia parte do Escritório do Crime, grupo liderado por ele, era o ex-policial Ronnie Lessa, principal acusado de matar a vereadora, atualmente preso. Se não eram próximos, Nóbrega e Lessa certamente se conheciam e tinham alguma relação. Há quem fale que o Capitão Adriano era uma peça chave para descobrir os mandantes do crime ocorrido em março de 2018. É uma análise defendida pela própria Secretaria de Segurança Pública da Bahia.

Caso Marielle

Para o deputado federal, Marcelo Freixo (PSOL-RJ), porém, Nóbrega não teve nada a ver com a morte de Marielle e ele e Lessa podem nunca ter atuado juntos. “Ligar a morte de Adriano às investigações do assassinato de Marielle é um caminho fácil, mas perigoso”, diz o deputado. “Não há indícios, até agora, de envolvimento do Adriano com o caso. Associá-lo à morte da Marielle é um atalho, mas ele tem que ser investigado por todos os crimes que cometeu”. Para o deputado, apesar de Nóbrega e Lessa integrarem o mesmo grupo miliciano, não dá para falar que eles eram comparsas. O Escritório do Crime não funciona como uma empresa centralizada e há matadores milicianos que nunca atuaram juntos. Freixo explica que é um tanto quanto raso jogar em cima das investigações do caso de Marielle tudo o que envolve morte e milícia. O deputado teme que esse tipo de associação abra espaço, novamente, para a possibilidade de federalização do caso – uma mudança constantemente contestada por familiares da vereadora. Eles alegam que, nesse caso, as investigações poderiam ser obstruídas pelo Governo Federal. “Acho que a morte de Adriano atrapalha as investigações de inúmeros homicídios ocorridos no Rio de Janeiro, mas não especificamente o de Marielle”, disse Freixo.

O deputado acredita que o que deve ser investigada mais profundamente é a relação do miliciano com a família Bolsonaro. “Há uma ligação muito profunda de Adriano Nóbrega com a família Bolsonaro e também há um silêncio ensurdecedor sobre isso”, afirmou. “Como que um presidente da República não fala sobre isso? A família Bolsonaro não tem a ver com a morte de Adriano, mas certamente tem a ver com a vida inteira dele”. Freixo diz que Nóbrega nunca foi devidamente investigado por seus crimes ao longo dos anos e que transitou impune pelas margens do sistema. “Por que Adriano foi expulso da política por conta do jogo do bicho e nunca foi investigado por isso?”, questiona. O presidente Bolsonaro não deu nenhuma manifestação sobre a morte de Adriano. Quem falou sobre o assunto em sua conta no Twitter foi Flávio, que se manifestou três dias depois da morte. Ele disse que “pessoas” estavam tentando acelerar a cremação do capitão morto, “brutalmente assassinado pela polícia”. “Acaba de chegar a meu conhecimento que há pessoas acelerando a cremação de Adriano da Nóbrega para sumir com as evidências de que ele foi brutalmente assassinado na Bahia. Rogo às autoridades competentes que impeçam isso e elucidem o que de fato houve”, afirmou. Horas antes, a Justiça do Rio de Janeiro já havia proibido a cremação imediata do corpo do miliciano.

Jogo do bicho

Adriano Nóbrega, na sua carreira militar, chegou ao posto de capitão no Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM do Rio de Janeiro, onde entrou em 2009 e saiu em 2014. Junto com sua trajetória na polícia, sempre teve uma vida paralela no mundo do crime. Foi preso e solto três vezes. A primeira vez foi no caso de Leandro Silva. Na segunda prisão, temporária, Adriano foi acusado de tentativa de homicídio contra Rogério Mesquita, fazendeiro com quem disputava o patrimônio do bicheiro Valdomiro Paes Garcia, conhecido como Maninho, morto em 2004. Na última vez que foi para a cadeia, em 2011, era acusado de formação de quadrilha e tentativa de homicídio qualificado por conta de seu envolvimento com o alto escalão do jogo do bicho no estado. O envolvimento com a contravenção motivou sua expulsão da polícia. O ex-capitão foi considerado culpado por atuar como segurança pessoal do José Luiz Lopes, o Zé Personal, casado com uma das filhas de Maninho e chefe da máfia dos caça-níqueis. Só em dezembro de 2013, depois de ter sido beneficiado pela impunidade, a Polícia Militar decide expulsar Adriano da Nóbrega da corporação.

Apesar das acusações e suspeitas de envolvimento de seu cliente com todo tipo de crime, o advogado de Nóbrega, Paulo Catta Preta, disse que aconselhou Nóbrega a se entregar porque ele teria boas chances de absolvição. Catta Preta acreditava que se Nóbrega se entregasse para a polícia, seria mais fácil conseguir um habeas corpus. “Ele foi acusado de ser chefe de milícia de Rio das Pedras. Muito embora a imprensa publique muito sobre ele, não há provas suficientes no processo. Falei que estava confiante de que ele seria absolvido, mas ele dizia que iriam matá-lo”, finalizou. Os fatos provam que Nóbrega tinha razão sobre o objetivo de seus desafetos e sobre seu destino. Mas seu triste fim deixa em aberto uma série de questões sem respostas. Possivelmente, se continuasse vivo e quisesse falar, poderia elucidar muitos crimes cometidos pelas milícias e, inclusive, ajudar a entender melhor qual é a relação desses grupos criminosos com o centro do poder.

O anjo da morte

Divulgação

Na história da República brasileira, a ligação entre presidentes e criminosos não é algo excepcional. O caso mais conhecido é o Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, que comandou o atentado rua Tonelero, que feriu o jornalista Carlos Lacerda e levou à morte o major Rubens Vaz. Lacerda comandava o jornal Tribuna da Imprensa, veículo de maior oposição ao governo Vargas, responsável por uma série de denúncias envolvendo o Palácio do Catete.

O crime levou Gregório à prisão. Quando o coronel da Aeronáutica, João Adil de Oliveira, responsável pela investigação do crime, se depara com o inquérito diz: “Tenho a impressão de me encontrar sob um mar de lama”. Desde então, a expressão é como um marco para a tamanha difamação que é um presidente da República estampar as páginas policiais de um jornal. Pouco influencia um criminoso aparecer na mídia no espaço reservado à política. Agora, deprecia e muito, um presidente aparecer na sessão voltada à grupos criminoso.

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