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Manaus ainda não respira

Falta de oxigênio para doentes da Covid-19 causa uma catástrofe humanitária na capital amazonense e afeta municípios do interior do estado. Pelo menos 35 pessoas morreram asfixiadas nesta semana. Os hospitais estão superlotados e doentes decidem morrer em casa. O Ministério da Saúde e o governo local sabiam perfeitamente que o colapso aconteceria, mas nada fizeram para evitá-lo

Crédito: Istock

ASFIXIA Desesperada, mulher abana parente internado com Covid-19 e sufocado pela falta de oxigênio em hospital de Manaus: omissão de governos levou a situação catastrófica (Crédito:Divulgação)

Morrer por asfixia é a tragédia atual na região mais arejada do mundo, a Amazônia. A falta de oxigênio e a omissão governamental que massacram centenas de pessoas em Manaus e chocam o mundo já são sentidas intensamente também em cidades do interior do Amazonas e do Pará. No hospital de Coari, a 362 quilômetros da capital, foram confirmados sete óbitos por falta do gás na terça-feira 19. Um dia antes, em Faro, no Pará, seis pessoas da mesma família sucumbiram sem ar pela ausência de um atendimento hospitalar essencial. Balanços extraoficiais dão conta de que pelo menos 35 cidadãos de pequenos municípios amazônicos morreram asfixiados dessa forma. Em Manaus, a situação permanece tenebrosa e a chegada de algum oxigênio para atender a demanda imediata não resolve outros problemas crônicos. Existe superlotação hospitalar tanto na rede privada quanto na pública. Doentes sem leito estão sendo atendidos no chão dos corredores dos hospitais. Alguns pacientes estão simplesmente optando por morrer em casa, em vez de serem assassinados por afogamento.

Em Manaus, cidade com dois milhões de habitantes, costumavam acontecer entre 20 e 30 sepultamentos por dia. Agora são mais de 200

Uma combinação de perversidades do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para-choque do presidente Jair Bolsonaro, e do governador Wilson Lima (PSC), que nada fez para reforçar o isolamento social no estado, levou a região a essa situação: há um avanço exponencial da pandemia e uma estrutura precária para receber os doentes, além de graves problemas de gestão dos serviços de saúde. As limitações de fornecimento de oxigênio no estado, por exemplo, são amplamente conhecidas. A fabricante local, a White Martins, tem capacidade para produzir 28 mil m3 por dia, mas o consumo atual chega a 76 mil m3. Na primeira onda da doença, em abril de 2020, o pico de consumo chegou a 30 mil m3, mas o estado negligenciou a segunda onda, reforçada por uma nova cepa do coronavírus mais agressiva e letal. Vários alertas de que haveria escassez do produto foram dados, inclusive pela própria fabricante. Pazuello esteve em Manaus nos dias que antecederam o colapso de quinta-feira 14 e teve plenas condições de evitar o pior. Em vez disso, se dedicou a fazer pregação da hidroxicloroquina e do criminoso “tratamento precoce”.

A Força Nacional do SUS, convocada por ele próprio, já havia detectado a falta de oxigênio na capital e o risco iminente de uma tragédia hospitalar. Relatórios oficiais produzidos entre os dias 8 e 13 descreviam os problemas com precisão. Apesar dos alertas, o governo federal não se moveu. No dia 11, a análise da situação indicava que havia “exaustão nos hospitais, alas clínicas com superlotação e fornecimento do oxigênio em reserva em todos os hospitais da rede”. Foi proposta a criação urgente de usinas de oxigênio para suprir a demanda. No dia 13, a Força Nacional do SUS informava claramente: “O colapso vai acontecer na madrugada de hoje. Não existe O2 para repor durante a madrugada. Todas as médias de projeção foram quebradas hoje durante o dia”, relatou. Pazuello e Wilson Lima ficaram impassíveis. Na quarta-feira 20, o total de infectados no Amazonas era de 239 mil e o número de mortos alcançava 6,5 mil, taxa de letalidade que se aproxima de 3%. Em Manaus, cidade com dois milhões de habitantes, costumavam acontecer entre 20 e 30 enterros por dia. Agora são 200.

Não fosse a reação da sociedade e, inclusive, de outros países, a crise poderia ser ainda pior. Diante da habitual paralisia do governo federal, que tratou de transferir a responsabilidade pelo problema para o governo estadual, artistas e famosos brasileiros, como Whindersson Nunes, Tatá Werneck, Gusttavo Lima e Paulo Coelho se mobilizaram para mandar cilindros de gás e respiradores para Manaus. Até o governo da Venezuela, que Bolsonaro trata como inimigo, está ajudando o Amazonas a sair da situação difícil em que se encontra. Na noite de terça-feira, 19, cinco caminhões carregando 107 mil m3 de oxigênio, vindos da Venezuela, chegaram a Manaus depois de percorrer 1,5 mil quilômetros. Um comboio carregado com 100 mil m3 do gás deixou Porto Velho (RO) no meio da semana com previsão de chegar no sábado em Manaus. O problema é a dificuldade de rodagem pela BR-319, uma das piores estradas do País.

O avanço da pandemia pelo interior amazônico preocupa especialmente pela dificuldade logística para suprir a demanda crescente de oxigênio. Segundo o deputado estadual Ricardo Nicolau (PSD), diretor do grupo Samel, que opera uma rede hospitalar no Amazonas, o transporte mais rápido para chegar em municípios distantes e sem aeroportos é com hidroavião, cuja capacidade de transporte de oxigênio é limitada. Nicolau conta que nenhuma cidade do interior tem leitos de UTI e viagens de barco demoram mais de uma semana. “Se o número de doentes continuar subindo, entraremos numa situação de caos absoluto. O problema não é só o oxigênio. Faltam leitos, medicamentos e o sistema privado também enfrenta superlotação”, diz. “Posso garantir que o número de mortos no Amazonas já é pelo menos duas vezes maior do que indicam os números oficiais”, conclui.

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