Cultura

Sucesso global, League of Legends ganha força no Brasil

Começa hoje e vai até o dia 21 de maio, no Rio de Janeiro, o “mundialito” de League of Legends, jogo eletrônico que se tornou febre mundial, ganhou status de segundo esporte de preferência dos brasileiros, movimenta cifras bilionárias e pode virar até esporte olímpico

Crédito: Reprodução/Riot Games

Final do Campeonato Brasileiro de League o Legends em Recife (PE) (Crédito: Reprodução/Riot Games)

“Top, splita no bot, que você tem tp enquanto o resto do time puxa mid”. Calma, se você não entendeu nada do enunciado descrito acima, não entre em pânico; você não está perdido nem tampouco pode ser chamado de analfabeto. Contudo, sugiro que leia esta matéria até o fim e comece a dar a devida importância que merece uma tribo urbana gigante que se utiliza do referido dialeto nas redes sociais.

Atualmente, estima-se que esses seres humanos passam de 100 milhões espalhados pelos mais diferentes países. No Brasil, o League of Legends, ou simplesmente LoL, é considerado a segunda paixão nacional, perdendo, é lógico, apenas para o futebol. Atenção: Não é blefe. Eles são muitos; quero dizer, milhares; melhor ainda, milhões.

Trata-se de gamers (jogadores virtuais) que no Brasil avançam em passos largos, tanto no ambiente cibernético como em bares, cinemas ou outros espaços públicos. Resumindo, são homens e mulheres, entre 18 e 30 anos, que gastam tempo, muito tempo, à frente de um computador se divertindo com o brinquedo. É uma diversão! Que poupem minha vida, os mais radicais praticantes do esporte. Mas o jogo virtual, a grossíssimo modo, é uma mistura de um pique-bandeira e esconde-esconde.

IstoÉ acompanhou a etapa mais recente do MIS, etapa do campeonato mundial de LoL. Confira o vídeo:

Segunda paixão nacional

No Brasil, as disputas viraram febres de encher estádios e ginásios – em 2016 mais de dez mil pessoas foram atraídas para o ginásio do Ibirapuera para assistir à final do campeonato brasileiro da modalidade. No ano anterior, o evento lotou a Arena do Palmeiras. A loucura pelo jogo é tamanha que alguns de seus jogadores têm mais apreciadores, sozinhos, nas redes virtuais, que quatro torcidas de futebol juntos da atual fase da Copa do Brasil – Atlético Goianiense, Paraná, Paissandu e Chapecoense.

Para coroar essa nova paixão nacional e consolidar o nome do País na rota dos eventos internacionais de e-sport, na semana passada, o País recebeu uma etapa do Mid-Season Invitational (MSI), o segundo maior evento internacional de League of Legends do mundo. O evento aconteceu no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, na arena onde foram disputadas as provas de ginástica na Rio 2016, vai se transformar em um gigante território dos games.

As razões para um evento desse porte desembarcar no Brasil estão ancoradas em números. Claro, negócios são negócios, brincadeiras à parte. Apesar que nesse caso, tratar-se de divertimento que é levado à sério.

Mulheres comandam

De acordo com a Associação Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Jogos Digitais (Abragames), são hoje 61 milhões de brasileiros usuários de e-sports. Gente essa que pelo menos uma vez ao mês entra em uma partidinha virtual. Surpreendentemente, o público feminino é maioria. As mulheres representam 53,6% dos gamers, de acordo com a Pesquisa Game Brasil, realizada pela SIOUX, em parceria com a Escola Superior de Marketing e Propaganda (ESPM) e a Blend New Research, em fevereiro deste ano. Pesquisadores mediram o comportamento dos atletas dos jogos eletrônicos no Brasil.

Aficionados por e-sports, Rafael, Bianca e Gabriel compareceram à etapa paulista do MIS
Aficionados por e-sports, Rafael, Bianca e Gabriel compareceram à etapa paulista do MIS (Crédito:Alan Rodrigues / ISTOÉ)

Personagens de carne, osso e charme, como a estudante de química Bianca “MissLP” Karpfenstein, 29 anos, dão vida aos números. Pausa para um esclarecimento: todas e todos gamers do League of Legends têm um nick (apelido) que, segundo reza a lenda urbana, deve ser escrito de forma intercalada ao nome de batismo. Feito o cometário, segue o jogo…

Aficionada pela arte dos combates virtuais, “MissLP”, que é fã incondicional de vários e-sports, dispara contra quem é contra tratar como esporte os jogos eletrônicos, como o LoL. “Esporte não é só aquele que transpira suor, o LoL trabalha os músculos do cérebro, estratégias e ataques. Assim como o xadrez. É esporte e duro”, argumenta a estudante de cabelos coloridos. Aliás, que confessa: “Pintei de vermelho por causa da Ariel de A pequena sereia. É meu lado menininha”, comenta em largos sorrisos, Bianca. Aqui cabe registrar: ô, turma cheirosa.

Ao contrário dos estádios de futebol, em que sobram suados, chapados e brigões, a turma do LoL é muito perfumada, arrumadinha e de paz. Mais. Não tem nada de nerd. A moçada é bacana. Ah, bizarro é o número de pessoas que usam óculos. Impressionante! Será que é por causa das telas? Sei lá.

Dúvidas à parte, o certo é que a estudante Bianca, ao lado do namorado, Rafael “Edward Nashton” D’Arezzo, e do amigo Gabriel “Batuta 10” da Costa, também anabolizam outra estatística dos jogos eletrônicos. O League of Legends há dois anos vem desbancando até mesmo a famosa NBA em audiência, no dia da final do campeonato mundial.

Para efeito de comparação, ano passado, 43 milhões de pessoas acompanharam a final do campeonato mundial de LoL, que aconteceu em Los Angeles (EUA), enquanto a decisão da liga de basquete profissional dos EUA foi assistida por 30,8 milhões de pessoas. De acordo com a Riot Games, a empresa norte americana que é dona do jogo, a decisão do World Championship de 2016 teve pico de audiência de 14,7 milhões de espectadores simultâneos.

Setor de games em alta

O reflexo na economia desse boom pode ser medido pelo crescimento do setor. O faturamento dos jogos eletrônicos deu saltos de economia chinesa e cresceu 25% nos últimos dois anos. Mais que isso. Ainda segundo a Abragames, em oito anos, o número de empresas desenvolvedoras de games aumentou em quase 600%. Para se ter uma ideia desse mercado bilionário, há dois anos o “League of legends” faturou para a Riot Games cerca de US$ 1,6 bilhão, segundo o site de investimentos Investopedia. A indústria dos games emprega mais de quatro mil pessoas e desde 2013 ultrapassa a casa de R$ 1 bilhão de investimento por ano no Brasil.

Segundo a Newzoo, consultora mundial especializada na indústria de games, o Brasil já é o 11º colocado na lista de países com maior mercado no segmento de games online. Em 2016, o País movimentou cerca de um milhão e meio de dólares com o négócio.

No mundo, o faturamento do mercado bateu a marca de US$ 99 bilhões. A Newzoo destaca ainda que Brasil ultrapassou a Austrália em arrecadação e está próximo dos dez maiores mercados para jogos eletrônicos. Esse mercado bilionário, as estratégias que envolvem as marcas que trabalham o setor do e-sport e o comportamento do público brasileiro em geral ganhou tanta notoriedade nos últimos anos que chamou a atenção do estudante Thiago Cairo Duarte que “aposta suas fichas” acadêmicas no setor.

Estudante de Ciências Sociais e Copnsumo, Thiago Cairo Duarte desenvolve pesquisa acadêmica sobre o e-sport
Estudante de Ciências Sociais e Consumo, Thiago Cairo Duarte desenvolve pesquisa acadêmica sobre o e-sport (Crédito:Alan Rodrigues / ISTOÉ)

Aos 22 anos, fascinado com as batalhas – ele já chegou a ficar 17 horas ininterruptas ligado à tela do computador jogando LoL – e no 4º semestre do curso de Ciências Sociais e do Consumo, da ESPM, ele está de olho no futuro. Duarte estuda como o e-sport interfere no cotidiano das pessoas, na cultura e nas relações interpessoais. “Interessa-me de início entender os gamers como influenciadores digitais. Ou seja, na área comportamental”, antecipa o estudante.

De fato o setor econômico de e-sports, por ser novo, tem um campo amplo para todo tipo de estudo. Afinal, enquanto a economia brasileira anda tropeçando, os empresários do setor apostam em um crescimento ainda maior para área este ano. Em 2014 o valor de negócios fechados a partir do maior evento de comercial da área, Big Festival Games, foi de US$ 2,9 milhões. Em 2015, a soma foi de US$ 11 milhões na geração de negócios e no ano passado saltou para cerca de US$ 20 milhões – um crescimento de cerca de 700% em dois anos.

LoL cria novas profissões

“Devo tudo o que tenho ao LoL”, confessa o jovem Diego Armando “Toboco” Viamonte Pereira, locutor de partidas de League of Legends com três anos de experiência na área.

Locutor do game nas redes, Diego 'Toboco' Armando diz que deve tudo ao jogo
Locutor do game nas redes, Diego ‘Toboco’ Armando diz que deve tudo ao jogo (Crédito:Divulgação / Riot Games )

Tranquilo, mas de fala rápida – cacoete de locutor -, aos 28 anos, o jovem começou a carreira de locução depois de amargar várias frustrações por falta da própria audiência. Explica-se: Toboco tinha um time de LoL na cidade Brusque (SC), e tinha o sonho de ter uma partida narrada por alguém. Mas nunca ninguém se interessou por seus jogos, “isso me deixava frustrado”, garante ele. Era só cornetagem.

Para por fim ao isolamento e à tristeza, Toboco, que era um jovem empreendedor na área de games, resolveu dar uma de Galvão Bueno e mandar ver nos jogos de sua equipe. “A primeira vez narrei para para 35 pessoas”, comenta entre risos. Hoje, ele fala para milhões. Locutor de ponta, Toboco mora em São Paulo, onde aprimorou as técnicas de locuções em cursos e leva a vida numa boa, com o dinheiro do jogo virtual.

Toboco, que há poucos dias dividiu a tela do “Programa Bem, Amigos!” com o próprio Galvão, não se faz de rogado. “Hoje, vários jargões meus estão na boca do povo”. Verdade! Não tem ninguém nesse meio que não conhece um “Robôôôôô, Barão é incrívellllll. Totalmente burstaaaado” – traduzindo: quando um personagem ataca com destreza imensa e o outro morre muito rápido. O sucesso de Toboco é tão grande que ele será um dos locutores do mundial do Rio.

Gamers também são influenciadores

Embaixador do LoL no Brasil, Gabriel 'Revolta' Henud, 21, é jogador profissional da equipe INTZ
Embaixador do LoL no Brasil, Gabriel ‘Revolta’ Henud, 21, é jogador profissional da equipe Key Stars (Crédito:Divulgação / Riot Games)

Os números desse mercado são provas incontestes que os gamers são de fato influenciadores digitais, na economia e no comportamento. O carioca Gabrile “Revolta” Henud, líder da equipe brasileira de League of Legends Key Stars, campeã brasileira de 2016, é o retrato pronto e acabado desse sucesso.

Este ano, no mundial do Rio de Janeiro, nenhum time brasileiro se classificou para a final do mundial. O Red Canids, time nacional que foi mais longe, foi elimidado na fase de grupos. Mas os nomes de muitos gamers como “Revolta” já constam no hall dos gigantes. Carismático, tímido, o “caçador”, posição que ocupa no time, foi tema do documentário Legends Rising (Lendas Emergentes, em tradução livre), desenvolvido pela Riot, produtora do jogo.

Nada mal para o garoto que abdicou das praias fluminenses para ganhar a vida como gamer profissional. De fala articulada, Gabriel Revolta entrou para a equipe do canal de esporte ESPN, dona do direito de transmissão do mundial, e tornou-se uma espécie de “embaixador” do esporte eletrônico no Brasil. Nos estádios já se escuta a turma gritar, “Revolta, eu te amo.” De fato, é apaixonante o cotidiano, os bastidores e o público envolvido com o LoL.

Ah, em tempo, se você chegou até aqui neste textão, tenho a obrigação de lhe dizer o significado da primeira oração desta matéria. Traduzindo do dialeto LoL para o português, a frase é uma estratégia de jogo é quer dizer para o jogador que está na na posição do topo no mapa avançar a rota inferior, já que ele possui habilidade de teletransporte, enquanto o time inteiro vai conquistando e avançando a rota do meio. Ou seja, unidos para avançar, ocupar e conquistar!