Luzes e sombras de Johnny Alf

Luzes e sombras de Johnny Alf

Mauro Ferreira Johnny Alf (1929 – 2010) viveu nas sombras, sem nunca ter colhido as glórias de ter sido o verdadeiro precursor da Bossa Nova que explodiu em 1958, formatada pela batida diferente do violão de João Gilberto. Sua timidez, aliada a uma elegância providencialmente discreta que ajudava a esconder a homossexualidade nunca assumida, fez de Alf uma das figuras mais enigmáticas da música brasileira. Autor do sambossa “Rapaz de Bem” (1952), marco inicial da modernidade musical da década de 50, o compositor gravou poucos álbuns ao longo de sua vida e quase nunca esteve sob os holofotes, tendo preferido se esconder no escurinho das boates cariocas dos anos dourados. Foi nessas boates que, a partir de 1954, ele mostrou o caminho das pedras para Tom Jobim (1927 – 1954), João Gilberto e outros que não perdiam uma oportunidade de ver Alf tocar seu piano e seu repertório revolucionário. Entre Amigos, a caixa da Lua Music que embala 40 gravações inéditas de sua obra em três CDs, ajuda a tirar Alf postumamente da penumbra, embora já seja tarde demais para fazer justiça em vida a um artista que nunca recebeu os devidos louros por sua contribuição. Carioca pobre, filho de empregada doméstica, Alf contou com a benevolência da patroa de sua mãe para estudar o piano que lhe garantiria lugar nobre da história da música brasileira. Foi no piano que o músico desbravou nos anos 50 as harmonias modernas que culminariam na Bossa Nova. O terceiro e melhor CD da caixa, Johnny Alf ao Vivo e à Vontade com seus Convidados, apresenta Alf em gravações inéditas em que toca piano e solta a voz sempre macia enquanto celebra a obra de compositores como Dorival Caymmi (1914 – 2008) e Noel Rosa (1910 – 1937). De Noel, nascido na mesma Vila Isabel em que Alf veio ao mundo, o músico toca “Palpite Infeliz”. De Caymmi, o tema revivido é o samba-canção “Nem Eu”. Extraídas do acervo pessoal de Nelson Valencia, amigo do compositor, tais gravações remetem, de certa forma, ao começo de carreira de Alf. Ao ser contratado para tocar nas boates do Rio, o músico transitava por repertório alheio porque, tímido, tinha vergonha de mostrar as próprias composições. Joias como “Ilusão à Toa”. “O Que É Amar” e ‘Eu e a Brisa”, lapidadas no CD 1 em registros inéditos feitos por elenco heterogêneo que destaca Leny Andrade (a melhor intérprete do cancioneiro de Alf depois do próprio compositor), Joyce, Emílio Santiago, Zé Renato e Leila Pinheiro. A maior prova de que não se deu a devida atenção à obra de Johnny Alf está no CD 2, Em Tom de Canção. Neste disco, Alaíde Costa – outra cantora que sempre entendeu o idioma musical de Alf – joga luz sobre 10 temas obscuros que permaneciam nas sombras. Músicas como “Escuta”, “O Tempo e o Vento” e a inédita faixa-título, “Em Tom de Canção”, reiteram a complexidade e a sofisticação harmônica de um cancioneiro que, salvo um ou outro clássico, permanece apreciado somente por músicos como Ed Motta, com quem Alf se mostra à vontade no CD 3 ao tocar “Fly me to the Moon” e “Que Volte a Tristeza”, outro tema pouco conhecido do compositor. Mesmo na sombra, Johnny Alf mostrou a luz para toda uma geração que, justiça seja feita, nunca negou que uma das bases da revolução musical de 1958 foi a música daquele jovem tímido que se escondia sob o piano das boates do Rio e, mais tarde, de São Paulo. Gênero: Bossa Nova Título: Entre amigos Cotação: * * *