Licença para ser mãe

Licença para ser mãe

Aina Pinto Foto Divulgação Em 6 de novembro, chegam às lojas o CD e o DVD Redescobrir, registro de um dos shows em que Maria Rita homenageou a mãe, Elis Regina (1945 ? 1982), cantando o repertório dela. Maria Rita chegou a se apresentar para estimadas 60 mil pessoas em show gratuito em São Paulo e, das cinco apresentações inicialmente previstas, a turnê encerrou com 33. A frieza e a grandeza dos dados numéricos também serviram de argumento para Maria Rita domar a emoção. ?Eu tive, sim, uma insegurança descabida de que isso poderia colocar um ponto final na minha carreira. A expectativa das pessoas seria de que eu só fizesse isso, que eu assumiria de vez o lugar dela?, conta Maria Rita sobre o receio de cantar o repertório de Elis. ?Foi muito importante o papel do meu irmão (João Marcello Bôscoli) e de pessoas próximas a mim, que me diziam para olhar meus números, quantos shows eu fiz, o público de cada lugar, os discos vendidos.? Mas os números não puseram a emoção de lado. O choro ficou registrado no DVD e apareceu de novo até mesmo na entrevista coletiva de lançamento de Redescobrir. Aos 35 anos, Maria Rita se coloca de igual para igual em relação às pessoas em seu redor. Pergunta se alguém ali já passou pela situação de ouvir os pais pedindo perdão para explicar o que sente ao escutar a mãe cantando ?Aos Nossos Filhos?. Prestes a dar à luz segundo filho, ela também tenta saber se há mães entre os jornalistas para se fazer entender ao dizer que não pensa mais em trabalho, só na maternidade. Seríamos todos iguais ali, não fosse o fato de Maria Rita ser filha daquela ainda hoje considerada a maior cantora do País, tendo a parte da infância acompanhada pelo público. Como mãe, ela é discreta ao falar dos filhos e do marido, o músico Davi Moraes. A seguir, trechos da conversa em que Maria Rita falou sobre o projeto, suas dificuldades, suas emoções e a possibilidade de fazer uma segunda parte do projeto. ?Os filhos cuidam dos pais? ?Eu relutei (em gravar o DVD) no início, não queria fazer para evitar o sensacionalismo. Mas, a partir do momento em que a proposta é levar o nome dela para o maior número de pessoas, não posso me dar ao luxo de ficar com esse receio. Vira uma missão. Uma parte dessa coisa de ser filha de Elis Regina implica autorizar exposições, usos de foto, coletâneas, roteiros. Chegou a um ponto em que eu posso fazer isso de outra forma. Os filhos cuidam dos pais quando eles estão mais velhos.? Política ?Pega muito forte o envolvimento político e social da minha mãe. Essas canções (como ?O Bêbado e a Equilibrista? e ?Onze Fitas?) são atemporais. Não sei se isso é uma coisa boa, mostrando a excelência da escolha de repertório dela, ou se a nossa realidade não mudou tanto assim, o que dá um pouco de desespero. Sempre fui muito inquieta, envolvida, então, para mim é muito importante acessar essa inquietação que tenho. O artista que se envolve com essas coisas, me parece, não é muito bem visto. Para mim, é incrível cantar essas músicas, porque é um desafio colocar uma raiva para fora, interpretar a angústia, a raiva, a dor, a indignação.? Ciclo ?Não vejo esse projeto como fim de um ciclo. Ficou bem explicado desde sempre que a ausência do repertório da minha mãe no meu repertório nada tinha a ver com alguma mágoa, birra, pirraça ou mau humor, mas sim com respeito, distanciamento, necessidade de se encontrar, quase como um adolescente que se rebela e que, dentro dessa rebeldia, encontra sua autoafirmação.? Gravidez ?Não senti diferença da minha primeira gestação, quando eu também me emocionava bastante. Não teve uma coisa muito mais dramática de dizer: ?Ai, ela está grávida, cantando a música da mãe.? Não teve esse drama todo.? ?Aos Nossos Filhos? ?(A música ficou de fora do DVD) porque eu mal tenho condições de ouvir, muito menos de cantar. É muito forte. Partindo do princípio que minha mãe escolheu um repertório em que ela acreditava, que ela queria dizer, ouvir sua mãe pedindo perdão por uma série de coisas, de dificuldades, de sombras, fosse daquela geração ou da vida dela, é muito difícil. Por um bom tempo da nossa vida, os nossos pais são super-heróis. E no contexto dessa música o que fica é isso, um pedido de perdão (emociona-se) que se transfere para uma realidade de criança, de adolescente, da curiosidade das pessoas, da solidão que existe por ser a filha, essa lupa nas nossas vidas. Todos aqueles itens de pedido de perdão, seja pelo lado político ou por um lado mais pessoal, são muito verdadeiros. Só de falar já fico emocionada.? Marido ?Existe uma maturidade de cada um. A relação que tenho com ele no palco é a mesma que tenho com os outros músicos. O marido fica na coxia, a esposa fica na coxia. No palco, somos parceiros profissionais.? Carreira internacional ?Segurança para isso eu tenho. Não tenho tempo. O Antônio tem 8 anos e eu não fico mais de 20 dias longe de casa. Essa é a condição. E, para cuidar de uma carreira internacional, precisaria no mínimo 40.?