Comportamento

Litoral manchado

Um gigantesco vazamento de óleo toma conta da costa nordestina e já é considerado o maior desastre ambiental em extensão da história do Brasil. Mas a origem do problema ainda é um enigma

Crédito: Ho / Ademas / AFP

MISTÉRIO Um barril foi encontrado na Praia de Coqueiros, em Sergipe: há poucos indícios concretos da origem do poluente (Crédito: Ho / Ademas / AFP)

A costa brasileira está enfrentando um problema grave e extraordinário: a proliferação de manchas de óleo bruto em praias do Nordeste. Sem que se saiba a exata origem do vazamento, elas estão se espalhando e deixando um rastro de destruição. O problema começou há mais de um mês e já foram detectados 139 focos de contaminação em 63 cidades nos nove estados da região. De acordo com Bruno Stefanis, presidente do instituto Biota de Conservação que atua no Alagoas, as redes de proteção aos animais do Nordeste identificaram os primeiros focos em setembro em praias do Piauí. Diante da situação atípica, instituições de preservação foram acionadas e passaram a isolar algumas áreas para permitir a limpeza adequada com pessoal especializado. “Em alguns casos a retirada manual é perigosa para as pessoas e esse material pode se impregnar nos corais ou no mangue”, explica Stefanis. Considerando os mais de dois mil quilômetros afetados, este já é o maior desastre ambiental em extensão na história do Brasil.

PERIGO O ministro Ricardo Salles esteve no Sergipe para avaliar amostras: a Petrobras informou se tratar de petróleo bruto produzido fora do Brasil (Crédito:Divulgação)

Esforços de recuperação mobilizam órgãos estaduais e municipais, liderados pelo ministério do Meio Ambiente. O que mais intriga as autoridades é a origem do óleo. As informações oficiais não esclarecem a situação e o mistério permanece. A Petrobrás afirmou que o material é petróleo bruto que não foi produzido no Brasil. Uma das hipóteses que o Ibama considera é a de que um petroleiro, ao passar pela região, lavou os tanques em alto mar. Entretanto, o alto volume de óleo não condiz com a teoria. “São mais de 500 barris de petróleo e isso indica que não foi uma simples lavagem”, afirmou o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, em coletiva em Brasília. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, corrobora suspeitas da Petrobras e da Marinha de que o petróleo encontrado pode ter sido fabricado na Venezuela, mas a estatal PDVSA nega qualquer participação no caso.

Evento criminoso

FAUNA As tartarugas sofrem com o problema: contato com o óleo pode provocar a morte em segundos (Crédito:Andressa Gomide / Acervo Aquasis / AFP)

O presidente Jair Bolsonaro não acusou país algum, mas defende a ideia de que trata de uma ocorrência criminosa. “O último problema que tivemos foi um derramamento criminoso com toda certeza, quase certeza ser criminoso, na região costeira do Nordeste”, disse na quinta-feira 10, em um seminário em São Paulo. “Se fosse um navio que estivesse afundando, por exemplo, ainda estaria saindo óleo”. No mesmo dia, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará divulgaram a teoria de que o óleo poderia estar vazando de um navio alemão naufragado na década de 1940, a 1000 quilômetros de Recife. A hipótese é consistente, visto que a aparição das manchas ao longo da costa bate com uma simulação feita pelos acadêmicos das correntes marítimas.

Os animais são seriamente afetados pelos vazamentos. As espécies que correm mais risco são golfinhos, baleias, tartarugas e aves. Como o óleo bruto é menos denso que a água do mar, ele boia na superfície, afetando os que sobem para respirar. Uma tartaruga pode morrer em questão de segundos, pois o material pode obstruir suas vias respiratórias. É temporada reprodutiva das tartarugas e a poluição representa um sério risco para as fêmeas que irão desovar no litoral. Seja lá de onde veio o óleo, o impacto foi grave. Apesar dos esforços para conter o avanço do material, ele já foi encontrado até na foz do Rio São Francisco. Acidentes como este levam anos para serem corrigidos e dessa vez não será diferente.