Luiz Fernando Guimarães celebra 50 anos de carreira sem arrependimentos: ‘Dei sorte’

Em cartaz com a comédia 'Baixa Sociedade', astro relembrou decisão de desistir de carreira como bancário para seguir sonho de se tornar ator e relação com Fernanda Torres

Aos 76 anos, Luiz Fernando Guimarães não se arrepende de nada. Bem-humorado, o astro de “Baixa Sociedade” – montagem que fica em cartaz até 29 de março -, garante que todas as suas escolhas de vida foram certeiras, inclusive a decisão de abandonar sua carreira consolidada como bancário para seguir o sonho de ser ator.

“Eu fiz muita coisa, e todas bem-vindas”, declarou em entrevista ao “IstoÉ Gente como a Gente”, projeto da IstoÉ Gente, que aborda o lado pessoal e espontâneo de personalidades brasileiras. “Nenhuma, assim… Não tenho nada que me arrependa, absolutamente nada. Fiz todas com muita vontade, com muito brilho e com muito amor mesmo, gostando de fazer.”

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Destemido, Luiz conta que, inicialmente, fez o teste para ingressar no grupo de teatro “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, o pontapé inicial para sua carreira de ator, em 1974, sem pretensões. À época, aos 25 anos, ficou surpreso quando foi aceito e precisou dividir seu tempo entre o trabalho como bancário durante o dia e os ensaios para as peças à noite. 

Isto é, até que ele precisou escolher entre uma das duas carreiras. “Teve uma hora que a gente precisou fazer uma apresentação à meia-noite no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, que era para grandes celebridades. A peça foi considerada um dos cinco melhores espetáculos do ano”, relembrou. 

Luiz Fernando Guimarães – Foto: Leonardo Monteiro

A montagem em questão era “O Inspetor Geral”, que repercutiu extremamente bem e lhe garantiu uma série de outros compromissos. “Eu falei para o gerente [do banco]: ‘Olha, você vai ter que me dar aquela dispensada boa, de três meses’. Mas ele não quis me dar. Então eu peguei minha trouxa [e me demiti]”, contou, divertido.

“Aí, depois, ele falou assim: ‘Poxa, podia ter te dispensado, você é tão bom. Falei: ‘Pois é, mas passou a época’”, continuou. E o astro não se arrepende da decisão. “Quando entrei no grupo, já me vi ali. Gostei do negócio. Pensei: ‘Aqui é o meu lugar’”.

‘TV Pirata’ e outros sucessos

Apaixonado pela atuação, e principalmente, pela comédia, Luiz Fernando Guimarães estrelou um importante quadro para o desenvolvimento do humor brasileiro. 

Em 1988, o primeiro episódio da “TV Pirata” foi ao ar com a proposta de inovar as atrações cômicas nacionais, que, até então, seguiam as fórmulas do rádio: quadros fixos com repetição de piadas. 

“O primeiro esquisitão da ‘TV Pirata’, o primeiro impacto, foi não ter a risada do público”, relembra o ator. “E o segundo, era que o programa debochava da própria televisão”, continuou. A TV Globo, com seus jornais e telenovelas, era o principal alvo da atração

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Com visível carinho na expressão, o astro revive as memórias das gravações com orgulho: “Era maravilhoso! Eu fazia o ‘Jornal Nacional’. A gente imitava mesmo. E era um prazer satirizar aqueles caras, ídolos, ícones da gente. Foi um prazer ali.”

Ele explica que, apesar de gravarem determinados quadros com frequência, ninguém tinha personagem fixo, classificando a rotina como “totalmente livre”, inclusive na construção das esquetes. 

Além de Luiz, o elenco da produção ainda contava com os nomes de Ney Latorraca, Pedro Paulo Rangel, Debora Bloch, Claudia Raia, Cristina Pereira e Marco Nanini. A “TV Pirata” foi exibida até 1992 e, apesar do curto período no ar, seu ousado estilo de humor é considerado um dos precursores de títulos como “Casseta & Planeta Urgente” e “Tá no Ar: a TV na TV”.

Elenco da ‘TV Pirata’ – Reprodução/Nelson Di Rago/TV Globo

Anos mais tarde, o sucesso do ator no programa alavancou a audiência de “Os Normais”, sitcom que quase foi ao ar sem a presença de Fernanda Torres como Vani

O artista revelou que precisou insistir para que a amiga fosse escolhida como sua parceira romântica na produção. “Eu estava na África com ela, e quando nós voltamos, eu botei fotos nossas na África no estúdio, que seria o estúdio que eles iriam testar o novo layout dos ‘Os Normais’ e tal.”

“Eles [produção da série] falaram: ‘Você botou a Fernanda?’. Falei: ‘É, porque ela é a noiva, ela é a noiva’. E fui no Alexandre Machado (roteirista da série), que tinha outras noivas, e falei: ‘Não, tem que ser ela, tem que ser ela, tem que ser ela, tem que ser ela’. Bati, bati, bati, até que foi a ‘Nanda’”.

Mil vidas em 50 anos de carreira

Luiz, que comemorou 50 anos de carreira em 2025, está em cartaz com a peça “Baixa Sociedade”. Sob o texto de Juca de Oliveira, a montagem evidencia até onde uma pessoa iria para conquistar a tão almejada ascensão social – e claro que com muito humor.

No título, o astro dá vida a Otávio, um idoso pai de família que enxerga na mentira uma oportunidade de mudar de vida. Apesar de engraçado, o personagem pode ser considerado um tanto “crápula”, assim como o próprio comediante adianta.

Inclusive, ele acredita ter um pouco de semelhança com o papel. “Eu não sou ambicioso, muito até pelo contrário, poderia ser. Mas eu me enxergo nele como um cara preocupado em dar ao próximo, mesmo que seja para ele, indiretamente. ‘Eu estou cedendo uma coisa para você, mas eu quero para mim, porque eu vou ter 10%, 40%’. É natural.”

“Não acho que a pessoa seja totalmente Poliana na vida, né? Ele é um canalha, mas ele é um canalha bom”, continua, divertido. 

Após viver mil vidas no teatro, televisão e cinema, o ator de 76 anos considera que teve uma vida boa e celebra sua carreira sem arrependimentos. “Eu dei muita sorte, porque eu comecei em um grupo que me acolheu.”

“Nesses 50 anos de carreira, eu fui encontrando pessoas muito interessantes, pessoas que eu jamais imaginaria que poderia encontrar, que eram meus grandes ídolos, digamos assim. E fiz de tudo o pouco.”

Assista à entrevista completa!

*Estagiária sob supervisão