O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta uma perda significativa de apoio entre os eleitores latinos às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para esta terça-feira (3). O grupo, que teve participação importante na vitória republicana de 2024, demonstra crescente insatisfação com as políticas migratórias e econômicas adotadas pela Casa Branca.
Pesquisas eleitorais indicam uma mudança expressiva nas preferências políticas dessa parcela da população, com vantagem dos candidatos democratas em relação aos republicanos.
Segundo projeções eleitorais divulgadas pelo jornal The New York Times, aproximadamente 61% dos eleitores latinos pretendem apoiar candidatos democratas, enquanto 31% demonstram preferência pelos republicanos.
A possível mudança representa um desafio para Trump, que conquistou cerca de 44% dos votos latinos na eleição presidencial de 2024, desempenho que contribuiu para sua vitória.
Agora, dois anos depois, a combinação de dificuldades econômicas e endurecimento das políticas de imigração pode transformar antigos apoiadores em adversários políticos.
Política migratória provoca insatisfação nas comunidades latinas
Uma das principais razões para a perda de popularidade do presidente está relacionada ao aumento das operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE).
Desde o início do segundo mandato de Trump, a administração federal intensificou ações de fiscalização migratória, detenções e deportações de estrangeiros em situação irregular.
As medidas provocaram preocupação em comunidades latinas, especialmente entre famílias que possuem integrantes com diferentes condições migratórias.
Relatos de separações familiares e abordagens realizadas por agentes federais ampliaram o sentimento de insegurança entre moradores dessas comunidades.
O impacto político ultrapassa a população diretamente atingida pelas operações, alcançando também cidadãos americanos de origem latino-americana que possuem familiares ou conhecidos sujeitos às medidas.
Pesquisas recentes indicam que parte dos eleitores latinos que apoiaram Trump em 2024 considera excessiva a intensidade das ações migratórias.
Levantamento do Pew Research Center aponta que aproximadamente 30% dos latinos que votaram no republicano avaliam que sua administração ultrapassou os limites na aplicação das políticas de imigração.
O resultado evidencia uma divisão dentro de um eleitorado que havia demonstrado maior aproximação com o Partido Republicano na última disputa presidencial.
Inflação e custo de vida ampliam desgaste de Trump
Além das políticas migratórias, a economia tornou-se outro fator importante para explicar o afastamento dos eleitores latinos.
O aumento dos preços de produtos e serviços essenciais, associado às preocupações com o custo de vida, tem provocado insatisfação entre famílias de diferentes faixas de renda.
As tarifas comerciais adotadas pelo governo americano também passaram a integrar o debate sobre os fatores que pressionam os preços ao consumidor.
A estratégia protecionista de Trump, baseada na imposição de tarifas sobre produtos importados, enfrenta críticas de economistas que apontam possíveis impactos sobre os custos de produção e consumo.
Para famílias de menor renda, aumentos nos preços de alimentos, moradia e outros itens essenciais representam uma pressão proporcionalmente maior sobre o orçamento doméstico.
Nesse cenário, a economia, anteriormente considerada um dos principais pontos fortes do presidente, tornou-se uma vulnerabilidade política.
Pesquisa realizada pelo instituto Siena em parceria com o The New York Times indica que aproximadamente dois terços dos eleitores latinos demonstram maior confiança no Partido Democrata para lidar com questões econômicas e migratórias.
A mudança de percepção pode influenciar diretamente o resultado das eleições legislativas.
Pesquisas apontam queda de popularidade entre antigos apoiadores
O desgaste político de Trump também aparece em levantamentos realizados com eleitores que apoiaram sua candidatura presidencial.
Uma pesquisa do Pew Research Center, divulgada em outubro, aponta que 54% dos latinos que votaram no republicano em 2024 aprovam atualmente sua administração.
No início do mandato, esse índice era de 93%, segundo o levantamento.
A diferença representa uma redução de 39 pontos percentuais na aprovação do presidente entre esses eleitores.
O estudo também identificou que 11% dos latinos que escolheram Trump na última eleição presidencial pretendem votar em candidatos democratas para o Congresso.
Outro dado considerado relevante é o nível de mobilização eleitoral.
Entre os latinos que manifestam preferência pelos democratas, 53% demonstram maior engajamento na disputa, enquanto o índice entre os apoiadores republicanos é de 43%.
A diferença pode beneficiar o Partido Democrata caso se traduza em maior comparecimento às urnas.
O desgaste do presidente também aparece em pesquisas nacionais. Levantamento Reuters/Ipsos apontou aprovação de 31% para Trump, um dos menores índices registrados ao longo de seus dois mandatos.
Texas pode protagonizar mudança histórica no Senado
O comportamento do eleitorado latino ganha importância especial no Texas, tradicional reduto republicano e um dos estados com maior presença de população de origem latino-americana.
Os latinos representam quase um terço do eleitorado estadual e podem desempenhar papel decisivo na disputa por uma cadeira no Senado americano.
O confronto envolve o democrata James Talarico e o republicano Ken Paxton.
Pesquisas realizadas em outubro apontam uma disputa competitiva, com vantagem para Talarico em diferentes levantamentos.
Na média de cinco pesquisas eleitorais, o democrata aparece com aproximadamente 48,4% das intenções de voto, contra 45,8% de Paxton.
A diferença de 2,6 pontos percentuais indica um cenário de disputa apertada, no qual a participação de grupos específicos pode determinar o vencedor.
Uma eventual vitória democrata representaria uma mudança histórica no estado, que não elege um senador do partido há quase quatro décadas.
O resultado também teria consequências para a composição do Senado e para a capacidade de articulação política do governo Trump.
Estudos questionam associação entre imigração irregular e criminalidade
A política migratória do governo americano também alimenta discussões sobre segurança pública.
Trump frequentemente associa a imigração irregular ao aumento da criminalidade, argumento utilizado para justificar medidas mais rigorosas de fiscalização e deportação.
Entretanto, pesquisas acadêmicas apresentam resultados que questionam a existência de uma relação direta entre o crescimento da população imigrante em situação irregular e o aumento dos índices de violência.
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade da Califórnia analisou aproximadamente 11,5 mil bairros distribuídos por mais de 100 cidades americanas.
Os pesquisadores identificaram que áreas com crescimento da população de imigrantes em situação irregular não apresentaram, de maneira geral, aumento correspondente da criminalidade.
Em determinadas localidades, o estudo encontrou associação entre maior presença desses imigrantes e redução de algumas categorias de crimes.
A pesquisa reforça a importância de analisar dados empíricos na formulação de políticas públicas relacionadas à imigração e à segurança.
Os resultados, contudo, não eliminam a necessidade de avaliar particularidades regionais e outros fatores que influenciam os índices de criminalidade.
Eleições podem alterar equilíbrio político em Washington
As eleições de meio de mandato representam um momento decisivo para a continuidade da agenda política de Donald Trump.
Atualmente, o Partido Republicano possui maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, condição que facilita a tramitação de propostas defendidas pela Casa Branca.
Entretanto, pesquisas eleitorais indicam a possibilidade de os democratas conquistarem o controle de pelo menos uma das casas legislativas.
Caso isso aconteça, o governo poderá enfrentar maiores dificuldades para aprovar projetos e ampliar suas iniciativas políticas.
A oposição também teria mais instrumentos para fiscalizar decisões administrativas e conduzir investigações parlamentares.
Nesse contexto, a participação dos eleitores latinos poderá ser determinante em estados e distritos onde as disputas apresentam pequenas diferenças nas intenções de voto.
Apesar da vantagem democrata apontada pelas pesquisas, o resultado dependerá da capacidade de mobilização dos partidos e do comparecimento efetivo dos eleitores.
Com as urnas prestes a abrir, o comportamento de uma parcela do eleitorado que ajudou Trump a retornar à Casa Branca poderá definir os limites de seu poder político nos próximos dois anos.
Da IstoÉ