SÃO PAULO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descreve sua relação com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como “muito civilizada e respeitosa”, mas critica veementemente a postura “impensável” do segundo escalão do governo americano em relação ao Brasil. A declaração foi dada à TV Record nesta quinta-feira (24), exibida no mesmo momento em que o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República, sem a presença de Lula nem de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), era transmitido pela Band.
- O presidente Lula criticou o “segundo escalão” dos Estados Unidos por atitudes “impensáveis” contra o Brasil, apesar de uma boa relação com Donald Trump.
- Os EUA aplicaram tarifas de 37,5% contra produtos brasileiros, alegando prejuízos pelo PIX, desmatamento ilegal e trabalho forçado.
- Lula afirmou que as acusações são “mentirosas” e que a conversa com Trump já gerou frutos para discutir as sanções.
“Eu não sei se é o governo americano, se é o Trump ou se é a assessoria do Trump”, ponderou Lula. “Eu tenho a impressão de que o Trump é bem melhor na relação política do que a assessoria. Eu disse para ele: “Não é possível. Nós conversamos, tudo vai bem””, contou o presidente, referindo-se a um telefonema com o republicano no fim da semana passada.
Relação “civilizada”, mas com ressalvas
Lula reiterou o teor de sua comunicação direta com Trump. “A minha conversa com o Trump é muito civilizada, é muito respeitosa, tanto da minha parte quanto da parte dele. Mas depois o segundo escalão toma atitudes que são impensáveis”, completou. “Aí nós não podemos aceitar intromissão de um país no Brasil.”
A tensão escalou no mês passado, quando os Estados Unidos aplicaram duas tarifas que totalizam 37,5% contra produtos brasileiros. As alegações americanas incluíam supostos prejuízos ao comércio provocados pelo sistema de pagamentos gratuito PIX, desmatamento ilegal e alegadas falhas no combate ao trabalho forçado.
As acusações são infundadas?
“Eu disse ao presidente Trump que, mais uma vez, as bases pelas quais eles impuseram novas sanções ao Brasil são mentirosas”, afirmou Lula com assertividade. “Nós temos o menor desmatamento da história do Brasil, e eu nasci na minha vida política combatendo o trabalho escravo. Portanto, não posso admitir que alguém diga que vai culpar o Brasil porque o Brasil compra produto de país que tem trabalho escravo. Eu não posso fiscalizar os outros países.”
Apesar do atrito, o presidente brasileiro expressou otimismo quanto aos desdobramentos. Segundo ele, a conversa da semana passada com Trump “já deu fruto”, em referência a uma reunião entre ministros das duas nações para discutir o tarifaço, prevista para esta semana. “E espero que seja fruto bem gostoso e saboroso, porque eu quero manter uma relação muito civilizada com os EUA”, salientou. (ANSA)