Expansão do novo conflito no Oriente Médio já deslocou centenas de milhares no Líbano, que ainda nem se recuperou dos confrontos encerrados em 2024.Para muitos libaneses, os novos ataques entre a milícia Hezbollah e Israel são como um retorno à guerra.
Os novos confrontos efetivamente encerram o frágil cessar-fogo iniciado em novembro de 2024, acordado a duras penas após dois meses de confrontos que resultaram em 4 mil mortos e uma invasão terrestre israelense no Líbano.
"Famílias já exaustas por anos de dificuldades estão novamente em movimento, com milhares obrigados a dormir em carros e espaços públicos", disse à DW Suzanne Takkenberg, diretora regional para o Líbano da Ação Contra a Fome, sediada em Beirute.
É o caso de Rola Atwi, uma mãe de 36 anos do subúrbio de Haret Hreik, em Beirute. "Eu peguei meu filho e minha filha e fugimos de casa pouco antes de ela ser destruída num ataque israelense na semana passada", ela contou à DW.
Desde então, a família sobrevive na calçada, em um bairro à beira-mar no oeste da capital libanesa. Proteger os filhos se tornou a única prioridade. "Minha filha tem epilepsia e, quando há sons altos, ela sofre convulsões. Eu me sinto entorpecida. Só quero que minha filha fique segura."
Em dez dias, 750 mil deslocados
O Líbano foi arrastado para a nova guerra no Oriente Médio na semana passada, quando a milícia xiita Hezbollah, apoiada pelo Irã, começou a atacar Israel em resposta ao assassinato do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei.
Desde então, a situação se acirrou em ambos os lados da fronteira entre Líbano e Israel. Tanto o Hezbollah quanto o Irã miram civis em Israel. Contudo, as vítimas civis em Israel são limitadas devido aos sistemas de defesa e abrigos do país.
No Líbano, os ataques israelenses desencadearam uma crise humanitária em larga escala. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 570 pessoas morreram e mais de 750 mil foram deslocadas até esta terça-feira (10/03).
Outras cerca de 1.300 foram feridas, de acordo com autoridades de saúde do Líbano, que não distingue entre combatentes e civis.
Hezbollah e Hamas fazem parte do chamado Eixo da Resistência, uma aliança informal liderada pelo Irã que se apresenta como a "resistência" à influência dos Estados Unidos no Oriente Médio e defende a eliminação de Israel.
Tanto o Hezbollah quanto o Hamas são classificados como organizações terroristas por Estados Unidos, Alemanha e outros países.
Sem fim à vista
O jornal Financial Times noticiou nesta semana que a campanha de Israel contra o Hezbollah poderia continuar mesmo após o fim da guerra de EUA e Israel contra o Irã.
Em meio a uma crise humanitária crescente, os políticos libaneses se preparam para um combate prolongado. O Parlamento do Líbano estendeu a atual legislatura por dois anos, adiando as eleições originalmente previstas para maio.
No início do mês, o governo libanês já havia proibido todas as atividades militares e de segurança do Hezbollah, ressaltando que somente o Estado libanês tem autoridade para decidir sobre assuntos de guerra e paz.
Para o analista político Ralph Baydoun, o impacto político de proibir o Hezbollah é mais um "ato performático de sinalização externa do que de aplicação prática".
"Porta-vozes da mídia do Hezbollah ainda são convidados por canais de TV libaneses, inclusive por veículos anti-Hezbollah", diz o observador, que mora em Beirute. "Mais de 20 anos de controle sobre o Estado libanês permitiram ao grupo se entrincheirar em posições sensíveis no Judiciário, na segurança e no governo, dando-lhe margem para contornar decisões estatais."
Pressão por desarmamento
O governo do Líbano e as Forças Armadas Libanesas (LAF) há muito enfrentam dificuldades para impor o desarmamento do Hezbollah, conforme havia sido estipulado no cessar-fogo de novembro de 2024.
Até agora, a milícia entregou suas armas sobretudo ao sul do rio Litani, mas se recusa a se desarmar totalmente, alegando a necessidade de defender o país de ataques israelenses contínuos e da ocupação militar em cinco pontos da fronteira conjunta.
Por sua vez, Israel declarou que não deixará de atacar o Hezbollah enquanto o grupo representar uma ameaça. "Vale ressaltar que o Hezbollah nunca deu sinal verde aos esforços de desarmamento das Forças Armadas Libanesas e nunca permitiu buscas em posições não expostas por Israel", diz Baydoun. Ele acrescenta que os seis foguetes que desencadearam o atual conflito atual foram lançados de pontos ao sul do rio Litani.
Para o presidente libanês, Joseph Aoun, no entanto, o desarmamento permanece um tema crucial por ser uma condição para o tão necessário investimento internacional de reconstrução dos danos da guerra anterior. À época, o Banco Mundial estimou os custos em 11 bilhões de dólares (R$ 57 bilhões).
Perspectiva de invasão terrestre
Na terça-feira, o Exército israelense pediu a todos os residentes do sul do Líbano que deixassem suas residências para se protegerem de uma planejada operação contra o Hezbollah.
Nos últimos dias, Israel aprofundou uma invasão terrestre no Líbano que mantém apesar do cessar-fogo de 2024, estabelecendo novas posições militares próximas à linha divisória, mas em território libanês.
Observadores, porém, duvidam que uma invasão terrestre israelense em larga escala resultaria de fato no desarmamento da milícia xiita.
"O Hezbollah historicamente prefere confrontos terrestres", diz o especialista Sami Halabi, do think tank The Alternative Policy Institute, sediado em Beirute. "Uma invasão terrestre israelense provavelmente aprofundaria ainda mais a presença do Hezbollah no cenário político e de segurança do Líbano, em vez de acelerar seu desarmamento."
Baydoun compartilha da mesma visão. "Uma invasão limitada apenas fortaleceria a causa do Hezbollah, já que a ideologia de resistência só se fortalece quando o território é ocupado", diz. Porém, "não há precedentes reais de mudança de regime alcançada apenas por meio de campanhas aéreas".
Situação humanitária se agrava
A população libanesa, que tem suportado uma série de crises econômicas e políticas desde 2019, permanece vulnerável em meio ao novo conflito entre Hezbollah e Israel.
“No Líbano há falta de abrigo, serviços básicos, enquanto equipes de resgate também estão sendo alvejadas", diz a especialista em Oriente Médio Kelly Petillo, do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR, na sigla em inglês). Na visão dela, o maior desafio é encontrar formas de proteger toda a população.
Abbass Saad, um morador de Beirute de 32 anos, concorda. "Não temos controle sobre esta guerra", disse ele à DW. "Não acho que estar em estado de guerra desde 7 de outubro crie um bom ambiente para ter perspectivas de vida aqui."