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‘Maracanazo’, ferida que doeu no Brasil durante décadas, completa 70 anos

Pelé conta que quando o Uruguai marcou o gol da vitória na Copa do Mundo de 1950 contra o Brasil, seu pai chorou e o menino, com apenas 9 anos de idade, prometeu que um dia conquistaria um Mundial.

Em 16 de julho de 1950, o Uruguai venceu sua segunda copa ao derrotar o Brasil de virada por 2 a 1, com gols na reta final de Schiaffino e Ghiggia, no Maracanã, o gigantesco estádio construído no Rio de Janeiro especialmente para o torneio.

O ‘Maracanazo’ teve um impacto muito maior do que outras decepções do futebol, como a derrota do Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 contra a França ou o 7 a 1 que a Alemanha lhe aplicou em pleno Mineirão, em Belo Horizonte, na semifinal da Copa de 2014.

Para o sociólogo Ronaldo George Helal, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o “trauma” é explicado em grande parte porque o Brasil era, em 1950, um país que procurava se posicionar no mundo, numa época de consolidação do Estado-nação.

O resultado dessa partida era vivido então como “a vitória ou derrota de um projeto da nação brasileira”, baseado na história de um país de harmonia racial, unido em torno da bola, disse Helal em entrevista à AFP.

“Até a década de 1930 não tínhamos aqui no Brasil uma ideia do que era a nação brasileira”, e esta noção foi elaborada em grande medida pelo sociólogo Gilberto Freyre, que em sua obra “Casa Grande e Senzala”, de 1933, “traz a miscigenação como um atributo de valor positivo para o brasileiro” e que segundo autores que surgiram depois encontrou um claro expoente nas chuteiras do futebol.

Essa idealização já havia sido questionada em 1950 pelo Projeto Unesco, que pretendia entender como funcionava uma “democracia racial, porque aqui não tinha segregação sistemática das raças como tinha nos Estados Unidos ou na África do Sul”.

Mas “descobrimos que havia sim racismo, um racismo velado, com a questão do empobrecimento”.

– A ‘pena eterna’ de Barbosa –

Para a opinião pública nacional, o grande culpado do ‘Maracanazo’ foi o goleiro negro Moacir Barbosa. Essa cruel ‘condenação’ cresceu ao longo dos anos e pesou sobre o próprio jogador, apesar de ele continuar atuando em grandes clubes.

“A pena máxima no Brasil é de 30 anos, e eu estou há 40 anos pagando” por essa derrota, disse Barbosa nos anos 90.

Para Helal, o trauma se arrastou até a conquista do tricampeonato, na Copa do México-1970, que foi vivida “como uma vitória da nação brasileira”.

E com o passar do tempo, a sociedade brasileira entendeu que “os jogos da seleção são vitórias ou derrotas esportivas”, incluindo o 7 a 1 de 2014 em casa.

“Em 1950 foi uma tragédia, em 2014 um vexame, que virou meme, porque as pessoas não deram tanta importância”, disse Helal, acrescentando que isso mostra “uma maior maturidade da sociedade”.

Além disso, os torcedores tendem a se identificar mais com seus clubes do que com a seleção, segundo ele.

“Eu sou Flamengo, e se me perguntam se prefiro que o Flamengo ganhe a Libertadores ou a seleção conquiste a Copa do Mundo, respondo sem hesitar: prefiro que o Flamengo ganhe a Libertadores”, confessa.

Quanto a Pelé, ele conseguiu cumprir rapidamente a promessa que fez para seu pai. Apenas oito anos depois, o jovem prodígio conquistou a Copa do Mundo na Suécia em 1958, a primeira das cinco erguidas até hoje.

prb/js/ol/aam

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