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Manifestações contra governo do Iraque voltam às ruas com mais força

Manifestações contra governo do Iraque voltam às ruas com mais força

Estudantes protestam contra governo na cidade santa de Najaf, no centro do Iraque, em 13 de novembro de 2019 - AFP

Foram retomados com mais intensidade em Bagdá e no sul do Iraque, nesta quarta-feira (13), os protestos contra o governo, que também é alvo de uma crescente pressão das Nações Unidas em favor de reformas.

Desde 1º de outubro, mais de 300 pessoas morreram – manifestantes em sua maioria. Diante dessas mortes, do aumento da repressão, das detenções e das intimidações, a mobilização se conteve por alguns dias.

Nesta quarta, porém, a multidão voltou a encher a praça Tahrir de Bagdá, epicentro dos protestos, especialmente após a convocação da greve geral dos professores.

“Estamos aqui para apoiar os manifestantes e suas reivindicações legítimas”, afirmou o professor Aqil Atchane, na Tahrir.

Em Basra, cidade petroleira e costeira, as marchas também foram retomadas, apesar de vários dias de violência.

Cerca de mil estudantes voltaram a levantar seu acampamento na frente do conselho provincial, depois que as forças da ordem atearam fogo em suas barracas há uma semana.

Em Nassiriya e Diwaniya, no sul agrícola, as escolas permanecem fechada há semanas.

Para muitos manifestantes do sul xiita, o grande aiatolá Ali Sistani deu um novo impulso ao movimento na segunda-feira, ao considerar que “os manifestantes não conseguem voltar para suas casas sem as reformas necessárias”.

“Se ordenar a desobediência civil para todos, vai tudo fechar: o governo, as companhias petroleiras, tudo. É assim que chegaremos a uma solução”, brandiu um jovem na Tahir.

– Uma reorganização?

Os manifestantes reclamam uma nova Constituição, uma renovação do sistema político e da classe dirigente para terminar com “os ladrões” e com “os corruptos” no país, um dos mais ricos em petróleo no mundo.

Diante da crise, a chefe da Missão de Assistência da ONU no Iraque (Unami), Jeanine Hennis Plasschaert, pressionou o presidente do Parlamento, Mohamed al-Halbusi, e os líderes dos blocos parlamentares para “agirem agora”.

“A confiança do público está em seu nível mais baixo”, e os dirigentes “devem lhe prestar contas”, disse ela à AFP. É preciso “começar a aplicar uma série de reformas-chave”, insistiu.

Hennis Plasschaert já obteve o apoio do aiatolá Sistani para o plano que prevê a revisão da lei eleitoral e emenda na Constituição.

O governo entregou ao Parlamento um projeto de lei eleitoral apresentado como sua principal reforma, mas o texto ainda não consta da agenda da Assembleia.

Os deputados se contentaram com votar mais leis para controlar a economia e decidiram convocar dois ministros, o que leva a suspeitar da reorganização anunciada pelo primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi.

– “Um enorme vazio” –

Inicialmente, os manifestantes reivindicavam empregos e melhores serviços públicos. Agora, também pedem a renúncia de todas as autoridades políticas e uma renovação total do sistema político implementado desde a queda do ditador Saddam Hussein, em 2003. As lideranças políticas cerraram fileiras para retomar o controle.

O primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi ainda não explicou o motivo pelo qual não renunciaria. O presidente Barham Saleh, que manteve um baixo perfil durante um tempo, agora aparece junto dele.

A pedido do poderoso general iraniano Qassem Soleimani, que intervém regularmente nos assuntos iraquianos, chegaram a um acordo para pôr fim à disputa.

Desde o acordo, 18 manifestantes saíram mortos, muitos deles por munições reais, segundo fontes médicas.

O líder xiita Moqtada Sadr, que inicialmente defendia a queda do governo, pediu hoje ao Parlamento que aprove reformas radicais, ao mesmo tempo em que pediu aos iraquianos para manter a pressão.

No Twitter, contudo, parecendo amenizar suas convocações anteriores, ressaltou que são necessários “meios inteligentes” para “renovar” os líderes governistas e evitar um “enorme vazio”.

Em Bagdá, o presidente da região autônoma do Curdistão iraquiano, Neshirvan Barzani, reuniu-se com Abdel Mahdi, Saleh e Halbusi. Os curdos – cerca de 20% do Parlamento – se opõem a uma reforma constitucional que modificaria seu estatuto de autonomia.