Lula x Alcolumbre: até onde o embate pode chegar

Raro elo entre petista e maioria do Congresso, presidente do Senado expôs indisposição com o Palácio do Planalto

Luma Venâncio/IstoÉ
O líder do Senado, Davi Alcolumbre, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva Foto: Luma Venâncio/IstoÉ

Votações desfavoráveis e a ameaça de rejeitar uma indicação ao STF (Supremo Tribunal Federal) marcam uma virada na relação entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidentes da República e do Senado Federal.

Ao longo do mandato, o petista encontrou no senador um de seus únicos elos consistentes com o chamado “centrão” e a garantia de governabilidade no Congresso, onde não tem maioria. Por sua vez, Alcolumbre garantiu cargos importantes e espaços de poder que não conquistaria em outro contexto. Neste texto, a IstoÉ explica como essa harmonia política se desfigurou — e quais são os impactos à vista.

A boa relação de Lula e Alcolumbre

Já no início do mandato, depois de travar a disputa mais acirrada da história democrática brasileira com Jair Bolsonaro (PL) e voltar ao Palácio do Planalto sem maioria no Congresso, Lula buscou Alcolumbre para estreitar laços com a bancada do União Brasil e a cúpula do Senado Federal. O presidente da Casa era Rodrigo Pacheco (PSD-MG), mas seu aliado amapaense atuava como espécie de “secretário geral”, mantendo influência sobre a Mesa Diretora e pavimentando terreno para substituir o mineiro no posto ao final de seu mandato.

Alcolumbre emplacou o ex-governador do Amapá Waldez Góes no Ministério do Desenvolvimento Regional e Juscelino Filho do comando das Comunicações. Ainda na fase inicial do governo, ganhou novas indicações em autarquias e o próprio primo, Aharon Alcolumbre, assumiu o principal cargo de direção da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia).

Desde janeiro de 2025, quando retornou à presidência do Senado reunindo apoios do governo à oposição, Alcolumbre alocou novos aliados na gestão federal, incluindo o comando da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) — autarquia mais disputada pelo centrão por seu alcance orçamentário — e Frederico Siqueira Filho, novo ministro das Comunicações.

Waldez Góes, ministro da Integração: indicação inaugural de Alcolumbre à Esplanada dos Ministérios

Waldez Góes, ministro da Integração: indicação inaugural de Alcolumbre à Esplanada dos Ministérios

A contento, fez do Senado a zona de esperança de Lula no Legislativo. Enquanto a Câmara acumulou resistências ao petismo, assinalou discursos e projetos alinhados ao bolsonarismo e barrou pautas de interesse do Palácio do Planalto, a Casa Alta não deu qualquer vazão a pedidos de impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), encaminhou a agenda de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e contrariou a Câmara ao rejeitar a PEC da Blindagem, bandeira de oposição impopular aprovada pelos deputados, em vitória política da esquerda.

Os créditos também se estenderam a iniciativas de maior envergadura, entre elas a autorização para a perfuração de poços exploratórios na bacia próxima à foz do Rio Amazonas, situada na chamada Margem Equatorial — área cuja licença ambiental foi concedida à Petrobras pelo Ibama.

O presidente Lula (PT) e a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente: lados opostos na disputa da Margem Equatorial

Lula e a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente: presidente topou indisposição com comandada por aliança com Alcolumbre

A pauta foi capitalizada conjuntamente por Lula e pelo presidente do Senado, que celebraram o potencial energético da região, estimado em cerca de 10 bilhões de barris, no Amapá. O governo via na liberação da Margem Equatorial uma oportunidade de afagar Alcolumbre em seu reduto eleitoral. Após a concessão da licença, o senador defendeu que os benefícios da exploração cheguem à população do estado.

Segundo a cientista política Beatriz Rey, pesquisadora da Universidade de Lisboa, o comportamento institucional do Senado em relação ao governo tem se diferenciado daquele observado na Câmara dos Deputados. Na gestão petista, o histórico é de um Senado que “se opõe de forma substantiva a diversas proposições aprovadas pela Câmara”.

O fim da lua de mel

Para Rey, a virada de chave se dá a partir de quando o petista frustra os planos de Alcolumbre para indicar Jorge Messias, advogado-geral da União, à vaga aberta no STF com a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso.

Oito anos adiantada em relação à exigência constitucional do cargo, a saída de Barroso antecipou uma esperada articulação para que Rodrigo Pacheco ficasse com a cadeira vaga. Com carreira pregressa no direito e já fora da presidência do Senado, o mineiro havia manifestado a intenção de trocar o Legislativo pela cúpula do Judiciário quando fosse possível e ganhou o patrocínio de Alcolumbre para garantir que Lula selasse o destino.

Antes do presidente se manifestar sobre o assunto, foi aberta em Brasília a campanha por Pacheco no Supremo. Em troca da escolha, colegas prometiam a manutenção da governabilidade e, conforme relatou um aliado de Alcolumbre à IstoÉ, a garantia dos 41 votos necessários na Casa para que a indicação fosse aprovada — ou o contrário, caso o nome fosse outro. A pressão foi em vão e Lula escolheu Messias, de quem é mais próximo.

Jorge Messias

Jorge Messias, ministro-chefe da Advocacia-Geral da União: indicado de Lula ao Supremo não agrada cúpula do Senado

O presidente do Senado não escondeu o incômodo desde o anúncio da indicação. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, ao ser questionado se esperaria o nome de Messias chegar oficialmente à Casa, ele rebateu: “Tem que esperar, fazer o quê? Se eu pudesse, eu fazia a indicação.”

A promessa de aguardar o devido processo regimental não se sustentou — o presidente da Casa agiu rapidamente e marcou a sabatina e votação do advogado-geral para o dia 10 de dezembro. O agendamento foi feito antes mesmo que a nomeação de Messias, embora já publicada no Diário Oficial da União, fosse lida em plenário para iniciar tramitação oficial na Casa.

Em meio à celeridade para formalizar o processo, Alcolumbre aproveitou a coletiva de imprensa em que divulgou a data da votação para fazer um comentário crítico à articulação política do Executivo, sinalizando desconhecimento sobre o indicado e afirmando que “tomou conhecimento [da indicação] por meio da imprensa”.

A proximidade do prazo imposto por Alcolumbre sufoca a articulação de Messias. O indicado terá apenas duas semanas para cumprir a intensa rodada de conversas e coalizão com os 81 senadores. Caso pretenda se encontrar com todos os votantes, o advogado-geral precisaria falar, em média, com seis parlamentares por dia até a sabatina.  Neste dia, o indicado será questionado pelos parlamentares e, em seguida, submetido à votação no plenário, onde uma escolha presidencial não é rejeitada desde o governo do marechal Floriano Peixoto.

Beatriz Rey reitera que, a partir da indicação, as duas Casas do Congresso começaram a atuar “de maneira unida contra o Planalto”, em clara retaliação à escolha de Lula. Para a cientista política, o distanciamento de Alcolumbre das demandas da base governista e sua consequente reaproximação com a Câmara dos Deputados oferecem uma “sobrevida” ao líder do órgão, Hugo Motta. Esse movimento permite que o paraibano recupere o respeito de seus pares, após um período de descredibilidade na Câmara.

Na quarta-feira, 27, o Congresso se uniu para derrubar mais de 50 vetos de Lula em relação à Lei de Licenciamento Ambiental, impondo nova derrota ao Palácio do Planalto. “A postura contrária ao petista se concentrava na Câmara. Se Messias for de fato rejeitado pelo Senado, começa a se originar uma relação muito complicada entre os Poderes, o que é uma coisa quase inédita“, concluiu Rey.