Os candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam propostas distintas para a política ambiental brasileira no segundo turno das eleições de 2026, marcado para 25 de outubro. Enquanto o petista coloca o enfrentamento às mudanças climáticas entre os eixos centrais de seu programa, o candidato do PL enfatiza o potencial econômico da preservação ambiental e o combate aos crimes contra a natureza.
A comparação dos planos de governo mostra diferenças em temas como desmatamento, adaptação a eventos climáticos extremos, proteção de povos tradicionais e aproveitamento sustentável dos recursos naturais.
Apesar das divergências, os dois candidatos defendem medidas de infraestrutura hídrica, mecanismos de remuneração pela conservação ambiental e iniciativas de proteção das florestas.
Mudanças climáticas têm pesos diferentes nos programas
No plano de Lula, o enfrentamento às mudanças climáticas aparece como uma prioridade que orienta propostas econômicas, sociais e ambientais.
Segundo o levantamento da Agência Brasil, a expressão “mudanças climáticas” é mencionada 38 vezes no documento do petista.
O programa prevê investimentos em infraestrutura resistente a eventos extremos, proteção de mananciais, financiamento climático e ações de redução das emissões de gases de efeito estufa.
Entre as medidas estão a revitalização de bacias hidrográficas, a ampliação da segurança hídrica e a adaptação das cidades por meio de obras de drenagem sustentável e contenção de encostas.
O candidato também propõe fortalecer a prevenção de desastres e incluir a Caatinga entre os ativos estratégicos para combater a desertificação e reduzir emissões.
Já o programa de Flávio Bolsonaro apresenta uma abordagem mais concentrada na relação entre conservação ambiental e desenvolvimento econômico.
O documento menciona os eventos climáticos extremos ao tratar de infraestrutura e prevenção de riscos, com propostas para construção de barragens, reservatórios de controle de cheias, canais e obras de drenagem.
Também prevê reforço nos sistemas de monitoramento, alerta e resposta da Defesa Civil.
Desmatamento: Lula fala em zerar até 2030; Flávio mira ilegalidade
Uma das diferenças mais claras entre os candidatos está nas metas de combate ao desmatamento.
Lula reafirma o compromisso de alcançar o desmatamento zero até 2030. O plano inclui o fortalecimento de programas de prevenção e controle, ações de manejo integrado do fogo e ampliação de iniciativas de restauração florestal.
O petista também propõe valorizar parques nacionais por meio do turismo sustentável e da educação ambiental, além de incentivar a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).
Outra medida prevista é o aprimoramento dos pagamentos por serviços ambientais, mecanismo que remunera atividades de conservação e recuperação da natureza.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, estabelece como objetivo zerar o desmatamento ilegal até 2029.
A distinção é importante: a meta do candidato do PL se refere especificamente à supressão ilegal da vegetação, enquanto o programa de Lula utiliza a formulação mais ampla de desmatamento zero.
O plano de Flávio prevê reforço na fiscalização, no monitoramento e no combate a queimadas ilegais e crimes ambientais.
Amazônia e bioeconomia entram no debate
Flávio Bolsonaro defende transformar a biodiversidade da Amazônia em oportunidades econômicas, com investimentos em biotecnologia, medicamentos, cosméticos e novos materiais.
O programa propõe ampliar o manejo sustentável e agregar valor aos produtos da região, associando a preservação florestal à geração de emprego e renda.
O candidato também sugere reduzir sobreposições de atribuições entre órgãos como o Ibama, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O documento, entretanto, não especifica quais atribuições seriam consideradas sobrepostas.
Outra proposta é consolidar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e ampliar os pagamentos por serviços ambientais a produtores que preservam vegetação nativa ou recuperam áreas degradadas.
No programa de Lula, a preservação da Amazônia está vinculada a políticas de combate ao aquecimento global, restauração florestal, proteção da biodiversidade e valorização dos conhecimentos de povos tradicionais.
O petista também defende a participação do Brasil em iniciativas internacionais voltadas à eliminação do desmatamento.
Povos indígenas e comunidades tradicionais
Os candidatos também apresentam caminhos diferentes para a política voltada a povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais.
Lula propõe ampliar a destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas e assentamentos, além de fortalecer a regularização fundiária.
Seu programa inclui medidas de proteção social para famílias vulneráveis aos efeitos de eventos climáticos extremos.
O petista também defende a integração das políticas de assistência social às estratégias de prevenção e resposta a desastres.
Flávio Bolsonaro propõe ampliar a autonomia de povos indígenas e quilombolas para decidir sobre atividades produtivas em seus territórios, observadas as regras ambientais e os princípios de desenvolvimento sustentável.
O plano do candidato do PL também menciona mecanismos de compensação e indenização relacionados a eventuais restrições ao uso dos territórios.
Histórico ambiental dos governos entra na comparação
Além das propostas, o debate eleitoral envolve os resultados e as controvérsias das administrações anteriores.
Nos governos do PT, foram desenvolvidas políticas como o Plano Clima, programas de adaptação urbana e ações de prevenção e controle do desmatamento.
O material da Agência Brasil aponta a criação de 231 unidades de conservação de diferentes categorias e esferas administrativas, além da demarcação de 21 terras indígenas durante a gestão analisada.
Também registra investimentos de R$ 19,7 bilhões destinados a órgãos de fiscalização ambiental.
O governo Lula, entretanto, enfrenta críticas de ambientalistas pelo apoio à exploração de petróleo na região da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial.
Entidades indígenas também questionam a velocidade de processos de demarcação ainda pendentes.
O histórico do governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, é citado no levantamento como referência para a comparação das políticas ambientais.
Entre 2019 e 2022, segundo os dados apresentados pela Agência Brasil, foram destinados R$ 7,4 bilhões aos órgãos de fiscalização ambiental, enquanto nenhuma terra indígena foi demarcada.
O período também foi marcado pelo aumento do desmatamento e por controvérsias envolvendo o funcionamento de órgãos e fundos ambientais.
Esse histórico, porém, não substitui a análise das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro para um eventual mandato.
Meio ambiente será desafio para o próximo governo
A política ambiental brasileira envolve questões que vão além da conservação das florestas.
O próximo governo terá de lidar com riscos de secas, enchentes, incêndios, perda de biodiversidade e impactos econômicos das mudanças climáticas.
Também precisará conciliar proteção ambiental, desenvolvimento regional, produção agropecuária e compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.
A comparação dos programas mostra que Lula prioriza uma agenda estruturada em torno da mitigação e da adaptação climática, enquanto Flávio Bolsonaro destaca a valorização econômica dos recursos naturais, a infraestrutura e o enfrentamento de atividades ilegais.
As propostas ainda dependerão, em caso de vitória, de decisões orçamentárias, medidas administrativas e articulação com o Congresso Nacional para serem implementadas.
Da IstoÉ