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Manifestações contra o racismo se intensificam após novo drama nos EUA

Manifestações contra o racismo se intensificam após novo drama nos EUA

Manifestantes perto do restaurante onde Rayshard Brooks foi morto em 14 de junho de 2020, em Atlanta, Estados Unidos - AFP

A morte de um negro nas mãos de um policial branco em Atlanta aumentou o debate acalorado nos Estados Unidos sobre o racismo sistêmico, provocando novos protestos nas ruas e a renúncia da chefe da polícia da cidade.

Nesta segunda-feira (15), o Conselho de Direitos Humanos da ONU aceitou a proposta dos países africanos de organizar um debate urgente na quarta-feira (17) sobre racismo e violência policial.


A morte na sexta-feira de Rayshard Brooks, de 27 anos, por um tiro da polícia, ocorreu em meio a uma onda de protestos e distúrbios nos Estados Unidos e em várias partes do mundo após a morte do afro-americano George Floyd, em 25 de maio, vítima da brutalidade policial.

O serviço médico legal de Atlanta considerou a morte de Brooks como homicídio.

O restaurante da rede Wendy’s, onde ocorreu o incidente, foi incendiado no sábado, enquanto centenas de pessoas se manifestaram na capital do estado do sul da Geórgia, bloqueando uma rodovia.

A prefeita Keisha Lance Bottoms, cujo nome aparece como possível candidata de chapa com o democrata Joe Biden, anunciou no sábado a renúncia imediata de Erika Shields, que lidera a polícia de Atlanta desde dezembro de 2016.

“Não acredito que a ação tenha sido um uso justificado da força”, disse Bottoms.

Segundo um relatório oficial, Brooks dormia em seu carro do lado de fora do restaurante quando funcionários ligaram para a polícia para reclamar que ele estava obstruindo a passagem de clientes.

Brooks estava bêbado e resistiu quando dois policiais brancos tentaram prendê-lo, informou o Gabinete de Investigação da Geórgia (GBI).

Imagens do incidente, divulgadas pela polícia no domingo, mostram uma briga entre os policiais e o suspeito, que consegue pegar a pistola taser (arma imobilizadora) de um agente e escapa.

Embora o GBI sustente que “Brooks virou e apontou o taser para o policial, que usou sua arma”, as imagens mostram que o suspeito vira as costas para o policial quando este atira e o fere.

Brooks foi levado para um hospital, mas morreu após uma cirurgia. Um oficial ficou ferido.

O policial que atirou em Brooks foi demitido no sábado e identificado pelas autoridades locais como Garret Rolfe, enquanto o segundo agente foi enviado para funções administrativas, segundo a ABC News.

O procurador do condado de Fulton, Paul Howard, afirmou que seu escritório decidirá se apresentará acusações criminais contra Rolfe, informou o “Atlanta Journal-Constitution”.

Brooks tinha quatro filhos e havia comemorado o aniversário da filha de oito anos na sexta-feira, segundo o advogado da família.

A ex-legisladora afro-americana Stacey Abrams, outra potencial candidata de chapa de Biden, disse no domingo que a raiva dos manifestantes “é legítima”.

“Um homem foi morto, porque dormia no meio do caminho de outras pessoas, e sabemos que não é um incidente isolado”, afirmou.

Um advogado representando a família do falecido, Chris Stewart, denunciou um uso desproporcional da força.

“Na Geórgia, o taser não é uma arma letal. Os reforços chegaram dois minutos depois. Eles poderiam tê-lo encurralado. Por que tiveram que matá-lo? (O policial) tinha outras opções além de atirar nas costas”, disse ele a jornalistas.

Este é o 48º caso de tiroteio, envolvendo policiais, investigado pelo GBI desde o início do ano, disse o “Atlanta Journal-Constitution”. Em 15 desses tiroteios, houve mortes.

Os protestos após a morte de Floyd, que se espalharam primeiro pelos Estados Unidos e depois pelo mundo, destacaram os legados da escravidão, do colonialismo e da violência branca contra a comunidade negra e contra outras minorias, bem como a brutalidade da polícia no país norte-americano.

Na Europa, onde os protestos contra o racismo continuaram na Alemanha, França, Suíça e Reino Unido no fim de semana, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anunciou nesta segunda-feira a criação de uma comissão sobre desigualdades raciais.

Johnson argumentou que era necessário agir sobre a “substância” do problema, em vez atuar sobre os “símbolos”, em oposição às reivindicações pela remoção de monumentos representando figuras históricas controversas.

burs-cyj/rsr/mr/tt