Manoel Carlos fala de Liz

Manoel Carlos fala de Liz

Manoel Carlos Foto Reprodução Perdemos sim a bela mulher que nos encantava com seus olhos universalmente celebrados, que sabiam prometer tudo, sem perder uma certa candura, remanescente da menininha de Lassie. Perdemos aquela que se oferecia, despudorada e tímida, à curiosidade do mundo, deixando-se devassar e permanecendo, ao mesmo tempo, inatingível. A mulher que conviveu com homens e doenças em iguais proporções, desde a juventude, atormentada e sofrida pela dor que ambos lhe infligiam, e mantendo sempre, milagrosamente, a admiração que lhe devotávamos. A mulher que não era a mais bela do mundo, mas a mais bela de cada dia. Todos os dias. Perdemos sim a atriz de larga experiência, que tanto nos emocionou e divertiu com dramas e comédias, e que soube evoluir diante dos nossos olhos, sem esconder que estava sempre aprendendo, numa exibição de exuberante humildade. E perdemos muito, sem dúvida, de nós mesmos, incrustada que ela estava em nossa memória afetiva, em muitos casos desde crianças, como os homens e as mulheres da minha geração. E de tal modo e com tal força ela nos acompanhava vida afora que os nossos filhos e netos chegaram até ela sem esforço, como se a admiração por Liz Taylor fosse uma herança genética. Num céu salpicado de astros e estrelas, todos se afastaram, abrindo caminho para que entrasse, radiante, aquela que é agora a mais nova e também a mais bela da constelação: LIZ.