Esportes

‘Luta está mais igual, mas mudar estrutura racista vai levar tempo’, diz Grafite

Passado mais de um mês da morte do americano George Floyd, em Minneapolis, a onda de protestos contra o racismo permanece em diversos países. E no esporte não tem sido diferente: atletas continuam a fazer manifestações, algo que ganhou mais repercussão com a volta dos campeonatos ao redor do mundo. O engajamento dos esportistas deixa o ex-atacante Grafite otimista em relação ao combate por igualdade racial. O hoje comentarista dos canais SporTV acredita que “agora a luta está mais igual”, embora pense que ainda vai demorar para as estruturas serem realmente modificadas.

Grafite sofreu em campo com o racismo, no primeiro caso que ganhou mais repercussão no futebol sul-americano. Em 2005, quando defendia o São Paulo em partida da Copa Libertadores, o então atacante foi chamado de “negro de merda” pelo zagueiro argentino Desábato, do Quilmes. Grafite acabou expulso pela briga e o defensor recebeu voz de prisão ainda no Morumbi. Desábato passou duas noites na cadeia, pagou fiança de R$ 10 mil e pôde retornar à Argentina.

Na época, o atacante decidiu não prestar queixa-crime, mas hoje diz que conduziria o caso de forma diferente. Nesta entrevista o Estadão, Grafite admite que é difícil para esportistas se posicionarem contra o preconceito e torce para que o engajamento atual se torne permanente.

Como tem visto a onda de protestos de diversos esportistas?

Eu estou vendo essa situação com bastante ânimo. Não tínhamos esse engajamento aqui no Brasil, especialmente dos jogadores de futebol, porque é muito difícil o jogador se posicionar por qualquer causa aqui. Ele vai ser cobrado por isso depois quando as coisas não acontecerem dentro de campo, quando os gols não saírem, quando tiver falhas. Já vi jogador ser cobrado por dirigente por estar se empenhando por alguma causa fora das quatro linhas. “Deixa isso de lado, está prejudicando o time e a sua carreira. Pensa em você e no seu futuro”. Até entendo muitos jogadores não se juntarem à causa, não baterem de frente. Mas agora abriu-se uma janela que não pode mais ser fechada com o caso George Floyd. Vimos grandes esportistas ao redor do mundo. Quando o cara é consagrado, já tem uma independência financeira, é mais fácil para se posicionar. Eu senti isso na pele. Quando eu era jovem, era difícil eu me posicionar por alguma coisa. Quando aconteceu o caso de racismo comigo em 2005, eu tinha 27 anos, estava em uma crescente, na iminência de me transferir para a Europa. É difícil para o jogador tomar a frente. Se fosse hoje, depois da minha volta para o Brasil em 2015, sendo mais rodado e experiente, seria diferente, teria outra cabeça. O engajamento que teve ao redor no mundo e no Brasil, com grandes estrelas se posicionando, me deixa muito feliz, vejo com bons olhos essa repercussão e espero que seja permanente esse engajamento não só contra o racismo, como também contra a homofobia e contra preconceito religioso.

Acha que com essa repercussão que os protestos estão tendo é possível realmente mudar as estruturas racistas?

Mudar a estrutura é difícil. O racismo é uma doença, uma pessoa que odeia a outra por causa de pele, religião ou credo é complicado, é difícil, é educação. Isso tem que ser combatido dentro de casa, na escola. Acho que mudar é difícil, mas acho que agora temos uma briga mais equilibrada, estamos mais fortes nessa briga, mas não vai ser fácil. A repercussão que tomou foi muito grande desde a morte do George Floyd, estamos vendo protestos até hoje, acho que tem que ser um engajamento permanente. Me recordo que quando eu estava fora do país o pessoal me ligava para falar sobre racismo em 13 de maio (sanção da Lei Áurea) e 20 de novembro (Dia da Consciência Negra), ou quando acontecia um caso isolado. Falta o engajamento maior no Brasil. Quando eu jogava na Alemanha, era praticamente o ano todo fazendo campanha, íamos às escolas, entrávamos em campo com faixa e camisas sobre o combate ao racismo, e em um país onde a maioria é branca. Aqui no Brasil, a maioria é negra e não temos esse combate permanente, é estranho isso. Agora a luta está mais igual, mas mudar a estrutura ainda vai levar muito tempo.

Como vê as instituições também “concordando” com os protestos? Acha que é da boca para fora ou realmente estamos presenciando uma mudança? A Fifa liberou os protestos, por exemplo.

Estão liberando os protestos pela onda, não tem como ir contra ao que está acontecendo no mundo. Mas é difícil as instituições tomarem um lado, porque dependem de terceiros para arrecadar dinheiro, é uma engrenagem complicada. Mas espero que se torne permanente, com um trabalho de engajamento maior, que eles possam abraçar essa causa. Espero que seja, mas acho que é muito difícil ser permanente, é uma coisa mais momentânea.

Acha que a represália que sofreu o Colin Kaepernick ainda pode ocorrer de novo? O jogador da NFL, liga de futebol americano, não foi mais contratado por algum time após protestar durante o hino.

Infelizmente é o que acontece com a grande maioria dos jogadores que compram uma causa e batem de frente. No caso dele vimos que foi uma represália, mas aqui no Brasil essa represália é mais velada, é mais restrita, procuram outros meios de tirar o cara do clube. Por mais disso tudo que vem acontecendo de equilibrar essa briga, ainda é desigual. Então é difícil não ocorrer.

Como foi com você naquele episódio com o Desábato em 2005? Se fosse hoje, teria feito algo diferente?

Meu caso aconteceu muito rapidamente, fui expulso e quando cheguei no vestiário o Juvenal (Juvêncio, diretor do São Paulo na época) me ligou e perguntou o que havia acontecido. Contei que o cara tinha me chamado de “negro de merda” e eu empurrei o rosto dele e acabei sendo expulso. Ele falou para eu esfriar a cabeça e que iria resolver. No vestiário, eu não sabia o que estavam narrando sobre o jogo porque só tinha o vídeo. Quando eu estava saindo, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves me encontrou e perguntou aonde eu estava indo. Falei que estava indo para casa e ele falou que a gente iria para a delegacia porque o jogador não poderia ter feito aquilo. Deu toda aquela repercussão. No começo, acabei virando um ícone, uma referência no combate ao racismo, mas com o passar do tempo estava sozinho naquela luta. Talvez hoje a repercussão teria sido muito maior, eu poderia ter tido outra atitude. Na época não prestei a queixa-crime que tinha que ter prestado, porque estava sozinho. O São Paulo me deu toda a assistência jurídica e psicológica, mas as pessoas que estavam do meu lado foram saindo. Aquilo para a minha carreira e para a minha vida pessoal estava sendo muito ruim porque eu era só lembrado pelo caso de racismo, não mais pelos gols que eu fazia ou perdia. Não levei adiante, me arrependo hoje por tudo que vejo, pela referência que sou hoje, mas naquele momento não foi o melhor. Segui com minha vida e o Desábato seguiu com a dele. Talvez se o caso George Floyd tivesse acontecido em 2005, poderia não ter tido essa repercussão que tem hoje, com mídia, redes sociais e toda essa tecnologia. As coisas se difundem muito rapidamente. O que acontece aqui hoje o pessoal já está sabendo em cinco minutos do outro lado do mundo. Hoje sou referência, minha voz dá voz a pessoas que não têm condições de falar o que sentiram ou estão sentindo. Nesse tempo aqui que estamos conversando, quantas pessoas estão sofrendo racismo em escritórios, ruas e no Brasil afora? Eu tenho que dar voz a essas pessoas, não posso me calar mais.

Quão difícil é para um jogador acabar entrando nessa briga? Há o temor de represálias?

Como falei na primeira pergunta, é muito difícil porque normalmente ele vai ser cobrado por isso se as coisas não acontecerem dentro de campo. Os dirigentes já falam para o jogador cuidar do futebol. Por isso que eu entendo jogadores não tomarem a frente, porque há o medo de represálias, principalmente para o jogador que não tem uma vida estruturada, sem um certo nome no cenário. É difícil ele tomar a frente e não sofrer represália. Eu entendo e não os julgo por isso, porque sei como é difícil no dia a dia. Para buscar espaço, crescer dentro do futebol e ganhar notoriedade, muitas vezes você precisa abdicar de algumas lutas ou outras questões pessoais. Não pode trazer à tona porque pode ser usado contra você dentro do cenário esportivo.

O que mais os esportistas poderiam fazer para mudar essas estruturas racistas?

Acho que o esporte é uma ferramenta de inclusão social, e os esportistas são vistos como referência, somos espelhos para as crianças a partir do momento que as crianças veem que temos uma conduta legal fora de campo, uma conduta digna, que possa servir de inspiração. Vejo o exemplo hoje do Gabigol, do que ele representa. É disso que a gente fala, como o Neymar também é. Todas as crianças no Brasil conhecem eles. Que eles possam defender causas, porque vão ser exemplos para crianças e até para adultos. Quando estamos em evidência, como eles estão agora, somos capazes de mudar muitas coisas. Um simples gesto pode mudar tudo, pode dar o caminho para uma criança, tirar do mundo das drogas e do crime e trazer para o futebol, como também servir de exemplo no combate ao racismo e à homofobia. Quem é o carro-chefe disso? São os atletas e treinadores de ponta que podem fazer muitas coisas para ajudar.

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