Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Por Kanishka Singh e Trevor Hunnicutt e Gabriella Borter

WASHINGTON/JACKSON, Mississippi (Reuters) – Centenas de manifestantes se dirigiram à Suprema Corte dos Estados Unidos neste sábado para protestar contra a decisão que derrubou o caso Roe vs. Wade de quase meio século atrás, que reconhecia o direito constitucional das mulheres ao aborto.

A decisão do tribunal, com uma maioria conservadora de 6 contra 3, deve impactar bastante a vida nos Estados Unidos, com quase metade dos Estados propensos ou já determinados a proibir o aborto. O juiz conservador Clarence Thomas sugeriu que o raciocínio da decisão também pode levar a corte a reconsiderar decisões anteriores que protegem o direito à contracepção, legalizam o casamento gay em todo o país e invalidam as leis estaduais que proíbem o sexo gay.

A multidão em protesto tinha tanto ativistas antiaborto vestindo camisetas com os dizeres “Sou da Geração Pró-Vida” quanto defensores do direito ao aborto entoando “meu corpo, minha escolha”.

“A Suprema Corte tomou algumas decisões terríveis”, afirmou o presidente democrata Joe Biden neste sábado.

Ele acrescentou que a Casa Branca procurará monitorar os Estados na aplicação dessas proibições, com autoridades do governo já sinalizando que deverão combater as tentativas dos Estados de proibir a pílula usada para aborto medicamentoso.

“A decisão é implementada pelos Estados”, disse Biden. “Meu governo vai se concentrar em como eles administram e se eles violam ou não outras leis.”

Os conservadores cristãos há muito tempo lutavam para derrubar o caso Roe vs. Wade, com a decisão de sexta-feira se tornando o ápice de uma longa campanha para nomear juízes antiaborto para o tribunal superior. A decisão teve o apoio de todos os três juízes nomeados pelo ex-presidente Donald Trump.

A novidade, no entanto, parece estar em desacordo com a ampla opinião pública. Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada no mês passado mostrou que cerca de 71% dos norte-americanos –incluindo maiorias de democratas e republicanos– disseram acreditar que a decisão sobre interromper ou não a gestação deve ser prerrogativa da mulher e de seu médico, em vez de ser regulamentada pelo governo.

Esse apoio não é absoluto: 26% dos entrevistados disseram que o aborto deveria ser legal em todos os casos, enquanto 10% disseram que o procedimento deveria ser ilegal em todos os casos, com a maioria apoiando alguns limites.

A decisão provavelmente influenciará o comportamento dos eleitores nas eleições de meio de mandato a serem realizadas no dia 8 de novembro, com os democratas enfrentando alto risco de perderem a maioria na Câmara dos Deputados e possivelmente no Senado.

Alguns líderes partidários esperam que a decisão conquiste os eleitores indecisos dos subúrbios, embora os ativistas tenham expressado desapontamento e desmoralização por sofrer tal derrota enquanto o partido detêm poder total em Washington.

“Eles podem pedir por mais poder, mas eles já não têm o Congresso e a Casa Branca?” disse Patricia Smith, uma defensora do direito ao aborto de 24 anos de idade que foi à Suprema Corte para protestar. “Eles não conseguiram aprovar muito em termos de legislação, apesar de estarem no poder, então qual a vantagem?”

A decisão veio apenas um dia depois que o tribunal emitiu outra decisão histórica, determinando que os norte-americanos têm o direito constitucional de portar uma arma escondida para proteção –o que invalidou uma lei do Estado de Nova York que estabelecia limites estritos para autorizações de porte oculto de arma.

As duas decisões mostraram um tribunal agressivamente conservador pronto para agir e reformar o modo de vida os norte-americanos em um momento em que o Congresso muitas vezes se encontra em um impasse para aprovar grandes mudanças de políticas públicas.