“Legado de Ticiano” é celebrado 450 anos após morte em Veneza

Grandes exposições e homenagens marcam a memória do mestre renascentista que revolucionou a pintura europeia

"Legado de Ticiano" é celebrado 450 anos após morte em Veneza

Veneza, 26 de agosto de 2026 – Há exatos 450 anos, em um dia de fim de verão de 1576, o renomado pintor Ticiano Vecellio morria em Veneza, “doente de febre” e às portas de seu 90º aniversário, enquanto a peste devastava a cidade. Sua morte marca o fim de uma era, mas seu legado artístico continua a ser celebrado e estudado intensamente.

O pintor partia no auge do sucesso, reconhecido como um dos maiores artistas da Europa. Pintor oficial da Sereníssima República e mestre de príncipes e monarcas, Ticiano renovou a pintura europeia ao transitar com maestria entre o retrato de Estado, as cenas religiosas e os temas pagãos e pastorais.

  • O legado de Ticiano é celebrado com o 450º aniversário de sua morte, destacando sua influência na pintura europeia.
  • Exposições e iniciativas culturais em Cadore e Veneza marcam a data, como a mostra “Tiziano e il Paesaggio”.
  • O artista é reconhecido por ter renovado a pintura europeia, sendo precursor no retrato de Estado e na integração de figuras com a paisagem.

Sua fama era tamanha que, mesmo sob as restrições impostas pela epidemia, ele ganhou um funeral em San Marco, no coração de Veneza, e sepultura na Basílica dei Frari.

O biógrafo Tizianello, porém, registrou que o mestre teria pedido para ser enterrado em uma igreja de sua “pátria”, Pieve di Cadore. Lá, a memória do artista permanece viva na Casa Natal, recém-restaurada, e no quadro “Madonna col Bambino tra i Santi Tiziano e Andrea”, reconhecido em 2023 como obra inteiramente da mão de Ticiano.

Como Ticiano renovou a pintura europeia?

Em 27 de agosto, data exata da morte do artista, a comunidade de Cadore celebrará os 450 anos com uma série de iniciativas que se estenderão pelo outono europeu. O serviço filatélico dos Correios Italianos fará um selo comemorativo especial, e haverá a estreia de uma leitura cênica de Matteo Melchiorre em homenagem ao gênio.

A poucos quilômetros dali, em Veneza, a última obra-prima inacabada do artista — a “Pietà”, hoje nas Gallerie dell”Accademia — foi escolhido pela artista Marina Abramovic para dialogar com sua obra “Pietà (Anima Mundi)”.

Um dos pontos centrais das celebrações é a exposição “Tiziano e il Paesaggio”, em cartaz até 18 de outubro no Palazzo della Magnifica Comunità, em Cadore. Com curadoria de Bernard Aikema e Thomas Dalla Costa, a mostra reúne 33 peças, entre pinturas e gravuras, e investiga o impacto das paisagens de Ticiano sobre artistas europeus. Entre os destaques, estão os quadros “O Batismo de Cristo”, “Orfeu e Eurídice” e “São João Batista”, emprestados por renomados museus italianos, além de desenhos e xilogravuras de artistas influenciados pelo artista, como Lucas Cranach, Albrecht Durer, Rembrandt, Antoine Watteau e Marco Ricci.

Ticiano e a invenção da paisagem na arte

“Ticiano promove uma mudança no próprio conceito de paisagem na pintura”, explica Aikema à ANSA. “No Renascimento, a paisagem tinha papel secundário. Em gerações anteriores, como em Giovanni Bellini ou Cima da Conegliano, era uma espécie de pano de fundo. Já em Ticiano, figuras e paisagem se integram”, acrescenta.

Esse modelo de paisagem idílica influenciou a arte europeia até o início do século 19. “Cadore, com suas paisagens rochosas, foi descoberto pelos pintores românticos ingleses, como Josiah Gilbert, que se encantou pelo “país de Ticiano””, ressalta Aikema.

Para ele, o artista pode ser considerado “o primeiro grande pintor europeu” porque foi descoberto pelos grandes governantes do continente: primeiro os Gonzaga e os Este, na Itália, e depois os reis da França e, principalmente, os Habsburgo, com Carlos V. “A qualidade e a variedade de obras e temas é enorme. Ele é o pintor das grandes mitologias, dos retábulos e o inventor do retrato de Estado europeu. Ticiano, fora de seu tempo, conserva um fascínio eterno”, conclui o curador.