Artes Visuais

Lugar de fala

Povo huni kui usa escrita, desenho, editoração e audiovisual para transmitir conhecimentos resgatados de sua tradição oral. Com isso, abdica da generalização “indígena” e adota a autoria de cada artista

Lugar de fala

AUTORIA Menegildo Paulino Kawinaká Isaka e Shane Huni kuin pintam painel da exposição

UNA SHUBU HIWEA – LIVRO ESCOLA VIVA DO POVO HUNI KUI DO RIO JORDÃO/Itaú Cultural, SP/ até 13/2/2018

Depois de séculos de lutas pela demarcação e libertação de suas terras do modelo extrativista da seringa e de batalhas inglórias contra as doenças do homem branco, as tribos amazônicas huni kui finalmente iniciam uma relação de diálogo construtivo com não-indígenas. A exposição “Una Shubu Hiwea — Livro escola viva do povo huni kui do rio Jordão”, em cartaz no Itaú Cultural, é o resultado de um trabalho colaborativo entre indígenas, a editora Anna Dantes e o artista Ernesto Neto.

O projeto, de autoria de pajés huni kuin, foi contemplado pelo edital Rumos 2013-2014, e é composto por um livro distribuído nas escolas indígenas, um filme, uma exposição e a construção de uma kupixawa-escola (maloca) na aldeia. A iniciativa surgiu da necessidade de documentar o conhecimento huni kui a respeito do cultivo e uso de plantas medicinais em parques que eles mantêm na floresta. Nestes parques, os pajés ensinam a medicina indígena para seus filhos, netos e parentes. Em um deles, o pajé Agostinho Manduca Mateus Ika Muru (1944-2011) criou um centro de memória e informação dos conhecimentos de seus antepassados sobre variedades de espécies botânicas, pescaria, caça, etc. “Antes do contato com os brancos, nós tínhamos nossas doenças próprias”, diz o pajé em um vídeo documental produzido na aldeia São Joaquim, no rio Jordão. “Agora nós estamos começando a dar valor ao nosso conhecimento e no futuro vamos fazer um laboratório indígena”.

Jiboia desenhada por Menegildo
Página de caderno de notas do pajé Lauro Sales Iasã, da Aldeia Bari

A exposição se organiza como um livro aberto. Apresenta páginas de cadernos que foram distribuídos nas 35 aldeias dos rios Jordão e Tarauacá, no Acre, e registram as pesquisas com plantas e rituais de cura desenvolvidas ao longo dos últimos 4 anos. Apresenta ainda duas salas de vídeo e uma sala ritualística com um pintura de jiboia no chão sobre a qual estão 35 bancos, um para cada aldeia dos rios Jordão e Tarauacá. Ao redor do círculo, 13 pinturas representam os mitos huni kui.

Para os povos da floresta, o projeto representa uma importante fase de comunicação dos conhecimentos resgatados de sua tradição oral. Para o público da arte contemporânea, uma instrutiva oportunidade de conhecer um pouco mais da cultura ancestral dos povos brasileiros, que vem servindo de fonte para o trabalho do escultor carioca Ernesto Neto. Cabe lembrar que os huni kui foram conclamados a participar do trabalho que Neto apresentou na 57ª Bienal de Veneza.

Para o Itaú Cultural, a exposição “Una Shubu Hiwea” é um momento de “troca de pele”. Se a tradução da floresta virgem e da Samaúma, a árvore sagrada dos huni kuin, era até então exclusividade do olhar estrangeiro dos naturalistas europeus no século 19 — reunidos na coleção Brasiliana do Itaú —, hoje a pena, o lápis, o papel e a responsabilidade dessa representação são passados, por direito, para seus habitantes naturais, que falam em sua língua nativa.

 

ROTEIROS

ARQUIVO ABERTO

NUPTIAS – ROSÂNGELA RENNÓ/Galeria Vermelho, SP/ até 16/1

Na exposição em que Rosângela Rennó comemora o 25º aniversário de seu Arquivo Universal, projeto que instaurou a apropriação de fotografias de arquivo como procedimento-chave de sua pesquisa artística, a artista inaugura uma nova fase do trabalho, em que carrega nas tintas da intervenção sobre a fotografia apropriada.

Para a série “Cerimônia do Adeus” (1992), que reunia uma série de retratos de recém-casados confiscados dos arquivo de uma fotógrafa de festas que conheceu em Cuba, agora está a série “Nuptias” (2017), um mosaico de colagens em técnica mista sobre fotografias de noivos das mais diversas procedências. Com a diferença que, com estas intervenções agressivas, satíricas e divertidas, Rennó refirma um discurso em defesa da pluralidade de uniões afetivas independente de convenções. “A aceitação dos novos modelos não é unânime e, menos ainda, universal. No Brasil, o que parece ser natural para muitas pessoas ainda é considerado uma doença ou um desvio comportamental abominável”, diz a artista.

Para “Bodas de Prata” (1992), uma coleção de chapas de metal com reproduções de textos de jornais que falam de amor e casamento, vale agora “Bodas de Porcelana” (2017), uma série de pratos comemorativos organizados em duplas. Pregados à parede, os casais de pratos escondem sua face interna e revelam apenas o verso, onde lê-se o título do trabalho original “Cerimônia do Adeus”.

Arremata a exposição uma placa, situada na entrada da galeria, onde a artista responde aos acontecimentos recentes de violência e tentativa de censura contra exposições de arte. Nela está escrito: “Pense bem antes de entrar neste recinto”. E, prevenindo o visitante incauto de conteúdos que eventualmente possam ofender sensibilidades, conclui: “Se decidir entrar, aja com responsabilidade: aceite o exposto com naturalidade. Disfarce, se for necessário”. PA

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