Entrevista

Maria Cristina Pinotti, Economista

Lula e Bolsonaro representam visões populistas, diz economista Maria Cristina Pinotti

Gabriel Reis

Lula e Bolsonaro representam visões populistas, diz economista Maria Cristina Pinotti

Marcos Strecker
Edição 20/05/2022 - nº 2730

Quando a terceira via ainda tentava se articular, um grupo de economistas foi convidado pelo candidato Sergio Moro a apresentar um plano econômico para o País. Daí nasceu o documento “Desenvolvimento Inclusivo, Sustentável e Ético”, escrito pelos economistas Afonso Celso Pastore, Renato Fragelli e Maria Cristina Pinotti. O trabalho propõe a diminuição da desigualdade mantendo pilares do crescimento como a responsabilidade fiscal, o câmbio flutuante e o controle da inflação. Isso estará ameaçado se o País estiver nas mãos dos atuais líderes da disputa, Bolsonaro e Lula, segundo Maria Cristina. Mulher de Pastore e ex-diretora do Centro de Debate de Políticas Públicas, ela se aproximou de Moro quando organizava o livro “Corrupção: Lava Jato e Mãos Limpas”. A economista considera que os dois representam populismos nocivos e podem ampliar o afrouxamento institucional no combate ao crime de colarinho branco, que causa a pobreza. A proposta do trio de economistas, ela diz, serve para todos os candidatos.

A sra. participou do programa de Sergio Moro, que não deve concorrer. Esse documento pode ser aproveitado por outros candidatos?
Affonso Celso Pastore e eu já fizemos isso em outras eleições. Buscamos fazer um diagnóstico para o Brasil de acordo com aquilo que existe de mais consistente na visão dos melhores especialistas, sem filtro político. Quando ficou pronto, tínhamos a obrigação de divulgar. A sociedade civil precisa pensar no País não só em vésperas de eleições. Democracia não sobrevive sem uma participação muito ativa da sociedade. Isso está faltando e foi uma das coisas que nos motivou.

Qual é a importância de uma candidatura de centro no quadro político atual?
Nosso projeto foi construído para uma terceira via no seguinte sentido: a direita busca a eficiência da economia e a esquerda, a distribuição de renda. Numa sociedade polarizada, que é o estado do Brasil hoje em dia, não existe motivo para essas duas coisas caminharem separadas. A forte concentração de renda impede o desenvolvimento econômico e vice-versa. Não existe incompatibilidade entre crescer e distribuir renda. O projeto foi desenhado para um caminho de união. Temos uma pobreza indecente, e custa muito pouco do ponto de vista orçamentário cuidar dos pobres. Não é jogar dinheiro de helicóptero, isso não acaba com a pobreza. Você precisa de transferência de renda, cuidar das crianças. Não é impossível resolver. Pelo contrário, sabe-se como fazer. Falta vontade política. O Brasil tem uma das cargas tributárias mais elevadas entre países com a nossa renda e está jogando dinheiro fora. É um desperdício total.

Como a sra. vê as propostas econômicas de Bolsonaro e Lula, atuais líderes da corrida?
Ouvi o Lula falar: “Primeiro quero ganhar, depois vejo o que vou fazer”. Do Bolsonaro, não ouvi nada. O Paulo Guedes vai ser o ministro dele? Qual é a estratégia? Vai privatizar, ser liberal? Não há diagnóstico. Só se fala em Bolsonaro e Lula, eu prefiro falar de propostas. Ninguém está preocupado com o motivo pelo qual as indústrias brasileiras não crescem. Por que nossa renda per capita hoje é 8% menor do que em 2013? A realidade econômica é uma tragédia. Estamos andando para trás, diminuindo, e está todo mundo assobiando. Mas em qualquer circunstância, tem sempre um grupo que está ganhando dinheiro. Esses grupos são muito vocais.

Poderia citar um setor?
O agronegócio, por exemplo. O preço de commodities está lá em cima, eles estão pagando poucos impostos. Tem muita gente competente e boa, mas é um grupo que está sendo beneficiado por circunstâncias externas e se atribui isso a quem está no governo. No governo Lula também teve um ciclo longo de commodities. Deu a impressão de que o País crescia por causa do presidente, mas foi a influência externa que nos ajudou. Aquilo deu cacife e grana para o Lula distribuir e fazer o papel de pai de todos. Distribuiu mais para os ricos do que para os pobres. Ninguém está pensando na integração e no desenvolvimento. O número de desempregados é abissal. A educação está indo de mal a pior, as instituições democráticas estão esfarelando.

Existe uma real ameaça de golpe?
Acredito que sim. Bolsonaro não faz outra coisa. Não tenho dúvidas de que há um risco. Democracia pressupõe alternância de poder. Tenho medo das visões populistas desses dois candidatos. Uma das definições de populismo diz que ele oferece soluções de curtíssimo prazo que não resolvem problemas muito complexos. Ou seja, você promete uma coisa que não pode entregar. Isso, os dois fazem.

O teto de gastos é atacado por Bolsonaro e Lula. O que a senhora acha dessa proposta?
É um atestado de populismo. A economia precisa de um bom tripé para funcionar bem. É necessário um Banco Central que tenha um compromisso forte com o controle da inflação. Segundo: câmbio flutuante. E como terceira condição, é necessário uma âncora fiscal. Ela garante para o mundo e para a sociedade que o País não vai quebrar. Isso foi destruído ao longo do tempo. Lula começou a afrouxar as amarras fiscais no fim do primeiro mandato. Existem várias maneiras de fazer isso. No nosso documento, a gente cita uma. Nossa dívida pública é muito alta e precisa ser reduzida. Quando isso acontecer, podemos voltar a flexibilizar o teto de gastos.

Os candidatos não consideram a responsabilidade fiscal um valor essencial?
A responsabilidade foi arrebentada. Estamos sem âncora fiscal. Tem uma ilusão de que as contas públicas estão bem por causa do ganho inflacionário. Na época da inflação elevada, antes de Plano Real, você utilizava a desvalorização da moeda para financiar gastos. Ela chegou a garantir uma receita de 5% do PIB para o governo gastar. Todos os países do mundo sabem: quando há uma aceleração da inflação, há um alívio momentâneo nas contas públicas. Um governo responsável guarda o dinheiro, porque vai ter um rebote na sequência. O que estamos fazendo agora é criar gastos permanentes.

Há leniência com a volta da inflação? Inclusive da autoridade monetária?
Eu não chego a esse ponto. Acho que estamos com uma taxa de juros muito alta. O máximo que se pode criticar o Banco Central é que talvez tenha demorado um pouco no começo. Depois, veio com a carga toda, está fazendo o seu trabalho. Mas ele vai em uma direção e a autoridade fiscal, em outra. O governo coloca fogo na lenha da inflação porque os gastos públicos estão aumentando.

É necessário acelerar as privatizações?
É preciso privatizar o que for possível para aumentar a eficiência da economia e fazer com que as empresas públicas não sejam usadas politicamente. Não colocamos a privatização como uma maneira para aumentar o caixa do governo, aumentar gastos. No máximo, para conseguir reduzir a dívida pública e melhorar nosso perfil fiscal. O setor privado faz melhor do que o setor público, que precisa voltar à origem, oferecer serviços públicos para a sociedade. Com uma dívida pública do tamanho da nossa, o Estado não tem dinheiro para investir em nada.

É possível privatizar Petrobras e Banco do Brasil?
A Petrobras está prontinha para ser privatizada. Já melhorou muito, foi saneada, hoje é uma outra empresa. Existem muitos especialistas para desenhar os leilões, de forma a tornar a privatização eficiente e competitiva. Não tem problema nenhum. Seria ótimo, inclusive, acabar com uma das moedas de troca na política, que é botar gente apadrinhado político dentro das empresas públicas.

A Reforma Tributária é necessária?
O País evoluiu muito nesse debate. Tanto a Reforma Tributária como a Administrativa são importantes para a economia. Com isso, a gente destrava tudo. A indústria não cresce porque é penalizada, paga mais impostos do que o setor de serviços. O produto brasileiro não é competitivo no exterior. A indústria está estagnada há mais de 15 anos. Mas essas reformas geram ganhadores e perdedores. A sociedade deve entender qual é a importância de cada uma delas. Lá na frente, com o crescimento do País, todos vão ganhar. Não é preciso reinventar a roda.

Uma candidatura de terceira via seria o espaço para discutir essas reformas?
Eu vejo um sistema antigo acostumado com privilégios. Um poder excessivo e indevido ao Congresso, no que diz respeito ao gasto público, como as emendas de delator. Acho que esse sistema antigo é absolutamente refratário a tudo o que o coloca em risco. A terceira via é um risco para ele.

Esse seria o motivo da terceira via não estar emplacando?
Não tenho dúvidas. Veja a legislação, a dinâmica dos gastos partidários, o fundo eleitoral. Os partidos querem aumentar as bancadas, ao invés de investir em campanhas presidenciais. Há vários incentivos criados com o objetivo de manter essa pessoal no poder. Quem está lá vai fazer tudo que pode para assegurar sua perpetuação. O bombardeio em cima da terceira via por todas as maneiras e formas foi uma reação desse sistema antigo, que não quer perder seus privilégios e a liberdade de usar o dinheiro público. Espero que alguma coisa aconteça e a gente saia com uma alternativa contra esses dois nomes do passado.

A sra. estudou os custos da corrupção na economia. A atual polarização favorece o crime de colarinho branco?
Não tenho dúvidas que está tendo um afrouxamento institucional. Emenda de relator é um reflexo disso. Você torna o gasto não transparente. O afrouxamento existe, existiu e tem sido cada vez pior. O próprio Judiciário não tem sido eficiente no julgamento, enquanto a gente não acabar com loucuras como o foro privilegiado ou a falta de prisão em segunda instância. Assim não podemos acabar com a corrupção. Outra coisa: os órgãos de controle, todos eles têm que ter independência política. Mas estamos vendo cada vez mais interferência. Quanto mais corrupção em um País, mais as pessoas são pobres. Os serviços públicos acabam sendo entregues de uma forma pior, porque o objetivo não é o bem do cidadão. É desviar o recurso para o bolso daquele que está mais perto do poder. Corrompe o próprio processo eleitoral.

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