Cultura

Livro de Patricio Pron desvenda anos terríveis da ditadura na Argentina

Depois de anos afastado de seu país, a Argentina, jovem escritor retorna da Alemanha porque seu pai, um jornalista, está morrendo. Lá, em sua cidade interiorana que ele denomina *osario (referência a Rosário), o narrador se defronta com os fantasmas do passado, materializados em uma série de recortes e mapas guardados pelo pai e que fornecem dicas sobre o recente desaparecimento de um habitante do lugar.

Eis o ponto de partida de um grande romance e cuja escrita – direta, transparente, engenhosa – revela-se um de seus grandes trunfos. O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva é apontada como a obra principal de Patricio Pron, autor argentino radicado na Espanha e que ganha versão em português pela editora Todavia. Mais que recordações pessoais, o livro torna-se grandioso ao promover um reflexão sobre o passado sombrio da Argentina, especificamente entre 1976 e 1981, período marcado por inúmeros assassinatos e desaparecimentos.

Como peças de um macabro quebra-cabeça, os fatos são revelados por Pron como uma narrativa policial. Tecnicamente, é um romance de não ficção, pois o autor viveu algo parecido e só publicou o livro depois da aprovação dos pais, que pertenceram a uma organização clandestina. “No início, eles não queriam a publicação, pois acreditavam que o livro deveria ter uma voz coletiva e não pessoal”, conta Pron que, com a obra, busca elucidar um passado doloroso, mas ainda mal explicado. Por e-mail, ele respondeu às seguintes questões.

Seu romance surgiu da necessidade de aprofundar certos temas a partir da perspectiva da sua geração? Qual foi a motivação?

Minha motivação nasceu da percepção de que ninguém havia escrito algo assim antes, era o livro que eu necessitava ler para compreender o que restou e o quanto merece ser recuperado da experiência política dos meus pais e sua geração. A perseguição, a tortura, o assassinato de ativistas políticos durante a última ditadura cívica e militar argentina não só constituíram uma tragédia humana de enormes proporções, mas também uma fatalidade política, uma vez que impediu a transmissão do conhecimento das práticas e experiências políticas de uma geração para outra. Livros como este se tornaram necessários para que esse diálogo entre gerações pela primeira vez fosse possível.

O livro foi qualificado como autoficção pela crítica. Você concorda? E qual é a relação com a verossimilhança?

Quem conhece minimamente a história argentina dos últimos 6o ou 70 anos pode considerar que nem tudo que é verdadeiro nela é verossímil. Chamar de autoficção esse meu romance (inclusive chamá-lo de “romance”) é uma forma de inscrever esta história dentro de um quadro possível. Mas meu livro resiste a se enquadrar em qualquer moldura – do mesmo modo que, na geração dos meus pais, esse quadro é aceito apenas para fazê-lo saltar pelos ares.

A tentativa de estabelecer a verdadeira versão do passado tem possibilidade de êxito?

Não. Acho que a revisão permanente, com frequência passional, do seu passado é que faz com que as sociedades se mantenham emocional e intelectualmente vivas e permite imaginar que não estão condenadas a perpetuar seus erros.

Os argentinos hoje necessitam confrontar o passado e admitir o seu papel nesse passado?

Sim, absolutamente. Embora a busca da memória, da verdade e da justiça seja uma constante nos últimos 40 anos de história argentina (mais ainda: apesar de isso se ter convertido em política de Estado durante alguns anos), ainda continuamos sem saber onde se encontram os restos mortais de milhares de desaparecidos, desconhecemos o paradeiro de centenas de pessoas sequestradas em sua infância que ainda não recuperaram sua identidade, e nem todos os culpados foram condenados, além do que (o que é igualmente monstruoso) continuamos não admitindo o fato de que a ditadura não teve como único objetivo extinguir o projeto político revolucionário, mas também, e sobretudo, instalar um regime econômico que é responsável pelas grandes desigualdades da sociedade argentina contemporânea. As empresas mais prósperas da economia argentina são as que mais e melhor se beneficiaram durante a ditadura; as bases econômicas que ela criou são aquelas em que a nossa economia se baseia hoje. Diante de tudo isso confrontar o passado se torna peremptório na Argentina, não apenas em nome desse passado, como também para compreender o presente.

Em uma entrevista, Juan Gabriel Vásquez afirmou que recordar é um ato moral. Concorda?

Em parte sim. Para mim, recordar, como disse Rodolfo Walsh em sua Carta Aberta à Junta Militar, escrita pouco antes de ser assassinado, supõe “a satisfação moral de um ato de liberdade” em uma época que não é muito moral e fustiga esses atos tanto como ontem.

Aliás, você acredita que escritores têm uma obrigação moral para com seus personagens e seus leitores?

Não. Penso que os escritores têm uma obrigação para com as discussões do nosso tempo e essa obrigação consiste em enriquecer essas discussões por meio de alguma coisa que não seja a repetição dos mesmos velhos argumentos de sempre.

Como conseguiu chegar a esse estilo de escrita tão transparente, aparentemente antienfático?

Vivi e cresci sob uma ditadura militar que perseguiu pessoas como meus pais e em que adotar uma identidade falsa e fingir transparência eram habilidades das quais as pessoas dependiam para sobreviver. Se a literatura é o exercício de um engano calculado, crescer nessas condições foi a melhor escola que alguém pode ter. Adotar disfarces, passar despercebido, não revelar a profunda ferida que alguns arrastam consigo é o que nos transformou em escritores.

Provocar a simpatia e a compreensão pela dor humana é mais fácil pela literatura?

Acho que a literatura é o último refúgio de uma vontade de ir ao encontro do outro e que, sob os nomes de empatia e compreensão, está na base da arte e também da ação política. Quero crer que esse livro não é sobre mim ou sobre meus pais, mas sobre o descobrimento doloroso, porém necessário, do outro.

O que pensa sobre filhos de torturadores que repudiam seus pais e os que os defendem, mas rejeitam a barbaridade de seus atos?

A dor que nos afligiu a todos que fomos tocados pela história nos coloca no limite da linguagem, uma vez que não parece possível dizer nada (sem ter vivido) sobre certas experiências, como encontrar alguém que tenha sido criado pelo assassino de seus pais verdadeiros. Como reagir, como viver depois disso, é uma questão que nem mesmo quem atravessou essa experiência pode responder. Mas acredito que essa é a função da literatura: dizer o que não parece ser possível, pensar o que é aparentemente impensável.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.