Líder xiita pede ao governo que ouça os protestos dos iraquianos

Líder xiita pede ao governo que ouça os protestos dos iraquianos

Principal autoridade dos xiitas do Iraque, o aiatolá Ali Sistani expressou nesta sexta-feira (4) seu apoio às grandes manifestações registradas no país esta semana e pediu ao governo uma resposta “antes que seja tarde”.

“O governo deve mudar sua maneira de enfrentar os problemas do país”, foram as palavras de Sistani, em um sermão lido por um de seus assistentes na mesquita de Kerbala, ao sul de Bagdá.

No mesmo sermão, ele afirma que “o governo deve cumprir seu dever e melhorar os serviços públicos, proporcionar empregos aos que não têm, evitar o clientelismo no setor público e acabar com a corrupção, levando os responsáveis à Justiça”.

O aiatolá também denunciou os “ataques inaceitáveis […] contra manifestantes pacíficos e também contra policiais”. Ao considerar que as reformas são “obrigatórias”, criticou o primeiro-ministro e o presidente, mas responsabilizou, sobretudo, os deputados pelo mau funcionamento do Estado.

“Embora os protestos cedam por um tempo, vão reaparecer e serão ainda mais fortes e mais multitudinários”, advertiu.

Em 2014, com a “fatwa”, o aiatolá mobilizou milhares de combatentes contra os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI).

Inédito por sua natureza espontânea em um país onde as mobilizações geralmente são partidárias, ou obedecem a motivos tribais, ou religiosos, este movimento é o primeiro teste para o governo de Adel Abdel Mahdi. No poder há um ano, ele pede paciência aos iraquianos.

Na capital, novos confrontos foram registrados esta manhã entre manifestantes e policiais, que usaram balas reais para dispersar a multidão.

“Continuamos: ou morremos, ou mudamos o regime”, disse à AFP Sayyed, um manifestante de 32 anos, em Bagdá, antes do discurso do aiatolá, durante um protesto no centro da capital.

Ontem à noite, Abdel Mahdi pediu tempo para conseguir melhorar as condições de vida dos cerca de 40 milhões de habitantes de um país que, há menos de dois anos, deixou para trás quase quatro décadas de guerra e de escassez crônica de energia elétrica e água potável. Estas promessas não sensibilizaram os manifestantes.

“Há mais de 15 anos ouvimos as mesmas promessas. Não fazem a situação avançar (…) e não conseguir nos tirar das ruas”, frisou Sayyed.

– Alto Comissariado da ONU para DH pede investigação

O movimento de protesto começou na terça-feira (1º) em Bagdá e se espalhou para outras cidades do sul do país, principalmente xiitas, e exige empregos para os jovens e a renúncia de líderes “corruptos”.

Desde então, 37 pessoas – 33 manifestantes e quatro policiais – foram mortas, e centenas ficaram feridas, segundo autoridades de todo país. Um toque de recolher foi decretado na capital e em várias cidades do sul.

Nesta sexta, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos pediu uma investigação rápida e transparente sobre os mortos registrados nos últimos dias na repressão às manifestações. Para esta agência do sistema ONU, são exigências legítimas.

“Pedimos ao governo iraquiano que permita à população exercer seu direito à assembleia pacífica e à liberdade de expressão”, disse Marta Hurtado, porta-voz do alto comissário, em uma entrevista coletiva em Genebra.

“Estamos preocupados com informações que indicam que a polícia usa balas de borracha e munição real em algumas áreas e que jogou gás lacrimogêneo contra os manifestantes”, acrescentou a porta-voz.

“Todos os incidentes em que policiais causaram mortes e feridos devem ser submetidos a uma investigação rápida, independente e transparente”, insistiu a porta-voz.