Comportamento

Líder histórico da extrema direita francesa deixa a vida política

Líder histórico da extrema direita francesa deixa a vida política

Jean-Marie Le Pen, fotografado em sua casa no subúrbio parisiense de Saint-Cloud, em 9 de janeiro de 2019 - AFP/Arquivos

O líder histórico da extrema direita francesa, Jean-Marie Le Pen, se despedirá na terça-feira relutantemente do Parlamento Europeu e da vida política. O político nonagenário preferia cumprir um novo mandato e “morrer no palco, como Molière”.

O cofundador da Frente Nacional, partido que presidiu por cerca de 40 anos antes de passar o comando para a filha, Marine, em 2011, exerceu sete mandatos consecutivos na Assembleia de Estrasburgo, enquanto na França durante o mesmo período só foi deputado por dois anos, de 1986 a 1988.

A primeira vez que Jean-Marie Le Pen conseguiu um assento no Parlamento europeu foi nas eleições de 18 de junho 1984, nas quais a FN conseguiu 10% dos votos na França, elegendo assim 10 deputados com uma campanha que defendia a saída do país do bloco continental.

“Foi a primeira vitória após uma longa travessia do deserto”, contou eurodeputado à AFP.

Mas o Parlamento Europeu foi também um dos piores inimigos da Frente Nacional (que agora chama-se Reunião Nacional). A justiça acusa o movimento extremista de ter criado um sistema de “apropriação indevida”, a seu favor, dos salários de seus assistentes parlamentares.

– ‘Principal porta-voz’ –

No Parlamento Europeu, Jean-Marie Le Pen se posicionou como “a figura número um da extrema direita europeia e seu principal porta-voz”, explica o cientista político francês Jean-Yves Camus.

Ali também fez contatos a nível internacional. “Mostrou que apesar de o partido estar isolado a nível doméstico, tinha amigos no exterior”, acrescenta Camus.

Le Pen foi expulso em 2015 do partido por suas declarações negacionistas. Por conta disso, mesmo que desejasse, não poderia retornar ao cargo. “Gostaria de ser como Molière, que morreu no palco”, afirma.

Aos 90 anos, “está se adaptando à ideia” de não ter mais nenhum mandato eletivo, mas nem por isso deixará a vida política. Convocou para 1º de maio seu tradicional comício em frente à estátua de Joana D’arc, em Paris.

– A chama da nação –

Apesar de sua exclusão e das desavenças com a filha, principalmente em relação ao euro, Jean-Marie Le Pen vai apoiar a lista da Reunião Nacional nas eleições europeias.

Sua filha devolveu o favor tecendo elogios numa entrevista ao jornal Le Parisien: “Apenas posso tirar o chapéu para ele por toda sua carreira. (…) Apaga-se a pequena chama da nação que agora ocupa o lugar que lhe corresponde”.

No momento da despedida, Le Pen segue devendo ao Parlamento Europeus 320 mil euros, por conta do caso dos funcionários fantasmas.

Em Estrasburgo, encarou nove pedidos de suspensão de imunidade, tanto por declarações polêmicas dentro da casa parlamentar como pelo caso dos funcionários fantasmas. Saiu vitorioso em três processos e foi derrotado nos outros seis, relembra, denunciando em seguida o “zelo excepcional” da justiça quando o assunto é ele.

No dia 12 de março, quando o Parlamento suspendeu sua imunidade pela última vez, se mostrou fatalista: “Não terei muitas mãos para apertar quando eu for embora”.