Longe dos holofotes: entenda por que atores buscam novas profissões

Alguns artistas optam por seguir outra carreira, como é o caso de Daniel Erthal; especialista explica

Reprodução/Instagram: @erthalera
Daniel Erthal Foto: Reprodução/Instagram: @erthalera

Conhecido por integrar o elenco de uma das temporadas de “Malhação”, antiga novelinha teen da Globo, o ex-ator global Daniel Erthal voltou a ser notícia durante o Carnaval deste ano. E o motivo não foi por causa de alguma participação em produção audiovisual, mas por conta de seu trabalho como vendedor ambulante de bebidas na orla de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro.

Durante o calor enfrentado durante a folia, Daniel trabalhou por mais de 12 horas para atender foliões durante a festa, levando uma carrocinha com bebidas e carregando sacos de gelo.

A mudança de carreira, que para muitos poderia soar como queda, tem sido encarada pelo próprio ator como um processo de reinvenção. Além das vendas na praia, onde já chegou a comercializar centenas de unidades em um único dia, Erthal também investiu na abertura de um bar em Botafogo, mostrando que a transição vai além de uma solução temporária e aponta para um novo ciclo profissional.

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Para Rosa Bernhoeft, fundadora da Alba Consultoria e especialista em gestão de pessoas, a mudança de rumo não deve ser vista como exceção no universo artístico.

“A carreira artística no Brasil é descontínua. O ator pode viver um período de intensa atividade e, de repente, passar meses ou até anos sem trabalho. Diferentemente de muitas profissões, não há estabilidade. Quando o telefone para de tocar, é preciso decidir: espero ou faço alguma coisa?”, analisa.

Segundo ela, casos como o de Erthal revelam uma combinação de fatores. “Não é só falta de planejamento ou de oportunidade. É um mercado que não oferece segurança, combinado com uma cultura que não ensina o artista a pensar na carreira como um todo, inclusive na transição”, afirma. 

Rosa lembra que, nos últimos anos, a própria TV Globo reformulou seu modelo de contratos, priorizando vínculos por obra e reduzindo elencos fixos, o que ampliou a instabilidade para muitos profissionais.

Outro ponto sensível, de acordo com a especialista, é o impacto emocional da mudança. “O primeiro desafio é o luto pela identidade anterior. Quando você foi reconhecido como ‘o ator da novela tal’, essa identidade se mistura com quem você é. Abrir mão disso não é só mudar de profissão, é mudar a forma como o mundo te enxerga”, explica.

Rosa também chama atenção para o preconceito social. “Existe um julgamento velado. As pessoas veem um ex-ator vendendo cerveja e acham que ele não deveria estar ali. Isso revela mais sobre a nossa dificuldade de aceitar mudanças do que sobre a trajetória dele”, pontua. 

Para ela, o anonimato pode, inclusive, ser libertador. “O problema é quando o valor pessoal ainda está preso à fama. Aí, qualquer novo trabalho parece menor. E não é.”

Sobre a possibilidade de recuperar o prestígio em outra área, Rosa é categórica. “Depende do que entendemos por prestígio. Se for a fama clássica, talvez não. Mas reconhecimento por um trabalho bem feito é totalmente possível.” 

Ela avalia que a visibilidade anterior pode até se tornar um diferencial competitivo. “Se ele usa o carisma e a comunicação que desenvolveu como ator para fortalecer o novo negócio, isso é inteligência de carreira.”

Para a especialista, reinvenção não deve ser confundida com fracasso. “Prestígio de verdade não vem do holofote, mas da coerência entre o que você faz e quem você é. Quando há essa coerência, o reconhecimento vem, talvez não na capa de revista, mas na sustentabilidade do que está sendo construído”, conclui.