A morte do cantor de axé Netinho, aos 60 anos, na terça-feira (13), chamou a atenção para o linfoma não Hodgkin de células B, um tipo de câncer que afeta o sistema linfático, responsável por parte importante das defesas do organismo.
O artista havia sido diagnosticado com linfoma plasmoblástico, uma forma rara e agressiva da doença. Embora pertença ao grupo dos linfomas de células B, esse subtipo apresenta características específicas e pode ser mais difícil de tratar.
O sistema linfático é formado por vasos, gânglios e órgãos, como o baço e as amígdalas. Sua função inclui o transporte da linfa, líquido que contém células de defesa chamadas linfócitos.
Quando essas células sofrem alterações que provocam multiplicação descontrolada, podem dar origem aos linfomas.
O que é o linfoma não Hodgkin?
O linfoma não Hodgkin reúne diferentes tipos de câncer que se desenvolvem a partir dos linfócitos, células fundamentais para o funcionamento do sistema imunológico.
Essas células estão presentes nos linfonodos, também conhecidos como gânglios linfáticos, encontrados em regiões como pescoço, axilas e virilhas.
Nos pacientes com a doença, os linfócitos passam a se multiplicar de maneira anormal e podem se acumular nos gânglios e em outros órgãos.
Os linfomas de células B representam aproximadamente 85% dos casos de linfoma não Hodgkin. Existem também formas originadas de linfócitos T e de células NK, que são menos frequentes.
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) citadas pela Agência Brasil, o país deve registrar 10.180 novos casos de linfoma não Hodgkin em 2026, sendo 5.370 em homens e 4.810 em mulheres.
Qual era o tipo de linfoma de Netinho?
O cantor foi diagnosticado com linfoma plasmoblástico, um subtipo raro do linfoma não Hodgkin de células B.
A hematologista Talita Maira Bueno da Silveira, do A.C. Camargo Cancer Center, explica que a doença é mais frequentemente encontrada em pessoas com comprometimento do sistema imunológico.
De acordo com a especialista, o linfoma plasmoblástico costuma apresentar comportamento mais agressivo e maiores dificuldades de tratamento em comparação com outros tipos mais conhecidos de linfoma não Hodgkin.
Isso não significa, entretanto, que todos os pacientes diagnosticados com linfoma de células B tenham o mesmo prognóstico. A evolução da doença varia conforme o subtipo, a extensão do câncer, as condições clínicas e a resposta ao tratamento.
Quais são os principais sintomas?
Os sinais do linfoma não Hodgkin podem variar de acordo com o tipo da doença e a velocidade de crescimento das células tumorais.
Entre os sintomas mais frequentes estão:
- Aumento dos gânglios linfáticos, especialmente no pescoço, nas axilas e nas virilhas;
- Febre sem causa aparente;
- Suores noturnos intensos;
- Perda de peso involuntária;
- Cansaço persistente;
- Coceira e alterações na pele;
- Dor ou desconforto abdominal.
Em determinadas situações, também podem ocorrer náuseas, vômitos, tosse, dores de cabeça e dificuldades de concentração.
Nas formas mais agressivas, o A.C. Camargo Cancer Center aponta que podem surgir falta de ar, fraqueza nos braços ou nas pernas, dores intensas e alterações do estado mental.
A presença desses sintomas não confirma um diagnóstico de câncer, pois eles também podem estar associados a outras doenças. No entanto, sinais persistentes ou sem explicação devem ser avaliados por um profissional de saúde.
O que aumenta o risco de desenvolver a doença?
As causas exatas dos linfomas não Hodgkin ainda não são completamente conhecidas.
Pesquisadores identificaram, entretanto, fatores que podem estar associados ao desenvolvimento de determinados subtipos.
Entre eles estão o envelhecimento, a imunossupressão, algumas doenças autoimunes, a exposição à radiação e o contato com determinadas substâncias tóxicas.
Infecções também podem estar relacionadas a tipos específicos de linfoma, incluindo as provocadas pelo vírus Epstein-Barr, HIV, HTLV e pela bactéria Helicobacter pylori.
Ter um ou mais fatores de risco não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá a doença.
Como é feito o diagnóstico?
A investigação costuma começar com uma avaliação clínica e exames solicitados conforme os sintomas apresentados.
A biópsia de um linfonodo ou de outro tecido suspeito é uma etapa fundamental para identificar o linfoma e determinar seu subtipo.
Exames complementares, como tomografia computadorizada, ressonância magnética, PET-CT e, em situações específicas, avaliação da medula óssea, podem ser utilizados para investigar a extensão da doença.
Depois da confirmação, os médicos realizam o estadiamento, que classifica o linfoma de I a IV.
No estágio I, a doença está localizada em uma região. No estágio II, atinge duas ou mais regiões de linfonodos do mesmo lado do diafragma.
O estágio III indica comprometimento de regiões linfáticas acima e abaixo do diafragma. Já o estágio IV corresponde ao envolvimento disseminado de órgãos fora do sistema linfático.
A classificação auxilia na definição da estratégia terapêutica, mas não determina isoladamente as chances de recuperação.
Quais tratamentos estão disponíveis?
O tratamento depende do subtipo do linfoma, do estágio da doença, dos sintomas e das condições gerais do paciente.
Entre as opções estão quimioterapia, radioterapia, anticorpos monoclonais, terapias-alvo, imunoterapia e, em casos selecionados, transplante de células-tronco.
Nos últimos anos, o tratamento de alguns linfomas de células B avançou com o desenvolvimento de medicamentos capazes de atuar de maneira mais direcionada sobre as células tumorais ou estimular a resposta do sistema imunológico.
Uma dessas estratégias utiliza anticorpos biespecíficos, desenvolvidos para aproximar células de defesa das células cancerígenas e favorecer sua destruição.
Outra possibilidade é a terapia com células CAR-T, na qual células imunológicas do próprio paciente são modificadas para reconhecer e combater o câncer.
Essas modalidades não são indicadas para todos os pacientes. A elegibilidade depende do subtipo da doença, dos tratamentos anteriores e de critérios médicos específicos.
Segundo a hematologista Talita Maira Bueno da Silveira, os avanços têm ampliado as alternativas para pacientes que não obtiveram resposta satisfatória às terapias iniciais.
A avaliação individualizada por uma equipe especializada continua sendo fundamental para a escolha do tratamento mais adequado.
Da IstoÉ e Agência Brasil