O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou Donald Trump por “ameaçar outros países com guerra o tempo todo” e afirmou que o ex-presidente americano “não foi eleito imperador do mundo”. As declarações foram dadas em entrevista publicada nesta quinta-feira, 16, pela revista alemã Der Spiegel, no mesmo dia em que Lula embarcou para um giro diplomático na Europa, incluindo uma etapa de dois dias na Alemanha.
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O que aconteceu
- Lula critica Trump por ameaças de guerra e questiona papel do ex-presidente americano no cenário global.
- O presidente brasileiro defende a reforma do Conselho de Segurança da ONU e critica a atuação dos membros permanentes.
- Lula aborda relações com Cuba, a potencial candidatura à reeleição em outubro e um episódio diplomático com o chanceler alemão Friedrich Merz.
Durante a entrevista, Lula foi questionado sobre o futuro do multilateralismo em um mundo envolvido em disputas entre potências como China, Rússia e Estados Unidos. “Trump não foi eleito imperador do mundo. Ele não pode ficar ameaçando outros países com guerra o tempo todo. Precisamos colocar este mundo em ordem, que está prestes a se transformar em um campo único de batalha”, declarou o líder brasileiro.
O papel do Conselho de Segurança da ONU
Lula também revelou ter solicitado a Xi Jinping, Vladimir Putin e Emmanuel Macron – líderes de China, Rússia e França, respectivamente, a quem chamou de “meus amigos” – a convocação de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. O objetivo seria instar Trump a discutir o conflito no Irã, mas, segundo Lula, ninguém “deu ouvidos”.
“É como se estivéssemos à deriva em alto mar, em um navio sem capitão”, afirmou o presidente da República. Ele enfatizou que “não pode ser que Trump comece uma guerra com o Irã e que quem acabe pagando a conta dessa guerra sejam os pobres da África ou da América Latina, que terão de gastar mais dinheiro com feijão, carne e verduras”.
O presidente sugeriu que o secretário-geral da ONU, António Guterres, deveria “convocar imediatamente uma Assembleia Geral Extraordinária para que Trump, Putin e os outros prestem contas”.
Por que o Conselho de Segurança da ONU precisa ser reformado?
Outra crítica de Lula foi direcionada à composição do Conselho de Segurança da ONU, que, para o chefe do Executivo brasileiro, deveria ser alterada “imediatamente”. Ele defendeu a inclusão de membros permanentes de regiões como África, Oriente Médio, além do próprio Brasil ou da Alemanha.
“A Carta das Nações Unidas estabelece que o Conselho de Segurança foi criado para preservar a paz no mundo. Como você pretende explicar a alguém que, justamente, os cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) são os maiores produtores de armas? São eles que possuem armas nucleares e travam guerras”, criticou Lula.
O presidente ainda citou exemplos: “A França e o Reino Unido intervieram na Líbia, os EUA invadiram o Iraque, a Rússia atacou a Ucrânia, Israel é responsável pela destruição de Gaza – e agora os EUA e Israel estão em guerra contra o Irã”, afirmou o presidente.
Petrobras e as relações com Cuba
Questionado pelos jornalistas alemães sobre uma potencial ajuda energética brasileira a Cuba, o presidente apontou que não enviou petróleo e derivados para auxiliar o país caribenho. A justificativa foi que a medida, diante da atual crise energética e da pressão dos Estados Unidos, poderia ter consequências negativas para a Petrobras em Wall Street, onde a empresa é listada na bolsa de valores de Nova York.
“Nossas relações com Cuba são tão boas que os cubanos nos deram a entender: Lula não deve tomar nenhuma medida que prejudique o Brasil”, disse ele. O presidente acrescentou, no entanto, que pode enviar “medicamentos e alimentos” e que é preciso “ajudar Cuba a se tornar independente do petróleo”.
Cenário político e candidatura à reeleição
Na conversa, o petista também não confirmou que irá concorrer à reeleição em outubro, condicionando a decisão à convenção do Partido dos Trabalhadores (PT), apesar de admitir que está se “preparando” para a missão. “Estou com a cabeça e o corpo 100% em forma. Quero viver até os 120 anos”, declarou Lula à Spiegel.
Sobre a disputa com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que apareceu, nesta semana, à frente do atual presidente nas pesquisas Datafolha e Quaest, Lula disse que respeitará as urnas, caso seja derrotado. “Quando o povo toma uma decisão, seja ela de direita, de esquerda ou do centro, temos de aceitar o resultado.”
“O Brasil continuará sendo um país democrático. Além disso, venceremos esta eleição e garantiremos que nossa democracia se torne ainda mais sólida. Não há lugar aqui para fascistas; para pessoas que não acreditam na democracia. Essa ideologia de direita que domina o mundo não tem futuro. Em vez de ideias, ela só espalha ódio e mentiras”, disse Lula, defendendo a democracia.
Agenda internacional e episódio com Merz
A entrevista foi publicada na véspera da viagem de Lula à Europa. Entre os dias 17 e 21 de abril, o presidente brasileiro visitaria Espanha, Alemanha e Portugal, no que seria sua última grande viagem ao exterior antes das eleições. No próximo domingo (19/04), Lula participaria, junto com o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, da abertura da Feira de Hannover, maior evento de tecnologia industrial do mundo e que teria o Brasil como país-parceiro neste ano.
Em novembro do ano passado, após passar por Belém para participar da COP30, Merz disse que estava “feliz” em retornar à Alemanha, fala que causou mal-estar entre as autoridades brasileiras, incluindo Lula. O presidente respondeu que o colega germânico “deveria ter ido em um boteco no Pará, ter dançado no Pará, ter provado a culinária do Pará”.
“Eu disse a ele que, quando viajo para a Alemanha, gosto de comer salsicha nas barraquinhas de rua. Da última vez que estive com a (ex-chanceler) Angela Merkel, comi uma salsicha que comprei numa barraca. Quando estou no exterior, procuro experimentar as comidas locais”, finalizou Lula à Spiegel.