ISTOÉ 2016

Maicon Andrade ganha fama após bronze no tae kwon do, mas ainda busca patrocínio

No meio da galera que pedia para tirar fotos com Maicon Andrade, um senhor fez cara de ponto de interrogação quando o medalhista de bronze disse que sua cidade natal é Justinópolis. Com jogo de cintura de um lutador de tae kwon do, ele devolveu. “Pode olhar direito no mapa de Minas Gerais que o senhor vai achar. Justinópolis está na moda”, sorriu o lutador.

O distrito mineiro que pertence a Ribeirão das Neves tem poucas empresas. Predomina a agricultura, com o cultivo de hortaliças para os mercados do centro de Belo Horizonte. Justinópolis tentou se emancipar duas vezes, em 1988 e 1992, mas fracassou por falta de quórum. Depois dos Jogos do Rio, o distrito será também a cidade do cara quem ganhou o bronze no tae kwon do. “Gosto de pescar e passear. Fiz questão de voltar para o lugar onde nasci e cresci para ficar com a família”, diz o lutador de 22 anos.

Maicon de Andrade não revela onde guarda a medalha de bronze que ganhou numa campanha de três vitórias na categoria para atletas de mais de 80 quilos. Ele só diz que guarda no quarto, a sete chaves. O bronze, na verdade, nunca fica guardado. Fica rodando de mão em mão.

É só Maicon colocar o pé para fora de casa do bairro de São Miguel Arcanjo que os celulares se colocam de prontidão para uma selfie. É a mesma coisa em São Caetano do Sul, local onde treinava na academia Two Brothers Team.

Um mês após a conquista, a fama repentina foi a única grande mudança na vida do medalhista mais improvável do Brasil. Falta agora que o reconhecimento se estenda aos patrocinadores. Seu empresário, Marcel Camilo, afirma que ainda não foi procurado por potenciais apoiadores. Hoje, Maicon tem a ajuda da Petrobrás e da prefeitura de São Caetano do Sul. “Ainda não fomos procurados. Mas vamos esperar. Tudo ainda está muito fresco.”

VIDA DUPLA – O tema é inevitável diante dos perrengues que ele passou até a medalha. Em 2012, chegou a trabalhar como servente de pedreiro para completar a renda. Carregava saco de cimento, fazia massa e descarregava caminhão. Trampo pesado, mas era o jeito de continuar lutando. No sábado, fazia bico como garçom e, naturalmente, sobrava só um dia da semana para treinar. Levou essa vida dupla por quase dois anos.

Em 2013, descoberto pelos treinadores e irmãos Reginaldo e Clayton dos Santos, foi treinar em no ABC paulista. Novos apertos. Em 2014, por causa de uma mudança na secretaria de Esportes, os pagamentos foram interrompidos por quatro meses. Atletas de todas as modalidades chegaram a fazer um protesto contra o órgão.

Maicon não teve nem o apoio da Confederação Brasileira de Tae Kwon Do. Por causa de critérios não muito claros, ele foi cortado do Pan e do Mundial no ano passado. Isso fez com que despencasse para a 51ª posição no ranking. Para se manter competitivo, fez rifas para pagar treinos e viagens para competir contra adversários internacionais, algo fundamental na modalidade. Além do apoio da prefeitura, pagou a participação no Campeonato Sul-Americano do próprio bolso.

Na reta final da Olimpíada, a confederação decidiu substituir o técnico de Maicon após críticas à entidade nas redes sociais. Toda a preparação final, no período em que ficou à disposição do Comitê Olímpico do Brasil (COB), foi feita pelo aplicativo de conversas instantâneas WhatsApp. Ou seja: o técnico mandava mensagens e Maicon treinava, algo impensável para um herói olímpico.

“Nossa esperança é conseguir um patrocínio bom para trabalhar com mais tranquilidade no próximo ciclo”, diz Reginaldo dos Santos. “Precisamos de investimentos para a compra das passagens aéreas para as lutas internacionais. As vagas serão definidas pelo ranking mundial”, completa.

MÃE – Maicon é articulado, fala bem, não se esquece dos esses e erres no final das frases. É calmo e não perde as estribeiras ao relatar o drama. Sua voz só perde a firmeza quando fala da mãe, dona Vitória, essa sim sua grande patrocinadora. No início da carreira, ela atrasava o pagamento das contas de luz só para comprar um uniforme para o filho. “Todo mundo ficava no escuro, só com velas”, conta o medalhista.

No meio da preparação olímpica, dona Vitória foi diagnosticada com câncer de mama. Depois de uma cirurgia, está curada. Ela foi a primeira a ser abraçada após a medalha no Rio. O caçula de 12 irmãos, dos quais oito ainda estão vivos, diz que a conquista também foi da matriarca. “Foi o momento mais difícil da minha vida. O que faço é por ela, luto por ela.’’

Maicon ainda não voltou a treinar. Pretende tirar um período de férias antes de pensar na defesa do bicampeonato. A única certeza que tem agora é o lugar onde vai descansar: Justinópolis, um lugar que ele próprio está ajudando a deixar em relevo no mapa de Minas Gerais.