Manual de jornalismo indígena “é lançado na Câmara”

Ferramenta inédita de mais de 40 povos visa aprimorar a cobertura e auto representação dos indígenas

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Foto: Imagem ilustrativa

O manual de jornalismo indígena Poranga Marandúa foi lançado nesta segunda-feira (10) na Câmara dos Deputados, em Brasília. A ferramenta, inédita, oferece termos, orientações e princípios a partir da perspectiva dos povos indígenas, marcando um avanço significativo na comunicação e na representação midiática desses povos. O documento busca combater a invisibilidade e promover uma narrativa mais autêntica.

  • O manual de jornalismo indígena Poranga Marandúa foi lançado em Brasília, promovendo uma comunicação baseada na perspectiva dos povos originários.
  • Fruto do trabalho de mais de 40 povos indígenas, a ferramenta visa aprimorar a cobertura jornalística e a desconstrução de estereótipos.
  • Disponível gratuitamente online, o manual também serve como recurso educacional para jornalistas e universidades.

Segundo Luciene Kaxinawá, coordenadora geral da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), o manual é resultado de um esforço conjunto, envolvendo mais de 40 povos indígenas. “Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias”, reforça Kaxinawá.

A primeira edição do Poranga Marandúa foi editada e revisada pela Organização Indígena Instituto Kaingáng (Inka) e está acessível online, de forma gratuita, tornando-se uma ferramenta de acesso democrático para profissionais e estudantes da área.

Por que é importante entender o jornalismo indígena?

Para os integrantes da Abrinjor, a conclusão do manual, após um ano e meio de trabalho, é uma “boa notícia” — que é justamente o significado da expressão Poranga Marandúa, na língua Nheengatu, do tronco Tupi-Guarani. Essa iniciativa sublinha a relevância da autodeterminação na construção de narrativas. A luta por representatividade e o reconhecimento de direitos é pauta constante, como no debate sobre o que os povos indígenas têm a comemorar no 19 de abril, data que se tornou um “Dia de desconstrução”.

A inovação trazida pelo manual deve servir não apenas como um instrumento de trabalho para jornalistas em todo o país, mas também como uma ferramenta de educação, como afirma Sônia Kaingáng, jornalista indígena pioneira e comunicadora do Inka. “A gente precisa destacar que chegamos aqui pela via da educação. Nós somos brasileiros e temos visto que muitos brasileiros querem uma via que não é a da educação”, destaca Kaingáng, ressaltando o papel fundamental do conhecimento na transformação social.

Andreza Baré, pesquisadora e comunicóloga, aponta que muitos jornalistas formados em universidades ainda invisibilizam os povos indígenas em suas reportagens. “Essa é uma grande oportunidade que a gente oferece para os currículos, para as ementas dos cursos de jornalismo, que inclua esse manual como uma ferramenta pedagógica de redação antirracista para falar de povos indígenas e de outros povos e comunidades tradicionais”, argumenta Baré, defendendo uma reformulação educacional para abordar as complexidades desses grupos. Este alinhamento é crucial também para a cobertura de pautas sensíveis, como a atuação das mulheres defensoras do clima pela “defesa ambiental” no Brasil.

Samela Sateré Mawé, assessora de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), acredita que o manual também estimulará a chegada de mais indígenas aos espaços de comunicação. “Esse manual é uma porta que vai se abrir para dentro do movimento indígena que vai se abrir para os jornalistas indígenas ocupando esses espaços, porque ninguém melhor que a gente para falar sobre a gente”, conclui Sateré Mawé, enfatizando a importância da auto representação e da voz própria. Da IstoÉ.