A relação entre o presidente francês Emmanuel Macron e o republicano Donald Trump consolidou-se como um eixo complexo da diplomacia ocidental contemporânea. A tentativa de alinhamento pragmático dos líderes alterna com visões de mundo incompatíveis: de um lado, o multilateralismo institucional defendido pela França; do outro, o protecionismo expansionista da Casa Branca.
Agora, a tensão volta a aumentar com a possibilidade de barreiras tarifárias sobre produtos de alto valor agregado – como o champagne francês – e a discordância em relação à Groenlândia.
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‘Duelo’ de aperto de mãos

O presidente de França, Emmanuel Macron (esq.), estende a mão do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump (dir.), enquanto lhe dá as boas-vindas antes de uma reunião no Palácio Presidencial do Eliseu em Paris, em 7 de dezembro de 2024 – AFP
O histórico de fricção entre Trump e Macron remonta a episódios de carga simbólica, como o aperto de mão durante a Conferência de Paz no Oriente Médio, em 2025. Ao se encontrarem diante das câmeras, o cumprimento – que deveria ser um gesto protocolar de cortesia – transformou-se em um embate de resistência física que durou alguns segundos. Os mandatários pressionaram a mão um do outro enquanto realizavam uma espécie de “queda de braço” não planejada, cena que levantou estranhamento do público.
Vale lembrar que essa não foi a primeira vez que os mandatários protagonizaram uma disputa física durante a saudação. Em 2017, ambos seguraram o aperto de mãos firmemente e chacoalharam por segundos além do usual.
O gesto, descrito por analistas como uma “disputa de falanges”, ultrapassou a etiqueta para sinalizar que Macron não aceitaria a posição de subordinação comumente imposta por Trump a aliados da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Os dois momentos reforçaram o tom da relação – uma convivência marcada pela testagem mútua de autoridade e certa resistência francesa à retórica de intimidação.
Mensagens de texto e questão territorial
As recém-divulgadas mensagens de texto entre Trump e Macron demonstraram uma tentativa de diálogo do presidente francês sobre a política externa do republicano. Mais uma vez, o teor da relação foi endossado: Macron chama Trump de “friend (amigo)” e diz concordar com a atuação do mandatário na Síria e no Irã. Ele, porém, traça um limite em relação à Groenlândia.
“Estamos totalmente alinhados sobre a Síria. Podemos fazer grandes coisas no Irã. Eu não entendo o que você está fazendo sobre a Groenlândia”, escreve.
O comentário se dá em resposta ao o projeto expansionista de Trump, que inclui a anexação da Groenlândia – território autônomo, mas pertencente ao reino da Dinamarca. Enquanto apoia as ações estadunidenses no Irã, Síria e celebra a deposição de Nicolás Maduro na Venezuela, Macron ainda segura ressalvas sobre a apropriação da região ártica. No decorrer da mensagem, ele convida o presidente americano para uma reunião e um jantar.
Trump já havia ameaçado sobretaxar oito países para pressionar a anexação da Groenlândia. Em resposta, chefes da União Europeia (incluindo o presidente da França) avaliam se encontrar para ativar o “instrumento anticoerção” – mecanismo que permite retaliações comerciais fortes contra terceiros que usem pressões econômicas indevidas.
Recusa ao ‘Conselho da Paz’ e retaliação no champagne
O distanciamento geopolítico tornou-se mais evidente com a decisão de Macron de declinar o convite para integrar o Conselho da Paz proposto por Washington. Para o governo francês, a iniciativa carecia de legitimidade multilateral e buscava contornar a autoridade das Nações Unidas.
Fiel aos preceitos da ONU, Macron se consolida como o contraponto europeu ao ceticismo de Trump às organizações internacionais. Como represália a essa resistência diplomática, a administração Trump sinalizou a possibilidade de tarifas retaliatórias de 200% contra vinhos e champagne franceses. O foco na bebida não é casual, trata-se de um setor estratégico para a balança comercial do país, desenhado para atingir a base de apoio econômica de Macron.